Mês: Fevereiro 2013

Porque é que, como anarquistas, devemos estar no 2M


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Porque não nos chega dizer “que se lixe a troika” ou que “está na hora do governo se ir embora” devemos estar este sábado na rua juntamente com os muitos milhares de trabalhadores que vão sair por todo o país em protesto pelos cortes, pela austeridade, pelo desemprego, pela fome e pela miséria.

Porque a nossa revolta não é contra este ou aquele governo, que volta um volta outro são sempre o mesmo, mas sim contra o sistema capitalista que nos explora, oprime e sufoca não podemos deixar que outros encham a rua apenas com o eco de um reformismo e de um eleitoralismo assumidos em que a alegria do derrube de um governo dura apenas até à tomada de posse do próximo.

Porque temos connosco uma tradição e um presente de afirmação e luta, assentes num combate firme face ao Capital e ao Estado, sabemos que este sistema assente nos bancos e na alta finança só pode ser destruído pela acção organizada dos trabalhadores e dos sectores mais explorados e oprimidos da sociedade.

Porque “trazemos um mundo novo nos nossos corações” temos que estar nas ruas, nas praças, nas assembleias populares, mostrando que só a auto-organização de base, horizontal, baseada na solidariedade e no apoio-mútuo, conjugados com a prática da acção directa e da democracia directa, podem ser os instrumentos úteis, necessários e eficazes para a mudança de paradigma social e para a construção de uma sociedade mais justa, em que o bem estar e a felicidade estarão ao alcance de todos.

Porque sabemos que só as nossas forças valem e que é na luta, no combate e na afirmação dos nossos ideais e valores que as nossa convicções e ideias se reforçam, vamos estar nas manifestações deste 2 de Março, por todo o país, levando connosco a indignação, o protesto, mas também uma mensagem clara de que é cada vez mais imperioso lutar aproveitando este momento de crise aguda do capitalismo ocidental e, sobretudo, de que um outro mundo é possível e que está nas nossas mãos construí-lo.

e.m.

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(Imprensa Libertária) Não há crise nos Açores!


Capturar

(O blog e o boletim anarquistas “Vida Nova” chegam-nos dos Açores. Sempre com materiais interessantes, ainda que espaçados no tempo, sobre figuras ligadas ao Açores ou sobre temáticas mais gerais. O texto que mais abaixo reproduzimos é o editorial do último número do Boletim “Vida Nova”, escrito com muito humor sobre a realidade política e social açoriana pós-eleições e depois do anúncio de que os norte-americanos iriam retirar uma parte do seu contingente militar da Base das Lajes…)

Não há crise nos Açores

As notícias que têm circulado, nos Açores, nos últimos tempos são deveras animadoras para os seus habitantes. Com efeito, o novo governo regional, resultante do ato eleitoral que ocorreu no passado mês de Outubro, está a desenvolver um trabalho exemplar que fará com que os Açores fiquem imunes à crise que afeta todos os portugueses.
A Universidade dos Açores está a atravessar um dos períodos melhores da sua vida e a ameaça de fechar em Fevereiro por falta de verbas não passa de uma forma de pressão para que o governo da República desembolse mais alguns euros. Não havendo problemas ambientais nos Açores, os estudantes de engenharia do ambiente passaram a estudar as touradas.
Os hospitais dos Açores não sentem qualquer dificuldade no seu funcionamento e as dívidas que possuem aos fornecedores são pura invenção dos contabilistas.
A Associação de Municípios da Ilha de São Miguel está apostada na instalação de uma incineradora para queimar tudo o que for lixo, contribuindo assim para a criação de muitos empregos, para a produção de energia verde e para o enriquecimento de uns pobres capitalistas que são os mesmos do costume. A população de São Miguel está radiante pois vai ver a sua taxa de resíduos aumentada para que o empreendimento seja rentável para os seus algozes.
Na ilha Terceira os políticos atacam-se uns aos outros por causa da quase garantida saída de grande parte dos militares americanos da Base Militar que como sabemos só era usada para missões de paz, sobretudo no Médio Oriente. Ao contrário do que parece, apesar do despedimento de muitos trabalhadores açorianos não haverá grandes problemas para a ilha pois a sua grande riqueza é a tauromaquia que contribui significativamente para o PIB do arquipélago, para além de ser uma mina para meia dúzia de famílias da nobreza local.

