“Nalgum momento dos anos 60 é que apareceu esse comunismo científico, antes não o houve…”


A ideia central da minha filosofia da filosofia sofreu mudanças essenciais com os anos, o que se reflectiu na monografia “A filosofia como historia da filosofia”.  Renunciei categoricamente à anterior convicção de que a diversidade de escolas é um estado transitório, um testemunho da imaturidade do pensamento filosófico. Em cada concepção filosófica há um conteúdo, conhecimentos, que estão ausentes no marxismo. Por conseguinte, a este último, há que considerá-lo não como estando acima da filosofia, mas apenas como um dos sistemas da filosofia. A presença de uma grande quantidade de doutrinas é um mérito da filosofia, o seu modus essendi, e não, como pensávamos, um defeito. Cada nova doutrina enriquece a problemática da filosofia, dando-lhe maior conteúdo.

T. I. Oizerman, 2007

 livro

T. Oizerman foi um dos autores de um dos manuais clássicos da filosofia soviética: o Compêndio de Historia da Filosofía (Kratkii ocherk istorii filosofii), em conjunto com M.T. Iovchuk e I. Ia. Shchipanov,  e cuja primeira edição em russo apareceu há 52 anos.

O livro teve edição em várias línguas e também em espanhol, tendo sido recentemente reeditado em Cuba , onde tem tido um importante papel pedagógico na formação filosófica básica de milhares de professores e estudantes, aliás como antes aconteceu na União Soviética.

A reedição deste manual leva à seguinte pergunta, formulada por  Desiderio Navarro no blog http://observatoriocriticodesdecuba.wordpress.com  : “que pensam e que escrevem hoje sobre o marxismo e a história da filosofia, quase meio século depois,  essas grandes autoridades da nomenklatura académica soviética?”

Iván I. Shchipanov (n. 1904) morreu em 1983 e Mijaíl T. Iovchuk (n. 1908) em 1990, mas Teodor I. Oizerman (1914), o mais importante e consagrado entre eles, considerado na Russia como uma “lenda da ciência e da filosofía pátrias”, está vivo e continua muito  activo nos seus terrenos filosóficos predilectos: historia da filosofia, teoria e metodologia do processo histórico-filosófico e teoria do conhecimento.

Recentemente T. I. Oizerman concedeu algumas entrevistas que dão a conhecer o seu actual posicionamento teórico sobre a filosofia marxista, o marxismo-leninismo e o chamado “comunismo científico” que diz ser uma “invenção” soviética dos anos 60.

Numa dessas entrevistas que teve como tema a “interrelação entre a filosofia e o poder na URSS” em contraste com a situação actual, Oizerman respondeu desta forma às perguntas do historiador Dmitrii Sporov.

Oizerman

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Oizerman: ….- Existem outras tendências : políticas, filosóficas, etc. Existe uma certa emulação das ideias, há uma discussão constante. No nosso país, no tempo da União Soviética, não havia nada de semelhante. Era uma ditadura espiritual tão dura que qualquer desvio, algum pensamento independente que não coubesse … e não era necessário que não coubesse no quadro existente, bastava considerar que não cabia….

Sporov: Sim, isso também era importante…

O:… era já, de algum modo, condenado ou inclusivamente perseguido, e perseguiam-no das formas mais diversas, até chegar à detenção, às penas judiciais e assim sucessivamente (…)

S: E isso, apesar de tudo, significa que as autoridades observavam atentamente a filosofia e davam importância à forma como se desenvolvia o pensamento filosófico? Não é assim?

О: Sim, desde logo…

S: Relacionado com isso há o que se inventou como comunismo científico. Na sua opinião, e genericamente, para que é que se fez isso?

O: Formalmente, a palavra “comunismo científico” também se encontra em Engels… Nesse sentido, Marx e Engels chamaram à sua doutrina comunismo, precisamente comunismo científico. Mas não elaboraram nenhuma teoria sistemática do comunismo científico…

S: Mas tencionavam elaborá-la ou não?

