Dia: Abril 9, 2013

Cidadãos e escravos


vidaoperaria (1)

(…) Cidadãos e escravos, isto é, trabalhadores forçados, escravos, não de direito mas de facto, tal é o antagonismo do mundo moderno. E como os Estados antigos soçobraram face à escravidão, assim também os Estados modernos perecerão pelo proletariado.

(…) Como no mundo antigo, a nossa civilização moderna, compreendendo uma minoria comparativamente muito restrita de cidadãos privilegiados, tem por base o trabalho forçado (pela fome) da imensa maioria das populações, condenadas fatalmente à ignorância e à brutalidade. Seria em vão se houvesse alguém que defendesse que este abismo poderia ser preenchido pela simples difusão do conhecimento nas massas populares.

(…) O abismo seria preenchido? É evidente que a questão tão importante da instrução e da educação populares depende da solução desta outra questão, bem mais difícil, que é uma reforma radical nas condições económicas atuais das classes operárias. Restabelecei as condições do trabalho, devolvei ao trabalho tudo aquilo que, segundo a justiça, cabe ao trabalho, e, em consequência, dai ao povo a segurança, o acesso o lazer e, então, acreditai-me, ele se instruirá, ele criará uma civilização mais ampla, mais sã, mais elevada do que a vossa. Seria também  em vão que se diria, em coro com os economistas, que a melhoria da situação económica das classes operárias depende do progresso geral da indústria e do comércio em cada país, e de sua completa emancipação da tutela e da protecção dos Estados. A liberdade da indústria e do comércio é certamente uma grande coisa e um dos fundamentos essenciais da futura aliança internacional de todos os povos do mundo. Amigos da liberdade, de todas as liberdades, nós devemos igualmente sê-lo destas últimas. Mas, por outro lado, devemos reconhecer que enquanto existirem os Estados atuais e enquanto o trabalho continuar a ser o servo da propriedade e do capital, esta liberdade, enriquecendo uma mínima parte da burguesia em detrimento da imensa maioria das populações, produzirá um único bem: o de enervar e desmoralizar completamente o pequeno número dos privilegiados, o de aumentar a miséria, as reclamações e a justa indignação das massas operárias, e, por isso mesmo, aproximar a hora da destruição dos Estados.

(…) Aos representantes do trabalho físico, a estes inumeráveis milhões de proletários ou mesmo pequenos proprietários da terra, o que resta? Uma miséria sem saída, nem mesmo as alegrias da família (pois a família para o pobre torna-se rapidamente um fardo), a ignorância, a barbárie, diríamos quase uma bestialidade forçada, com o consolo que eles servem de pedestal à civilização, à liberdade e à corrupção de um pequeno número. Todavia, conservaram uma frescura de espírito e de coração. Moralizados pelo trabalho, mesmo forçado, guardaram um sentido de justiça bem diferente daquele dos jurisconsultos e dos códigos; eles próprios miseráveis, compassivos a todas as misérias, conservaram um bom senso não corrompido pelos sofismas da ciência doutrinária ou pelas mentiras da política e como ainda não abusaram, nem mesmo usaram, da vida, nela têm fé. Mas, dir-se-á, este contraste, este abismo entre o pequeno número de privilegiados e o imenso número de deserdados sempre existiu, ainda existe: o que há, no entanto, que mudou? Há o seguinte: outrora este abismo foi preenchido pelas nuvens da religião, de forma que as massas populares não o viam; e hoje, desde que a grande Revolução começou a dissipar estas nuvens, elas começam a vê-lo e a questionar a razão disso. Isto é imenso. Desde que a Revolução fez cair sobre as massas o seu Evangelho, não místico mas racional, não celeste mas terrestre, não divino mas humano, o Evangelho dos direitos do homem; desde que ela proclamou que todos os homens são iguais, todos igualmente chamados à liberdade e à humanidade, as massas populares em toda a Europa, em todo o mundo civilizado, despertando pouco a pouco do sono que as mantinha acorrentadas desde que o Cristianismo as adormecera com o seu ópio, começam a questionar-se se também não têm direito à igualdade, à liberdade e à humanidade.

Mikhail Bakunin