José Libertário

aqui: http://vidanovazores.blogspot.pt/

Aquilino Ribeiro (1885-1963), um anarquista no Panteão Nacional


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Este ano assinalam-se os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro, um dos grandes escritores portugueses. Para além de uma escrita notável, empenhado nos aspectos sociais e sensível ao sofrimento dos mais pobres e dos explorados, Aquilino Ribeiro teve uma militância anarquista conhecida na sua juventude, permanecendo sempre muito ligado aos princípios libertários.

Segundo os seus biógrafos, e nunca escondido por ele próprio (nomeadamente nos seus livros mais autobiográficos como “Um Escritor Confessa-se”), foi um homem de acção,  esteve preso e foi perseguido,  enquanto anarquista, e segundo alguns historiadores, poderá ter estado mesmo ligado ao regicídio de D. Carlos. Os métodos de acção directa não lhe eram estranhos.

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Aquilino Ribeiro, com 17 anos, quando frequentava o Seminário de Beja

A partir de 1902 frequentou o Seminário de Beja, de onde foi expulso em 1904, “depois de ter dado uma réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel Ançã, um dos dois irmãos que ao tempo dirigiam a instituição” (1)

Três anos depois, em 1907, com 22 anos de idade, “o rebentamento de caixotes de explosivos guardados na sua casa leva à morte de dois correligionários e a que seja encarcerado na esquadra do Caminho Novo, de onde se evade em situações rocambolescas, como se pode ler no volume de memórias antes mencionado”.(1)

Evade-se da prisão a 12 de Janeiro de 1908 e durante a clandestinidade em Lisboa mantém os contactos com os regicidas, refugiado, na Rua Nova do Almada, em frente da Boa Hora.

Homem de acção, depois de estar algum tempo na clandestinidade, foge para Paris, de onde regressa em 1914.

Participa na revolta de 7 de Fevereiro de 1927, em Lisboa. Exila-se em Paris. No fim do ano regressa a Portugal, clandestinamente, participando na  revolta de Pinhel. Encarcerado no presídio de Fontelo (Viseu), evade-se e volta a Paris. Em Lisboa é julgado à revelia em Tribunal Militar, e condenado.

Regressa posteriormente a Portugal, onde morre a 27 de Maio de 1963, quando se comemoravam os 50 anos da sua actividade literária . Na ocasião estavam-lhe a ser feitas homenagens em várias cidades do país. Nessa mesma hora, a Censura comunicava aos jornais não ser mais permitido falar das homenagens que lhe estavam a ser prestadas.

Em 2007, por entre muitos protestos dos sectores mais reaccionários da sociedade portuguesa, a Assembleia da República decidiu homenagear a sua memória e conceder aos seus restos mortais as honras de Panteão Nacional (2). Na frieza da Igreja de Santa Engrácia, se os mortos falassem, Aquilino Ribeiro talvez só pudesse ter uma conversa decente com o velho Guerra Junqueiro, cujos ossos também ali repousam.

Nos seus livros a luta pela liberdade é sempre uma constante e uma das suas obras primas “Quando os Lobos Uivam”, que esteve proibido durante o fascismo, é um verdadeiro hino à insubmissão e, por todo ele, perpassa um halo libertário de apelo à revolta e à transformação social.

Aquilino Ribeiro foi um vulto grande do pensamento social, anarquista militante em várias fases da sua vida, para além de um enorme escritor e intelectual, como o foram aliás grandes vultos da sociedade portuguesa do século passado, muito influenciados pelas ideias libertárias até ao fim das suas vidas: os escritores e jornalistas Ferreira de Castro (1898 – 1974) e Jaime Brasil (1896 – 1966); o filósofo Leonardo Coimbra (1883-1936) ou o cientista Aurélio Quintanilha (1892 – 1987), entre muitos outros.