O: … por isso os nossos cientistas trataram de elaborar essa teoria. Ou seja, pegando em certos enunciados dos fundadores do marxismo, construíram um determinado sistema de matérias e assim sucessivamente. A propósito, isso não aconteceu logo, mas sim nalgum momento dos anos 60 é que apareceu esse comunismo científico, antes não o houve…

S: Sim…

O: Sim. Custa-me imaginar o conteúdo da matéria desses cursos, mas sei que havia uma cátedra de comunismo científico na Faculdade de Filosofia (…). A questão está que naquilo em que em Marx e Engels se fala do comunismo se pode expor em quatro ou cinco páginas, entende?, o que há ali? A socialização dos meios de produção…. Que mais se pode juntar a isso? Que a liberdade de cada se tornará a condição para a liberdade de todos. Isso está dito. Não, ali havia muito pouco conteúdo real, aparte as premissas gerais. De maneira que esse curso de comunismo científico, em geral, e desde logo, não tinha substância. E compreenda também que o materialismo dialéctico nada mais era do que um esboço de teoria. No geral, em Marx, não se encontra com frequência a palavra “dialéctica” , mas Engels criou algo parecido com o materialismo dialéctico. Onde? Pois, digamos, no “AntiDühring”.

S: Sim

O: Um trabalho muito de divulgação popular, digamos assim… No que concerne directamente à leis da dialéctica, isso foi tirado directamente de Hegel e é um erro porque a ciência não conhece essas tais leis que determinem, duma só vez, a natureza, a sociedade e o pensamento. A ciência conhece leis, por exemplo, a lei da gravidade universal, mas ela não determina, por si só, a natureza, a sociedade o pensamento. Isso são leis supracientíficas. Em Hegel isso é compreensível porque era um filósofo realista. Mas porque é que Engels não se preveniu em relação a isso? Porque é que não compreendeu que a dialéctica existe, mas essas leis absolutas e universais não?

S: Em geral, não é uma abordagem materialista…

O: Sim, em vez duma dialéctica materialista o resultado teve a ver com evidentes empréstimos da metafísica de Hegel. Mas eu posso dizer que não chegámos a perceber isso de imediato… Eu só expressei esse ponto de vista, pela primeira vez, em 1982, na revista “Questões de Filosofia”. É verdade que antes disso não o tinha expressado publicamente, mas sim em círculos mais íntimos. Em 1982 eu já o escrevia abertamente e até reportavam ao Comité Central, mas em geral não me fizeram nada-

(…)

O: De maneira que, em geral, só quando começou um certa revisão crítica do materialismo dialéctico é que, então, e falando com propriedade, começou um pensamento vivo. Antes disso havia um absurdo que era “a questão fundamental da filosofia” – que coisa tonta! Na realidade existem muitas questões fundamentais e quase cada filósofo tem a sua questão fundamental própria. Por isso se pode falar das questões fundamentais da filosofia referindo-nos a dezenas delas.

S: Claro. Mas, em princípio, o desenvolvimento das ideias de esquerda e da filosofia marxista em particular, teria sido possível se, suponhamos, não tivesse havido tanta rigidez num único campo temático? É que no período soviético só dentro da filosofia marxista havia a possibilidade de se dedicar a outros temas e desenvolver outras ideias e então…

O: A questão está em que o desenvolvimento no terreno do marxismo só é possível tendo em conta plenamente todas as doutrinas que surgiram depois do marxismo. No entanto, inclusivé pessoas tão, dir-se-ia, criadoras como Antonio Gramsci consideravam que isso era completamente desnecessário. Que o marxismo é completamente, por assim dizer, auto-suficiente, que pode desenvolver-se a partir da sua própria base. Isso é um disparate.

S: Claro.

