Dia: Abril 28, 2013

1º de Maio é dia de luta!


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Os Mártires de Chicago Os condenados de Haymarket: Louis Lingg, Oscar Neebe, Adolph Fisher, August Spies, Albert Parsons, Michael Schwab, George Engel e Samuel Fielden. Todos condenados à morte e assassinados pelo Estado a 11 de novembro de 1887, excepto Neebe  (15 anos de prisão), Fielden e Schwab (condenados a cadeia perpétua).

Mauricio Basterra *

“Para a frente com valentia! O conflito começou. Um exército de trabalhadores assalariados está sem ocupação. O capitalismo esconde as suas garras de tigre atrás das muralhas da ordem. Operários, que a vossa palavra de ordem seja: Não ao compromisso! Cobardes à retaguarda! Homens à frente!”

Com estas palavras preparava August Spies a greve do Primeiro de Maio em Chicago nas páginas do jornal Arbeiter Zeitung. Nada fazia supor a Spies que aquela jornada ia ficar, por tudo o que originou, na história do movimento operário. A reivindicação das oito horas de trabalho era o eixo fundamental daquela greve em 1886.

E, de facto, a reivindicação para a diminuição da jornada de trabalho tinha as suas raízes bem fundas nas próprias origens do movimento operário. As longas jornadas de trabalho a que os trabalhadores estavam sujeitos punham como primeiro ponto da agenda reivindicativa a diminuição das horas de trabalho, que em muitos casos atingia as 12-14 horas diárias.  Sem nenhum tipo de segurança social e com umas condições de vida miseráveis.

Curiosamente foram os Estados Unidos um dos primeiros países a introduzirem leis de redução da jornada laboral. Em 1840 a administração de Martín van Buren reconheceu a jornada de 10 horas para os empregados do governo e dos construtores navais. Em 1842 Massachusetts e Connecticut reduziram a jornada de trabalho infantil para 10 horas. Por seu lado, o Reino Unido reduziu em 1884 o trabalho infantil a 7 horas e o dos adultos a 10 horas. E assim foi sucedendo em distintos estados norte-americanos e na Europa. Sempre com reformas parciais e em sectores concretos.

Isso fez com que se concluísse que apenas uma acção organizada podia trazer melhorias mais profundas para a classe operária. Em 1864 era fundada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e em 1886, no Congresso de Genebra, ficou decidido que as secções integrantes da AIT iriam lutar pelas oito horas de trabalho. Oito horas de trabalho, Oito horas de descanso e Oito horas de lazer. Esse era o lema do movimento operário internacional.

O amplo poder de implantação que a AIT teve e os ecos revolucionários que chegavam da Europa, fez que em 1868 o presidente norte-americano Andrew Johnson aprovasse a Lei Ingersoll, que estabelecia a jornada de oito horas de trabalho para os empregados federais.

Apesar do desaparecimento da AIT o movimento operário continuou a reivindicar melhorias para a classe operária. Numerosas greves se sucedem, por todo o mundo, algumas delas conseguindo grandes vantagens para os trabalhadores. Por exemplo, a greve dos caminhos de ferro de Massachusetts  de 1874 conquistou as 10 horas de trabalho.

Mas os trabalhadores que integravam o movimento operário norte-americano estavam conscientes de que sem uma organização que unisse os trabalhadores seria muito difícil conquistar direitos generalizados e básicos para a classe operária. Por isso nasceu em 1881 em Pittsburgh a Federação Norte Americana do Trabalho (AFL). No seu IV Congresso, em Chicago, a organização decidiu realizar uma grande greve geral que reivindicasse as 8 horas de trabalho, seguindo a tradição iniciada pela AIT. Reivindicação que contou também com o apoio de outras organizações como os “Cavaleiros do Trabalho” ou distintas federações e associações operárias norte-americanas.