1 – http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/figuras-da-cultura-portuguesa/1398-aquilino-ribeiro.html

2. http://naoapaguemamemoria2.blogspot.pt/2007/09/aquilino-ribeiro-no-panteo-nacional.html

Útil também a consulta de: http://vidanovazores.blogspot.pt/2007/09/aquilino-ribeiro-com-ou-sem-panteo-o.html

lobos uivam

Assinatura de_Aquilino_Ribeiro

Comuna Kronstadt: uma casa okupada nos anos 70 em Lisboa


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Hoje, em  que tanto se fala em casas ocupadas e espaços autogestionados, vale a pena recordar aquela que foi a primeira casa ocupada por anarquistas em Lisboa após o 25 de Abril de 1974 e a que foi dado o nome de “Comuna Kronstadt”, em homenagem aos marinheiros deste porto russo que, depois de se terem levantado contra o Czar e terem sido obreiros da revolução, foram também os primeiros a revoltarem-se contra o novo poder autocrático dos bolcheviques.

A ocupação deverá ter acontecido nos finais de 1974, início de 1975, e foi levada a cabo por jovens anarquistas portugueses e espanhóis que, na altura, ainda Franco era vivo em Espanha, procuravam em Portugal seja o exílio, seja a participação no processo português que, na altura, se entendia como potencialmente revolucionário. Um dos anarquistas do Estado espanhol que ali viveu, logo nos primeiros tempos após a ocupação, foi Fernando Arrikagoitia “Cibeles”, ainda hoje um dos rostos mais conhecidos do movimento libertário e ecologista de Vitória (País Basco)

O palacete situava-se na rua Ribeiro Sanches, à Lapa, junto à rua das Janelas Verdes e estava num adiantado estado de degradação. O rés do chão estava ocupado por um  recolector de papel e de cartão, enquanto que o segundo andar estava já sem condições de habitabilidade.

Ao longo dos anos (o palacete esteve ocupado até talvez finais dos anos 70) foram-se fazendo obras de restauro no 1º andar (casa de banho, portas, vidros, etc.) e pela “Comuna Kronstadt” passaram e viveram algumas dezenas de jovens, a maioria libertários, e ali se realizaram muitas reuniões anarquistas, foram preparadas manifestações, etc.

Algumas vezes também a policia fez surtidas no espaço, apreendendo algum material.

Posteriormente o edifício (hoje, na foto) foi recuperado e transformou-se numa residência de luxo.

a.

(Venezuela) Massacre em cadeia superlotada


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Uma revista musculada na prisão de Uribana, na Venezuela, há precisamente um mês, causou a morte a, pelo menos, 60 detidos. Mas o número de vítimas do massacre, a mando do Governo, pode ser ainda maior.

Uribana: Não seremos cúmplices do massacre

Rede Anarquista

No passado dia 25 de Janeiro um batalhão da Guarda Nacional Nacional, SEBIN e outros organismos de repressão a mando do General do Comando Regional Nº 4 e da ministra dos Assuntos Penitenciários, Iris Varela, executou um assalto ao Centro de Reclusão de Uribana, Edo.Lara, que culminou com o massacre de, segundo se estima, 60 pessoas assassinadas. De acordo com as denúncias dos familiares dos presos, este número é muito maior já que há pessoas desaparecidas e/ou enterradas nos próprios recintos penitenciários.

