Dia Mundial da Poesia: três poemas do anarquista alentejano Artur Modesto


artur modesto

Fotografia de Artur Modesto com a anarquista alemã Ike na sede do Centro de Estudos Libertários na Av. Álvares Cabral, em Lisboa (1977).

A luta em marcha

Não há cutelo que corte
Folhas à nova semente
Já que a acha do mais forte
Vai ruindo lentamente.

Soam os gritos de guerra
Do servo, branco ou preto,
Que bradam por toda a terra
O seu direito de veto.

O povo trabalhador
Não aceita a opressão
Marcha contra o opressor
Aos gritos de revolução.

A mulher escravizada
No mesmo pé de igualdade
Ergue na santa cruzada
O pendão da liberdade

Cavaleiros do futuro
Em destemidos corcéis
Vão desbravando o monturo
Desses destinos cruéis.

Destruir p’ra construir
É sua nobre missão
Como forças do porvir
Na guerra da redenção.

O estado e as camarilhas
Hão-de rolar pela terra
À luz de novas cartilhas
A razão da nossa guerra.

Pão, justiça, igualdade!
Jamais a lei do mais forte!
Pelo sol da liberdade
Contra o reinado da morte!…

s/data
Artur Modesto (páginas do meu caderno)

salazar_cerejeira

Plumas Negras

Piam mochos, chiam c’rujas
Lá no alto de S. Bento,
Esse bando agoirento
De plumagens negro-sujas,
Piam, piam sob cruzes
Exibindo ares graves…
Negando a outras aves
Doutros sóis suas luzes
No escuro dos seus ninhos
Escrevo seus pensamentos
Lá fecundam os tormentos
Dos humildes passarinhos.
Plumas negras assassinas
A seu mando vão agindo
Os ninhos vão destruindo
Essas aves de rapina.
Abutres e gaviões
Penas de garras sangrentas
Vão espalhando tormentas
Rugindo como leões
Nas gaiolas vão mantendo
Outras pessoas já despertas.

Nas paliçadas desertas
Outras aves vão morrendo.
Oh agoirentas julgais
Que serão vossos processos
Que detêm os progressos
De tão nobres ideais?
Para quê tanta maldade
Tanta lama, tanto crime!
A história não redime
Tal bando sem piedade.
A justiça há-de chegar
Com pena de Talião!
Nas cinzas do turbilhão
Outra luz há-de brilhar.

Calai-vos ó rouxinóis,
Esquecei vossas melodias!
Para lá das sacristias
Aquecei-vos noutros sóis!

Inocente passarada
Unidos, formai barreira!
Para as lavas da fogueira
A “terrível” bicharada!

Artur Modesto
Algarve, 1936

bandeira negra

Acracia

Nas águas daquela fonte
Lavei
Minha alma juvenil,
Que já não volta.
Águas inquinadas
Recusei…
Por não serem as águas
Cristalinas
Daquela fonte
Que abracei!

s/data
Artur Modesto (páginas do meu caderno)

modesto

Artur dos Santos Modesto nasceu em Beja a 27 de Maio de 1897 e morreu em Lisboa a 3 de Abril de 1985. Foi um dos anarquistas da velha guarda que passou o testemunho aos mais novos, já no pós 25 de Abril, fazendo parte do colectivo que voltou a publicar o jornal “A Batalha” e criou o Centro de Estudos Libertários.

Artur Modesto tinha apenas a 2ª classe, mas foi um verdadeiro autodidacta, no mais genuíno espírito libertário, mantendo conversas apaixonadas e profundas sobre os mais variados temas, chegando a desempenhar funções de “secretário” junto de António Sérgio, o “pai” do cooperativismo português.

Filho de um sapateiro e de uma ajuntadeira, seguiu também a profissão de sapateiro que começou por exercer em Beja. Filiou-se como membro do Sindicato dos Sapateiros de Beja, aos 15 anos, em 1912 e foi militante activo das Juventudes Sindicalistas. Veio para Lisboa em 1928, já depois do golpe fascista de 28 de Maio de 1926 e numa altura em que as Juventudes Sindicalistas e a CGT eram alvo de grande repressão. Participou na Conferência Libertária em Belém em 1932. Activista da Federação Portuguesa de Solidariedade, do Núcleo Cultural “Ferreira de Castro” e do Sporting Club do Rio Seco, foi também membro do Grupo Anarquista “Fanal”, no pós-25-4-1974, federado da FARP-FAI.

Artur Modesto, com quem convivi já na década de 70 contou-me um aspecto que não pude ainda confirmar: que o Despertar Sporting Clube de Beja, ainda hoje existente, foi fundado por membros da Juventude Sindicalista bejense que deram ao nóvel clube o nome do jornal que a organização anarco-sindicalista então editava: O Despertar. Fundado em 1920, o Despertar foi sempre considerado em Beja como um clube das camadas populares e, segundo Artur Modesto, muitos jovens depois do golpe de 28 de Maio e do ataque cerrado ao movimento libertário, com o encerramento das suas sedes e a prisão dos militantes mais conhecidos, usaram o clube para reuniões e algumas actividades de carácter sindical. Uma memória que foi esmorecendo no tempo, mas da qual ainda devem existir registos.

Poeta de raiz popular tem dois livros editados pela Editora Sementeira, Lisboa – “Páginas do Meu Caderno”, Dezembro-1978  e “Alfarrábio Poético” (em conjunto com os militantes Francisco Quintal e José Francisco), Janeiro-1984.

c.j. (com arquivo MOSCA)

 Ver: poemas manuscritos de Artur ModestoCEL 18

Enterro de Artur Modesto, sócio da Editora Sementeira, no cemitério da Ajuda, Lisboa 1985. A bandeira indicava “Círculo de Estudos Neno Vasco – A Ideia”. Documento conservado por João Freire, que ofereceu uma cópia ao Centro de Estudos Libertários (CEL) em 2012, que por sua vez o doou ao AHS.

Anúncios

3 comments

  1. Conheci pessoalmente o sr. Modesto, que trabalhava com um irmão, na Rua Aliança Operária. Foi meu sapateiro, quando eu era gaiato, e desconhecia estas suas facetas de anarquista e poeta.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s