O: Por isso, até nos países democráticos em que ninguém impedia os marxistas de desenvolverem de forma livre a sua doutrina, não conheço ninguém que a desenvolvesse livremente… Também eles se agarravam ao dogma. Mais livre do que no nosso país, mas também dogmático. E aí está o próprio Gramsci dogmático

S: E porque é que isso aconteceu assim?

О: Penso que isso é inerente internamente ao marxismo: o dogmatismo. O dogmatismo é próprio do marxismo.

S: E por isso precisamente é que ele (Gramsci) era tão próximo dos nossos comunistas.

O: Sim. Por isso é necessário começarmos por uma revisão do próprio marxismo. Ou seja, distinguir o que dele entrou na ciência e foi aceite pro pessoas distantes do marxismo. Digamos…. A Escola de Investigações Sociais de Frankfurt tomou muito de Marx, mas também recusou muito. Marx Weber também retirou algo de Marx, mas recusou muito. Eis o que entendo como uma abordagem científica do marxismo.

S: E essa abordagem científica é possível agora? No futuro?

O: De facto já se está a realizar. Mas, na minha opinião, pessoas que sejam marxistas no sentido exacto da palavra, não colaboram (nesta abordagem), e se colaboram não são pessoas criadoras.

(…)

O: Antes havia quem se dissesse marxista, mas já expressavam opiniões completamente incompatíveis, digamos, com o dogma…

S: Na sua opinião, no período soviético era possível o desenvolvimento, enquanto disciplinas, das ciências políticas?

O: Perceba: no período soviético, enquanto houve ditadura do espírito, não se podia falar de nenhuma verdadeira politologia. Havia uma só política, uma só opinião. Relativamente à política era-se muito restritivo. Relativamente à filosofia permitia-se toda a espécie de pequenas liberdades.

S: Abertura.

О: Sim. Mas não se tocava em política.

S: E aqui, falando com propriedade, esse sistema com um pensamento único, com um único enfoque, é, no geral, um “contributo” de Staline ou…

O: Não. Também de Lenine. E em certa medida também de Marx e de Engels. A questão é que Marx e Engels tinham também uma atitude depreciativa relativamente a todas as outras doutrinas.

S: Sem dúvida.

O: Veja: os únicos que eles valorizavam, mais ou menos positivamente, eram os seus predecessores. Em particular os economistas, também os historiadores, etc. E todos os filósofos, os clássicos alemães… Mas quem veio a seguir não existia para eles. Engels diz que todo o desenvolvimento posterior não passava de lamentáveis intenções, lamentáveis intenções. O neohegelianismo, o neokantismo e tudo o mais … A Engels isso não interessava.

S: E porque é que isso aconteceu?

О: Já lhe disse que o marxismo é intrinsecamente dogmático.

S: Não, no nosso país, na Rússia. Diz-se que essa era a vontade de Lenine ou de Staline…

O: Na Rússia, no período soviético, o dogma dominava. Qual a admiração?

S: Sim, apesar disso, foi possível. Ou seja, se supusermos que a esse dogma se tivesse oposto algo constante… alguma antítese, algo contrário, talvez que não se tivesse tornado tão totalitário. É possível?

O: Compreenda… Lamentavelmente esse dogma não correspondia apenas à posição dos cientistas. Os dirigentes do partido e do governo ocupavam-se de filosofia, mas, contudo, eles mantinham-se dentro de certos limites. Na generalidade, o período soviético corresponde a um regime totalitário. Devemos, por isso, compreender o que é um regime totalitário.

S: E a filosofia, seguramente, era a que pior passava num regime totalitário.

O: Eu considero que as ciências sociais são incompatíveis com um regime totalitário, até porque a física nuclear pode desenvolver-se plenamente uma vez que se lhe proporcionam todas as condições e possibilidades.

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marx-engels_1867_in_london

Eis também como Oiserman respondeu a uma entrevista similar realizada por Irina Borísovna Fan, para la revista Diskurs Pi:

I: Como é que caracteriza o papel que o marxismo desempenhou na história russa?

