Novas vozes libertárias: David Graeber


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David Graeber (à esquerda)  nasceu em 1961 em Nova Iorque. É antropólogo e professor de antropologia social no Colégio Goldsmith da Universidade de Londres. Antes foi professor associado na Universidade de Yale, instituição que se negou a recontratá-lo em 2007 devido às suas posições políticas. Anarquista, com diversos livros publicados, Graeber participa activamente em movimentos sociais, protestando contra o Fórum Económico Mundial de 2002 e participando no movimento Occupy Wall Street – é-lhe mesmo atribuída a criação da frase “We are the 99%”.  É membro do sindicato anarco-sindicalista IWW (International Workers of the World). Devido à sua actividade enquanto investigador, mas também como militante social, tem chamado a atenção dos meios de comunicação (alternativos e de massas) sendo um dos intelectuais anarquistas da actualidade mais referenciados. De entre os seus livros destacam-se: “Direct action: an ethnography” (2009),  “Debt: the first 5,000 years” (2011) e “Fragments of an anarchist anthropology” (2004).

Porque é que há tão poucos anarquistas na Academia?

Esta é uma questão pertinente, na medida em que hoje o anarquismo, enquanto filosofia política, está num apogeu. Os movimentos anarquistas ou inspirados no anarquismo crescem por todo o lado; os princípios anarquistas tradicionais – autonomia, associação voluntária, auto-organização, ajuda mútua, democracia directa – podem-se encontrar tantos nas bases organizativas do movimento antiglobalização como numa grande variedade de movimentos radicais em qualquer parte do mundo. Os revolucionários do México, Argentina, India e outros lugares têm ido abandonando, cada vez mais, os discursos que advogavam a tomada do poder e começaram a formular ideias diferentes em torno do que poderá ser o significado de uma revolução. É verdade que a maioria utiliza ainda com timidez a palavra “anarquista”, mas como assinalou recentemente Barbara Epstein, o anarquismo já ocupa largamente o lugar que o marxismo tinha nos movimentos sociais dos anos sessenta. Inclusive aqueles que não se consideram a si mesmos anarquistas vêem-se obrigados a definirem-se em relação a ele e a inspirarem-se nas suas ideias.

E, sem dúvida, às universidades apenas chega um reflexo de tudo isto. A maioria dos académicos tem uma ideia muito vaga sobre o que é o anarquismo ou recusam-no, servindo-se dos estereótipos mais toscos. (“Organização anarquista! Não é isso um contra-senso??) Nos Estados Unidos há milhares de académicos marxistas de uma escola ou de outra, mas apenas uma dezena de professores dispostos a autodenominarem-se como anarquistas.

Será uma questão de tempo? É possível. Talvez que dentro de uns anos as universidades estejam a rebentar de anarquistas, mas não tenho grandes esperanças. Parece-me que o marxismo tem uma afinidade com a universidade que o anarquismo nunca terá. Para além do mais, trata-se do único grande movimento social inventado por um académico, ainda que desde o início se tenha convertido num movimento que tinha como objectivo a união da classe operária. A maioria dos ensaios sobre a história do anarquismo afirmam que as suas origens foram similares às do marxismo: o anarquismo apresenta-se como uma criação de certos pensadores do século XIX – Proudhon, Bakunin, Kropotkin, etc., – sendo fonte de inspiração de organizações operárias, que depois se teria envolvido em lutas políticas, dividido em correntes…O anarquismo, nos relatos mais comuns, costuma ser apresentado como o parente pobre do marxismo, um pouco coxo teoricamente, que se vê compensado, no entanto, no plano ideológico pela sua paixão e sinceridade. Mas, na verdade, esta analogia é, no melhor dos casos, forçada. Os “pais fundadores” do século XIX nunca pensaram ter inventado qualquer coisa particularmente nova. Os princípios básicos do anarquismo – auto-organização, associação voluntária, apoio mútuo – referem-se a formas de comportamento humano que se considerava que tinham feito parte da humanidade desde sempre. O mesmo se pode dizer da recusa do Estado e de todas as formas de violência estrutural, desigualdade ou domínio (anarquismo quer dizer, literalmente, “sem governantes”), e também o reconhecimento de que todas estas formas se relacionam e reforçam, até certo ponto, entre si. Estas ideias nunca foram apresentadas como o gérmen duma nova doutrina. E, de facto, não o eram: pode-se encontrar um fio constante de pessoas que defenderam semelhantes argumentos ao longo da história, apesar de que tudo aponte para que, em quase todos os momentos e lugares, estas opiniões raramente se expressavam por escrito. Referimo-nos,  portanto, menos a um corpo teórico do que a uma atitude ou inclusive, poderíamos dizer, a uma fé: a recusa de certo tipo de relações sociais, a certeza de que outras serão muito melhores para construir uma sociedade habitável, a crença de que tal sociedade poderá realmente existir.

