Memória Libertária: Vital José e Joaquim Candieira, dois anarcosindicalistas alentejanos de há cem anos


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Vital José e Joaquim José Candieira, delegados dos trabalhadores rurais de Évora e da Federação Rural ao congresso da CGT de 1925 em Santarém.

Esta fotografia, inicialmente publicada na imprensa libertária da época do IV congresso nacional operário de 1925 em Santarém, foi conservada por militantes anarquistas portugueses e enviada na década de 70, com destino à publicação histórica então em elaboração por Edgar Rodrigues, no Brasil, que por sua vez a entregou ao Arquivo Histórico-Social, criado pelo Centro de Estudos Libertários, reunido em Lisboa nos anos 1980-1987 e depositado na Biblioteca Nacional (aqui).

Sobre Vital José e Joaquim Candieira, dois activos militantes anarco-sindicalistas alentejanos, há já referências desde o 1º Congresso dos Trabalhadores Rurais que se realizou em Évora em 1912 e de que recentemente se assinalou o centenário. Sobre este Congresso escreve A.A.B.M no “ALMANAQUE REPUBLICANO”:

Neste congresso estiveram presentes delegados de 39 sindicatos que representavam 12 525 trabalhadores rurais de Évora, Coruche, Ferreira do Alentejo, Amieira, Odemira, Cuba, Alpiarça, Castelo de Vide, Portalegre, Aviz, Torrão, Portel, Beja, Alcáçovas, Terrugem, Azaruja, S. Mancos, Evoramonte, Machede, Monte do Trigo, Egrejinha, Val Pereiro, Vendinha, Torre dos Coelheiros, S. Tiago do Escoural, Monte do Trigo, Vil’Alva, Montoito, Campo Grande, Arraiolos e Torrão.

Os trabalhos realizaram-se na sede da União Local, em Évora, tendo presidido à sessão Manuel Ferreira Quartel, representante da Associação dos Trabalhadores Rurais de Coruche, como secretário Carlos Rates, elemento da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista e João Bernardo Alcanena, delegado da União dos Sindicatos de Évora.

A primeira proposta aprovada pelo congresso foi apresentada por José Joaquim Candieira e visava o protesto contra a prisão do professor José Buisel, de Portimão, e defensor da classe operária e preso por suspeita de conspirar contra a República.

Foram ainda apresentadas propostas de António Marcelino, da Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora, que também protestou contra a prisão de José Buisel e acrescentou o problema da aquisição de material bélico por parte do Governo da República, no valor de 70 000 conto, enquanto o País continuava mergulhado na pobreza, na ignorância e a população era obrigada a emigrar em grandes quantidades. Interveio também, a propósito da aquisição de material bélico, Manuel Maria de Castro, da Associação de Trabalhadores Rurais de Cuba, que defendeu parcialmente a posição do Governo, mas a maioria dos congressistas apoiou a posição defendida por Candieira. Interveio ainda Vital José, da Associação dos Trabalhadores Rurais de Aviz, caucionando a opinião de José Joaquim Candieira, bem como as intervenções de Manuel da Conceição Afonso, delegado da Comissão Executiva do Congresso SindicalistaJoão Narciso, delegado dos Trabalhadores Rurais do Campo GrandeSebastião Caeiro, do Sindicato Rural de Vendinha António Marcelino, dos trabalhadores de Évora.

As principais conclusões do Congresso das Associações de Trabalhadores Rurais de Évora foram então as seguintes:
1º Fundar a Federação Corporativa dos Trabalhadores Rurais;
2º Iniciar a discussão dos estatutos da Federação e que as associações representadas paguem a quota de admissão;
3º Convidar as restantes associações de classe que não estiveram presentes no congresso a aderirem e a federarem-se e começarem a pagar a quotização a partir de Setembro desse ano;
4º Promover um congresso Corporativo em Abril de 1913, em Évora, para discutir temas como o problema agrário, o cooperativismo e outras questões que interessam ao proletariado rural;
5º Uma vez constituída a Federação, era fundamental reconhecer o problema da unidade operária e o perigo que representava a tutela política, devendo também aderir à Comissão Executiva do Congresso Sindicalista.

No último dia dos trabalhos, o congresso foi presidido por Manuel António de Castro, de Cuba e secretariado por Manuel Afonso e António Marcelino.

Depois de um conjunto de intervenções de Manuel António de Castro,Manuel Ferreira QuartelFrancisco CaeiroJosé ClementeFrancisco Manuel LapaVital JoséJúlio Manuel GalanteAntónio MarcelinoJosé MarreirosManuel Isidro BentoManuel dos SantosJoão Narciso,Francisco António Serrano Carlos Rates.

Procedeu-se, por fim, à organização da Comissão Administrativa do Conselho Federal que ficou assim constituído:
Secretário Geral: Vital José
Adjunto: António Marcelino;
Secretário Administrativo: Francisco Cebola;
Tesoureiro: Joaquim Galhardo;
Bibliotecário: António Joaquim Graça.
Outro dos resultados deste congresso foi o início da publicação de uma publicação periódica que se iniciou alguns meses depois: O Trabalhador Rural.

Bibliografia consultada:
Ventura, AntónioSubsídios para a História do Movimento Sindical Rural no Alto Alentejo (1910-1914), Seara Nova, Lisboa, 1976.

Documento relacionado: Assembleia fundadora e actas da Associação de Classe dos Trabalhadores Rurais de Évora 

…………….

Relativamente ao I centenário do 1º Congresso dos Trabalhadores Rurais a CGTP/Intersindical assinalou a data com uma evocação junto à antiga sede da União Local de Sindicatos de Évora, na Rua da Freiria, 21, feita por Diogo Serra, da direcção da CGTP de Portalegre, que faz um memorial histórico baseado em fontes libertárias. AQUI.

Para conferir, um texto crítico da apropriação por parte da CGTP do Centenário do I Congresso dos Trabalhadores Rurais. AQUI

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