O: Eu sempre considerei Marx como um grandioso pensador social, mas ao mesmo tempo, na minha opinião, ele cometeu não poucos erros, muitos dos quais eram inevitáveis. Fez-se socialista muito antes de elaborar a sua doutrina económica e social. A sua tese sobre a inevitabilidade da substituição do capitalismo pelo socialismo era uma convicção, na realidade uma fé que ele partilhava com outros socialistas. Marx não deu uma fundamentação económica do socialismo e não podia dá-la. Ele próprio escreveu que o objecto de “O Capital” era investigar as leis da sociedade contemporânea, ou seja, a capitalista. Sobre o socialismo no primeiro volume há apenas umas referências superficiais. Por isso a afirmação de Lenine de que Marx tinha demonstrado, do ponto de vista económico, a inevitabilidade do socialismo não corresponde à realidade. Nem Marx, nem Engels, nem nenhum outro pôde demonstrar que o socialismo é a única alternativa possível ao capitalismo. Em geral as alternativas não existem no singular. A única tendência que, na sua opinião, confirmava essa convicção de Marx era o processo de socialização dos meios de produção no capitalismo, ou seja, a concentração e centralização do capital. Mas o desenvolvimento posterior demonstrou que as camadas médias e baixas não desaparecem; que a pequena e média produção é capaz de renascer, inclusivamente favorecendo os interesses do grande capital. E é esse desenvolvimento normal do capitalismo que Marx não podia prever à partida. Esse erro capital manifestou-se também noutras declarações suas sobre a sociedade futura.

Marxistas que estejam a trabalhar produtivamente no nosso país ou no estrangeiro quase não há. Há estudiosos que se esforçam por orientar-se dentro do marxismo, sem romperem com ele definitivamente. Na Rússia o marxismo desempenhou um determinado papel positivo no período da preparação da revolução democrático-burguesa (de Fevereiro). A Revolução de Outubro foi a sua continuação. Ela prometia a terra aos camponeses, as fábricas aos operários. Mas tanto a terra como a indústria converteram-se em propriedade estatal, ou seja, não se cumpriram as promessas. No período soviético o marxismo transformou-se num sistema dogmatizado, distinto da doutrina de Marx e de Engels. Éramos todos marxistas sem consciência dessa importante circunstância. O marxismo-leninismo (ou seja, o marxismo não verdadeiro) converteu-se na base de ideias do Estado totalitário. Foi uma tragédia.

Este problema tem, para mais, uma dimensão pessoal: o destino dos filósofos na URSS. Nos tempos soviéticos não havia filósofos e não podia havê-los. Só havia propagandistas da filosofia do marxismo; para mais, a partir de 1938, o estudo da filosofia converteu-se em propaganda do parágrafo filosófico do “Breve curso de história do Partido Comunista de toda a União (b)” escrito por Staline. Se tivessem aparecido verdadeiros filósofos que expusessem as suas opiniões originais próprias provavelmente teriam desaparecido instantaneamente da arena social. Basta recordar os dois “vapores filosóficos” organizados por Lenine em 1922 e também os destinos trágicos de pessoas como Jan Sten y B. E. Byjovskii, em que se combinavam um talento brilhante e uma disposição forçada  a “servir” o Partido e a ideología. Para circunstâncias parecidas foram arrastados M. M. Rozental e  P. F. Iudin. Recorda-se a morte de E. V. Ilienkov, a morte de M. K. Mamardashvili na “sala de espera” do aeroporto de Vnúkovo…

AQUI: http://observatoriocriticodesdecuba.wordpress.com/2012/12/06/vuelven-los-viejos-manuales-sovieticos-de-marxismo-y-que-piensan-hoy-de-ellos-y-del-marxismo-sus-ilustres-autores/

Traduzido do castelhano por e.m.

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