A acção foi justificada com o argumento de que o “Estado retomará o controlo das prisões” e por uma série de políticas que o presidente Chavez e o seu governo têm vindo a implementar. O seu objectivo era ocupar, através de um assalto, aqueles espaços e aniquilar qualquer vestígio de articulação social à margem do assistencialismo da Administração Penitenciária. Esta politica chamada de “Humanização Penitenciária” não é senão um projecto de simples maquilhagem dos centros de tortura e humilhação prisional para tentar dissimular o grotesco negócio realizado em tornos dos pres@s. Para o governo bolivariano os pres@s são, também, uma simples mercadoria. Na sua maioria, as prisões estão cheias de pessoas provenientes dos sectores populares (1), o que demonstra a demagogia e a hipocrisia de um Estado que se vangloria de favorecer os pobres.

Esta crise penitenciária é uma consequência directa da presença da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) na custódia das prisões. Estes amedrontam as visitas familiares e submetem a população reclusa às mais degradadas condições de subsistência. A situação degradante das prisões é o caldo de cultura ideal para levar a cabo os milionários negócios da GNB, do corpo de funcionários corrupto e de outros órgãos repressivos do poder como as polícias. Organizações dos Direitos Humanos como a PROVEA assinalam que são constantes as greves, as autoflagelações, auto-sequestro de visitantes, motins e sequestro de funcionários, “…como resposta às deploráveis condições de reclusão, o atraso processual e a presença da Guarda Nacional” (2)

Estamos conscientes de que a degradação moral e física que sofrem os presos dentro das cadeias incide directamente na situação de violência e insegurança que atravessamos. Degradação que se reflecte não só nos altos índices de ocupação da maioria das prisões, mas também na falta de serviços básicos, como água potável, comida sã e/ou electricidade e nas decadentes estruturas em que são obrigados a permanecerem. Em suma, nestas condições e com o incessante e generalizado processo de desumanização, a prisão vai preparando @s privad@s de liberdade para serem delinquentes ao serviço e à ordem dos principais corpos policiais do país, caminho que tomam diversos presos para “sobreviverem” à violência nas prisões, convertendo-se assim em peões ao serviço do terrorismo de Estado.

Denunciamos a campanha de aniquilamento físico e moral implementada pelo Ministério dos Assuntos Penitenciários e pela Guarda Nacional Boli variana contra a população reclusa e alertamos para possíveis planos futuros do Estado contra outras prisões.

Queremos expressar a nossa mais sincera solidariedade com os familiares de todos os presos, com os milhares de presos que não são pranes (*) [mafiosos que dominam as prisões, NdT), com as mães e mulheres encarceradas, assim como com a população LGBT das prisões, uma vez que todos sabemos que estes têm também que suportar as vexações associadas à sociedade patriarcal em que vivemos.

Também nos pronunciamos contra a falsa matriz de opinião criada pelos meios da oposição e oficialistas de que “todos os presos são pranes”, quando a crua realidade é que existem, segundo o Observatório Venezuelano de Prisões (OVP), mais de 48.000 pessoas privadas de liberdade. Muitas delas à espera de serem processadas e encarceradas mas piores condições num número cada vez mais reduzido de espaço, uma vez que a taxa de ocupação das prisões chega aos 175% (OVP)

Fazemos um apelo aos movimentos sociais antagónicos e aos grupos libertários e autónomos para se solidarizarem com as pessoas que estão privadas da liberdade e dos seus familiares.

Qualquer morte e tortura nas prisões é um crime de Estado. Segundo a OVP para o ano de 2012 o número de mortos e feridos nas cárceres foi de 591 e 1132 respectivamente. O silêncio é cumplicidade.

Contra a política de extermínio do Governo Bolivariano nos Centros de Reclusão. Contra o silêncio cúmplice dos politiqueiros do MUD (movimento de oposição, NdT). Contra o reformismo da chamada “Humanização penitenciária”. Porque o único que se pode fazer com as cárceres é aboli-las.

________________________

(1)O Infome da PROVEA (2011) sobre “Direitos das pessoas privadas de liberdade” assinala que “68% situa-se nos estratos IV e V, pertencentes a sectores em pobreza relativa e pobreza extrema ou crítica”.

(2) PROVEA: Informe de 2011 sobre “Direitos das pessoas privadas de liberdade”.