Se, para além disto, se compararem as escolas históricas do marxismo e do anarquismo vê-se que se tratam de projectos fundamentalmente diferentes. As escolas marxistas possuem autores. Da mesma maneira que o marxismo surgiu da mente de Marx, temos também leninistas, maoistas, trotskistas, gramscianos, althusserianos… (Note-se que esta lista está encabeçada por homens que foram chefes de Estado e vai descendo gradualmente até se chegar aos professores franceses). Numa ocasião, Pierre Bordieu assinalou que se o mundo académico fosse como um jogo em que vários especialistas lutam pelo poder, qualquer um saberia que teria vencido quando os outros começassem a perguntar-se como criar um adjectivo a partir do seu nome. É precisamente para preservar a possibilidade de ganhar este jogo que os intelectuais insistem em continuar a usar nas suas discussões teoria da história do tipo “Grande Homem”, de que, sem dúvida, se ririam em qualquer outro contexto. As ideias de Foucault, como as de Trotsky, nunca são tratadas como um produto directo de um certo meio intelectual, resultado de conversas intermináveis e de discussões em que participam centenas de pessoas, mas sim como o produto do génio de um só homem ou, muito ocasionalmente, de uma mulher. Tão pouco se trata de que a política marxista se tenha organizado como uma disciplina académica ou que se tenha convertido num modelo para medir, cada vez mais, o grau de radicalidade dos intelectuais. Na realidade, ambos os processos desenvolveram-se em paralelo. Na perspectiva da academia, isto produziu resultados satisfatórios – o sentimento de que deve existir algum princípio moral, de que as preocupações académicas devem ser relevantes para a vida das pessoas -, mas também desastrosos: converteram grande parte do debate intelectual numa paródia da política sectária, em que todos se esforçam por caricaturar os argumentos do outro, não só para mostrar como são erróneos, mas sobretudo quão malévolos e perigosos podem chegar a ser. E tudo isso quando nas discussões que têm se servem de uma linguagem tão hermética que só quem tenha podido permitir-se sete anos de estudos superiores pode ter acesso a elas.

Consideremos agora as diferentes escolas do anarquismo. Há anarcosindicalistas, anarcocomunistas, insurrecionalistas, cooperativistas, individualistas, palataformistas… Nenhuma deve o nome a um Grande Pensador; pelo contrário, todas recebem o seu nome por algum tipo de prática ou, é mais comum, de um princípio organizativo. (Significativamente, as correntes marxistas que não recebem o nome de pensadores, como a autonomia ou o comunismo conselhista, são as mais próximas do anarquismo). Os anarquistas gostam de se destacar pela sua prática e pela forma como se organizam para levá-la a cabo e, de facto, consagram a maior parte do tempo a pensar e a discutir precisamente isso. Os anarquistas nunca se interessaram muito pelas questões estratégicas e filosóficas que historicamente preocuparam os marxistas. Os anarquistas consideram que questões como “serão os camponeses uma classe potencialmente revolucionária?” é algo que deve ser decidido pelos próprios camponeses. Qual é a natureza da mercadoria? Em vez disso discutem sobre qual a forma verdadeiramente democrática de organizar uma assembleia e em que momento a organização deixa de ser enriquecedora e coarta a liberdade individual. Ou sobre que ética deverá prevalecer na oposição ao poder. O que é a acção directa? É necessário (ou correcto) condenar publicamente alguém que assassina um chefe de Estado? Ou pode o assassinato ser considerado um acto moral, especialmente quando evita algo terrível, como uma guerra? Quando é correcto apedrejar uma janela?

Em resumo:

1. O marxismo tende a ser um discurso teórico ou analítico sobre a estratégia revolucionária.

2. O anarquismo tende a ser um discurso ético sobre a prática revolucionária.

Obviamente que tudo o que disse até agora não deixa de ser um pouco caricatural (houve grupos anarquistas muito sectários e muitos marxistas libertários partidários da prática, incluindo-me possivelmente a mim). De todas as maneiras, tal como assinalei, isto implica uma grande complementaridade potencial entre ambos. E, de facto, houve-a: Mikail Bakunin, para além de discutir com Marx sobre questões de índole prática em inúmeras ocasiões, também traduziu pessoalmente O Capital para russo. Isso, facilita também a compreensão do porquê de haver  tão poucos anarquistas na academia. Não tem a ver simplesmente com o facto do anarquismo não utilizar uma teoria tão elaborada, mas sim pelo facto das suas preocupações terem a ver sobretudo com questões práticas; insiste, antes do mais, em que os meios devem estar de acordo com os fins e que não se pode gerar a liberdade através de meios autoritários. De facto, e dentro do possível, deve-se antecipar a sociedade que desejamos criar nas nossas relações com os amigos e companheiros. Isto não encaixa muito bem com o trabalho na universidade, talvez a única instituição ocidental, para além da igreja católica e da monarquia britânica, que permaneceu inalterável desde a Idade Média, promovendo debates em hotéis de luxo e pretendendo que isso, inclusive, fomenta a revolução. Pelo menos, é de esperar que um professor abertamente anarquista questione como funcionam as universidades – não me refiro a solicitar um departamento de estudos anarquistas – e isso, com certeza, lhe traria muito mais complicações  do que qualquer coisa que alguma vez pudesse escrever.

(Excerto do 1º Capítulo de “Fragmentos de antropologia anarquista”, traduzido da edição em castelhano da editorial Virus ( download aqui: http://ebookbrowse.com/graeber-david-fragmentos-de-antropologia-anarquista-pdf-)

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