Foi constituído um Comité pelas Oito Horas de Trabalho e a greve foi marcada para o Primeiro de Maio de 1886. A greve resultou num êxito muito grande para o sindicalismo norte-americano. A situação de miséria em que viviam os trabalhadores era reconhecida inclusivamente pelos próprios governos e o presidente Grover Cleveland disse: “As condições actuais das relações entre o capital e o trabalho são, na verdade, muito pouco satisfatórias, e isto, em grande medida, pelas ávidas e impensadas imposições dos empregadores”. A convocatória da greve foi um êxito e houve mais de 5 mil greves convocadas. Em muitos lugares as oito horas de trabalho foram conquistadas (Chicago, Boston, Pittsburgh, Saint Louis, Washington, etc.) . Em muitos outros locais, ao nível de fábrica ou sectorial.

Esta força do movimento operário, animado principalmente pelos anarquistas, pôs em alerta o patronato norte-americano que não tardou em reagir. Nas sucessivas manifestações posteriores ao Primeiro de Maio os patrões lançaram contra os grevistas fura-greves e amarelos, sobretudo contra os operários da fábrica McCormik. O pior aconteceu a 4 de Maio, em Haymarket Square quando explodiram várias bombas, numa altura em que estavam reunidas 15000 pessoas.

Morreram 38 operários, 115 ficaram feridos, um polícia morreu e 70 ficaram feitos. A imprensa, aliada aos patrões, não teve duvidas em apontar desde o primeiro momento os anarquistas como autores do atentado. As perseguições contra anarquistas iniciadas pelo comissário Michael Schaack não se fizeram esperar. Entre os presos e acusados de assassinato estavam os animadores mais entusiastas do movimento operário. Todos anarquistas.  Os nomes de August Spies, Michael Schwab,  Oscar Neebe, Adolf Fischer, Louis Lingg, George Engel, Samuel Fielden e Albert Parsons passaram a ser notícia de primeira página.

Todo o processo que se montou contra eles esteve cheio de irregularidades. O juiz Joseph E. Gary, um reaccionário confesso, escolheu os jurados  de entre pessoas com influência claramente anti-socialista e anti-anarquista. Não se permitiu que houvesse jurados que pudessem ter simpatias pelas ideologias operárias. A sorte dos acusados estava ditada de antemão. A 11 de Novembro de 1887 era executada a sentença contra os condenados à morte. Spies, Parsons, Fischer e Engel foram enforcados. Lingg suicidou-se no dia anterior. Os outros acusados sofreram nas prisões durante vários anos. Para a memória ficaram os discursos que os acusados proferiram no tribunal. A defesa que fizeram da sua inocência e dos seus ideais. Foram executados por serem anarquistas e socialistas. A caminho do patíbulo continuaram a dar vivas à anarquia e à classe operária. Cantaram a Marselhesa, na altura o hino revolucionário por excelência.

A inocência dos acusados era manifesta. Estava-se no início da guerra suja contra o movimento operário. Alguns dos investigadores dos acontecimento de Chicago estavam ligados a organizações como a Agência de Detectives Pinkerton, que actuou como fura-greves e se infiltrou no movimento operário com o beneplácito dos patrões e do governo norte-americano.

De qualquer modo, para o movimento operário internacional, a data do Primeiro de Maio converteu-se num dia de comemoração para recordar os “Mártires de Chicago” e para reivindicar a jornada de oito horas de trabalho. A segunda Internacional estabeleceu-o como dia internacional de luta e o movimento anarquista transformou-o numa das datas de reivindicação operária e de comemoração ao lado do 18 de Março (aniversário da Comuna de Paris) e o 11 de Novembro (execução dos Mártires de Chicago).

Ainda assim a nível internacional as diferenças sobre como actuar face ao Primeiro de Maio distanciou socialistas e anarquistas.

Enquanto os primeiros, cada vez mais integrados nas instituições, foram convertendo o Primeiro de Maio numa data quase festiva, com manifestações de força e entrega de reivindicações às autoridades, os anarquistas consideravam-no um dia de luta e com razões para que fosse convocada uma greve geral que pressionasse as autoridades a aprovarem a jornada das oito horas de trabalho.

Hoje, mais do que nunca, convém recordar as origens do Primeiro de Maio e como os direitos que hoje se perdem custaram esforço e vidas para serem obtidos.

Na actualidade, o seu exemplo é a nossa melhor lição.

(* publicado em “CNT”, nº 399, Abril/2013)