(*) O que são “pranes”.  http://twittervenezuela.co/profiles/blogs/todo-sobre-los-pranes-y-la?xg_source=activity

ABAJO LAS CARCELES 2

Poesia urbana de combate


Estivadores (1)

Na esteira de Mário Cesariny de Vasconcelos, Joaquim Manuel Magalhães foi um dos poetas, com Hélder Moura Pereira, que conheci no final dos anos 1970/princípios de 1980 que se reivindicavam de um olhar anarquista e antiautoritário sobre a sociedade. Conheci-os na Faculdade de Letras de Lisboa e partilhei com eles jornais, panfletos e textos anarquistas. Por essa altura, Joaquim Manuel Magalhães editou um livro com poemas maioritariamente políticos e desassombrados sobre o pós-25 de Abril de 1974, com referências ao ataque à embaixada de Espanha em protesto contra a morte de antifascistas, ao Congresso dos Escritores, à “muralha de aço” preconizada por Vasco Gonçalves, etc… São poemas onde perpassa um olhar libertário sobre o mundo e a vida. Nesse livro está também um conjunto de versos – 6×14 aos da educação – onde o poeta fala do desespero dos jovens, da falta de perspectivas, da sem saída que já existia na altura e que, hoje, aparece agravada. São poemas de uma grande actualidade quando o protesto e a indignação estão já quotidianamente nas ruas e praças de muitos países do sul da Europa, mas não só. E quando, muitos jovens, escrevem também eles nas paredes a frase: SEM SAÍDA!

6×14 aos da educação

1.
Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com faltas de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.

Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.

O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.

Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram.

2.
O bronze da neve na primeira luz
corta nos teus dedos gretas de cieiro.
Deixemo-nos de imagens: não há sítios
sequer onde fugir à noite
do roupão da mãe, do ronco do pai,
ou pior do que isso. Não há
futuro senão numa fábrica,
num banco, numa escola de arredor.
Ou nem isso. Emprego aqui por poucos dias,
biscate além, uns escudos num qualquer engate.
Acabar na província. Com desejos
ocultados, copos de vinho, ervas
e começar a ter vinte anos
e não haver nada, nem uma cantiga.

3.
Assobias a caminho da paragem.
Falaram-te de versos e de métodos
ardilosos de pensar as coisas
passadas. Mais dois anos
e não desces este lençol de relva
cuidado por alguns da tua idade
usados para limpeza pela Câmara.
Andas de concursos em concursos,
já sabes que não ganhas para aquilo de que gostas,
quase nada, uma casa limpa, sem
o controlo do dia a dia vigiado.
Que sentido houve para o que aprendeste?
Peidos com cheiro a rosa, foi o que foi.

4.
Levantou a gola do casaco.
Do bolso da caneta tirou
a harmónica de beiços.
Tocou Johny B. Goode
alguns minutos no corredor
do metro pela primeira vez
sozinho. Ninguém o via,
mesmo os das moedas
brancas ou pretas deitadas
no forro encardido
do boné. Já davam
para uma sandes com bica.

Depois iria pelos livros
e às aulas nocturnas.

5.
Atira tu agora este tijolo
ao verde parado na esquina.
Dá-me a navalha eu lixo
os detrás daquele Toyota
e depois a capota do Dyane.

Pega na lona do outro lado,
não a largues eu seguro deste,
bate agora com a pedra
deixa os cacos do espelho no chão
de mais este elevador.

As pedras maiores ficam
para as montras e as janelas
das escolas. Toma o spray
escreve SEM SAÍDA.

6.
A viscosa luz da madrugada
calca-os no quadrado de betão
a que chamam «parada».
O lugar onde silvam ordens
e boicotes bolsados por findáveis
autómatos saca-os dos lugares cá fora
onde vigiam todos os outros chuis.

Levados a um muro pelos que decidem
entre ideologias e poderes, acabam
transferidos por uns meses
para este reparador massacre.

Mas sempre a sedição de alguns
transforma na próxima granada
o equilíbrio adolescente das motorizadas.

