Memória Libertária: Mário Castelhano


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Mário Castelhano (1896-1940) foi o último coordenador do Secretariado da CGT (Confederação Geral do Trabalho, anarco-sindicalista) e director do jornal “A Batalha” antes deste ser suspenso e proibido pelo fascismo.

De origem modesta, natural de Lisboa, começou a trabalhar aos 14 anos na Companhia Portuguesa dos Caminhos-de-Ferro. Participou nas greves de 1911, tendo depois colaborado na organização das de 1918 e 1920, motivo pelo qual foi despedido.  Passou então a ocupar-se de actividades administrativas no Sindicato dos Ferroviários de Lisboa, na Federação Ferroviária e na Confederação Geral do Trabalho. Membro da comissão executiva da Federação Ferroviária, ficou com o pelouro das relações internacionais e  a responsabilidade de redactor-principal do jornal “A Federação Ferroviária”. Dirigiu também os jornais “O Ferroviário” e “O Rápido”.

 Participou na reorganização do Conselho Confederal da CGT, após o 28 de Maio de 1926, de onde saiu eleito responsável pelo novo secretariado e redactor-principal de “A Batalha”. Após a tentativa insurreccional de Fevereiro de 1927, a repressão policial acentuou-se, a CGT é ilegalizada e o jornal “A Batalha” assaltado e a sua tipografia destruída, vindo Mário Castelhano a ser preso em Outubro do mesmo ano e deportado no mês seguinte para Angola, onde ficou dois anos.

Em Setembro de 1930, foi enviado para os Açores e em Abril de 1931, para a Madeira, participando na insurreição desta ilha contra o Governo. Com a derrota deste movimento, foge da Madeira, embarcando clandestinamente no porão do navio Niassa. Em 1933, estava de novo à frente do secretariado da CGT e faz parte do grupo que organiza o 18 de Janeiro de 1934, de que se assinalam agora os 79 anos.

O levantamento do 18 de Janeiro – que visava o derrube do regime fascista – teve a ver, como pretexto mais próximo, com a decisão de Salazar de impor aos sindicatos estatutos corporativos, de índole fascista. Ou seja, a fascização dos sindicatos. Algo que os anarco-sindicalistas da CGT não podiam aceitar.

Os militantes anarquistas, embora dizimados pela repressão dos últimos sete anos– já que foi contra eles que se dirigiu o mais odioso e implacável da repressão, uma vez que o Partido Comunista era quase inexistente (ou como escreveu ironicamente José de Almeida, um destacado militante anarquista dessa altura:  “cabiam todos num banco de jardim”) – decidiram agir.

Apesar de pouco numerosos, os sindicatos ligados aos comunistas, bem como aos socialistas e autónomos, foram convidados a aderir ao movimento, em que Mário Castelhano esteve muito envolvido e que, por motivos diversos – nomeadamente, algum desleixo organizativo por parte dos comunistas que alertaram a policia através de comunicados onde falavam da acção que iria ser desencadeada e da explosão de bombas na linha férrea, na zona de Xabregas – não teve o resultado esperado, com levantamentos operários mais relevantes apenas na Marinha Grande, Silves, Sines, Almada, Barreiro, Leiria, etc., mas sem atingir os principais centros populacionais. Largas dezenas de militantes anarco-sindicalistas e alguns comunistas foram presos. Mário Castelhano, que tinha sido um dos elementos-chave do movimento foi preso a 15 de Janeiro, três dias antes,  e foi condenado pelo Tribunal Especial Militar a 16 anos de degredo. Embarcou em Setembro de 1934, com destino à Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e em Outubro de 1936, para o campo de concentração do Tarrafal.

Ali, no campo da morte, Mário Castelhano destacou-se pela sua sólida formação moral, fundada sob uma forte energia e integridade. Isso transpareceu frequentemente, por exemplo,  quando o acampamento foi atingido por uma epidemia. A maioria dos presos estavam acamados e sem medicamentos, mas Mário Castelhano, com a sua autoridade moral e capacidade de liderança, organizou a assistência aos doentes da melhor forma possível e com o que os poucos recursos permitiam. Mesas, cadeiras, tudo foi utilizado para o aquecimento da água de abastecimento necessária para suprir a carência em medicamentos. Mas assim que a crise passou Mário Castelhano sucumbiu em poucos dias queixando-se de dores no estômago. Morreu no Tarrafal a 12 de Outubro de 1940, juntando os seus restos mortais aos de cerca de quatro dezenas de anarquistas, anarco-sindicalistas, comunistas e sem filiação que perderam a vida neste vil campo de concentração entre finais dos anos 30 e meados dos anos 50 do século passado

e.m (com internet)

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