Joaquim Manuel Magalhães, “os dias, pequenos charcos”, 1981

e.m.

Debate sobre anarco-sindicalismo em Évora: nos tempos de crise o apoio mútuo e a solidariedade são instrumentos importantes para os trabalhadores


debate

Cerca de duas dezenas de pessoas assistiram ontem à tarde em Évora, na cafetaria do Convento dos Remédios,  à apresentação da revista “Apoio Mútuo” e da AIT/SP e participaram numa animada conversa que durou mais de duas horas. Da AIT/SP estiveram presentes os companheiros Raúl e Zé que fizeram uma breve apresentação da AIT, fundada há 90 anos, no espírito de que “a  emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores”, e da Secção Portuguesa (a antiga CGT era membro da AIT) reconstituída a partir dos anos 90 do século passado por iniciativa de um grupo de trabalhadores libertários, maioritariamente sediados na grande Lisboa e no grande Porto. O debate foi animado com muitas intervenções. Em causa estiveram questões tão práticas como as de: que utilidade tem para os trabalhadores uma organização como, hoje, a AIT, sem recursos e sem capacidade para agir em defesa dos trabalhadores (seja por falta de recurso materiais ou mesmo legais) ; na estrutura actual da sociedade há novas situações e realidades, diferentes das que o anarcosindicalismo encontrou há 100 anos, como novas categorias profissionais e mesmo uma precarização das pequenas empresas: porque é a luta dos pequenos empresários (a braços com todo o nível de restrições e imposições por parte do Estado)não é valorizada pelos sindicatos como qualquer outra luta dos trabalhadores; qual a necessidade hoje de sindicatos, já que os actuais estão tão descredibilizados – não seria melhor avançar para outras formas organizativas, em que o objectivo das relações laborais estivesse presente, mas não fosse o único?

Foram muitas questões e muitas interrogações, mas ficou a afirmação expressa de que é preciso reforçar o espaço assembleario, de base, horizontal, de resistência e de confronto com o capital e o Estado, numa altura de grande precarização da vida de todos os trabalhadores. Aliás, entre os presentes, no debate, eram maioritários os trabalhadores com vínculo precário e os que estão sob ameaça de despedimento e quebra de contratos do que aqueles que mantêm uma situação profissional “segura”, o que dá uma ideia também da necessidade de considerar a luta pelo trabalho e contra o desemprego como um dos objectivos essenciais das movimentações de base.

O debate terminou também com a ideia de que, na situação que se vive de crise e de corte de quaisquer regalias e direitos sociais dos trabalhadores, é necessário reforçar a discussão e a organização entre os explorados e oprimidos (estejam ou não no mercado de trabalho) e que constituem 99 por cento da população – na expressão do movimento Occupy – e adoptar os métodos de luta que sempre foram a marca característica do anarquismo e do anarcosindicalismo – a acção directa, a democracia directa, o apoio mútuo, a solidariedade, a auto-organização e a recusa de qualquer hierarquização das estruturas de decisão.

No debate foi também referido que esta crise do capitalismo não é apenas mais uma crise, idêntica a tantas outras, mas é A CRISE, profunda, que poderá levar à alteração do modelo capitalista e que, por isso, tem que ser decididamente aproveitada por todos os movimentos sociais anticapitalistas e antiestatistas, tendo um dos presentes referido que este é um tempo para abrir o “leque de possibilidades” que até hoje têm estado escondidas, ou não acessíveis, da grande massa da população, sendo que muitas dessas possibilidades ainda estão por construir e isso tem que nos envolver a todos.

Ficou no ar também a possibilidade de, a curto ou médio prazo, ser constituído em Évora um núcleo da AIT/SP, virado para as questões de natureza laboral e sindical.

Foi um debate rico e interessante e, por isso também, o nosso agradecimento aos companheiros da AIT/SP que se deslocaram a Évora e a todos os presentes, independentemente do seu posicionamento político.

Colectivo Libertário de Évora