Mês: Maio 2013

Avante! – um jornal anarquista de Évora (1909)


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“Avante!…

O Grupo de Propaganda Livre ao lançar à publicidade esta folha, não tem em vista, mais do que contribuir para o bem estar da Humanidade, conduzindo a todos à felicidade commum.
Tendo a nossa iniciativa o fim único de concorrer para a libertação de todo o proletariado em geral; conglobaremos n’esta folha as doutronas e ensinamentos dos apostolos do Ideal Libertario, para que assim, expostas por toda a parte, por todos os recantos do globo terrestre, emfim: essas idéas possam ser apreciadas, estudadas e conscientemente discutidas.
Para nós e certamente para todos os que se interessam pela causa dos opprimidos, ser-nos-há satisfatorio o vermo-nos auxiliados por todos os que se interessam pelas luctas sociaes para assim travarmos a lucta em que todo o proletariado consciente anda empenhado, e assim faremos alguma coisa de pratico e de util para todos.
Queremos todavia informar que aqui trabalham na maioria operarios, e por isso na parte que diz respeito a fórma litteraria ou corréção da escrita desculpar-nos-hão decerto aquelles que nos lerem.
Sendo as nossas aspirações livres, respeitaremos toda a forma ortographica em que os originaes nos sejam enviados.
Avante! A lucta está encetada e o calôr que nos anima ao dar publicidade ao nosso jornal; será sempre o mesmo, embora por momentos moderados; o que sempre succede. Torna-se necessaria uma boa e sã propaganda entre os camponezes e essa será a nossa missão. Instruir mas Revoltar.
Tendo em mira de que uns render-nos-hão justiça, outros guerra sem tréguas, nós saudamos toda a imprensa operaria e todo o operariado em geral:
Avante! Pelo futuro bem-estar da Humanidade!
Avante! Pela Revolução Social.

O Grupo de Propaganda Livre”.

Avante! – Ano I, nº1, Évora, 1 fevereiro 1909 (pagina de rosto) 01/02/1909
Descrição:
Jornal AVANTE!: orgão e propriedade da Biblioteca do Grupo de Propaganda Livre. Jornal Anarquista. Série I e II, 8 números. 1909-1911. Ano I, nº 1. Évora,1 Fevereiro 1909. Administrador: Sertório Augusto Fragoso, Redator: Francisco Direitinho.

A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã (IAC) mandou a toalha ao chão


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Grazia Tanta

A imprensa divulgou o próximo projeto da IAC – Iniciativa para uma Auditoria Cidadã[1].

Ficámos a saber que a IAC se vai entreter durante as férias a recolher assinaturas para entregar na AR, para esta criar uma Entidade que acompanhe a auditoria. Já temos a IGF – Inspeção Geral de Finanças e o Tribunal de Contas, lembramos nós; é o habitual pendor para a burocracia e a estatização de keynesianos ou, de próceres do trotsko-estalinismo que reina naquelas bandas. Parece brincadeira de carnaval…

Assim, a IAC desiste da auditoria cidadã, do desenvolvimento da democracia inerente à intervenção das pessoas num processo de abertura e de transparência das contas públicas. Aliás, a referência a “cidadã” sempre foi propaganda pois uma grande abertura significaria riscos de radicalização que o controlo partidário exercido sobre a IAC poderia não conter.

A IAC encaminha a questão da dívida para o vespeiro parlamentar pedindo aos deuses que a maioria PSD/CDS aprove os seus propósitos. Para que isso aconteça terão de pedir ao Cavaco que interceda junto da Nª Sª de Fátima. Quanto às pessoas comuns, que se resignem ao que os seus “representantes” decidam, do alto do seu reconhecido brilhantismo intelectual…

Não é estranho que, com tantos académicos, a IAC, ano e meio depois da abertura com pompa e circunstância no S. Jorge, chegue a esta pífia proposta, reveladora de paralisia e total fracasso. Só revela a sua ausência de trabalho concreto e a sua preferência para debitarem no palanque para plateias selecionadas e normalizadas, adequadas ao seu reacionarismo.

A IAC nunca defendeu que a dívida é um problema político, sem solução neste sistema institucional. Não é capaz de assumir que esta divida não é pagável e que só uma posição de princípio – não pagamos – pode abrir caminho ao apuramento de dívidas ilegítimas, a anulações, à criminalização de quantos participaram em actos danosos de gestão pública. Objetivamente, a IAC coloca-se ao lado de Vitor Gaspar, da troika e do capital financeiro, na perpetuação dos sacrifícios e na punição pelo pecado de “vivermos acima das nossas posses”.

A IAC não quer assumir que não se vai a lado algum com as atuais instituições que acoitam uma classe política que se auto-reproduz e para a qual as pessoas são débeis mentais incapazes de perceber a complexidade da situação e as dificuldades da governação; esta, que como sabemos, se reduz ao roubo de rendimentos e direitos da esmagadora maioria dos sobreviventes em Portugal.

Na IAC mandou-se a toalha ao chão e espera-se que uma pouco reflexiva imprensa divulgue prometidas glórias futuras, já que do passado há pouco para apresentar. Como aliás em outras iniciativas dominadas pelo BE, como se verá em breve.

Estivemos recentemente em Espanha num dos muitos “nós” da Auditoriaciudadana e que compõem a rede que se espalha pelo país. Nesse “nó” – criado em outubro último – vimos trabalho, abertura a todos, organização e propostas políticas adequadas à situação que se vive, em Espanha ou Portugal. Não descortinámos a presença de infiltrados ou controleiros partidários embora estivessem presentes algumas pessoas com simpatias partidárias e que, naturalmente, eram encaradas como quaisquer outras. Nem vimos nenhum caso de premeditada exclusão como na IAC que, em dezembro de 2011, recusou a integração de um ativista enquanto explícito defensor da anulação da dívida pública portuguesa.

[1]  http://democraciaedivida.wordpress.com/2013/05/29/iac-promove-pobreza-nao-paga-a-divida-renegociacao-ja/

aqui: http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/05/a-iac-mandou-toalha-ao-chao.html

Até domingo, o livro anarquista marca presença na Feira do Livro de Évora


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A Feira do Livro de Évora conta este ano com uma banca de livros anarquistas no espaço da Livraria “Ler Com Prazer”. Esta mostra/exposição/venda, organizada pelo Colectivo Libertário de Évora (com o apoio do Centro de Cultura Libertária de Cacilhas) vai-se prolongar até ao próximo domingo dia 2, data do encerramento da Feira.

Os livros anarquistas expostos  são a preços acessíveis e ali estão também para venda o jornal MAPA e as revistas Alambique e Apoio Mútuo e o boletim Acção Directa (grátis).

A Feira do Livro de Évora realiza-se na Praça do Giraldo, até domingo, no seguinte horário: de 2ªa 5ª: das 10 às 14 e das 17 às 23h.   – 6ªs e sábado: das 10 às 14 e das 17 às 24h – domingo: das 17 às 23h.

Esperamos por ti.

Entretanto terminou ontem em Lisboa a 6ª Feira do Livro Anarquista, na associação “Amigos do Minho”. Muita gente, muita animação e muito convívio marcaarm esta feira até ao último minuto. Ontem à tarde e noite passaram pela Feira centenas de pessoas, com grande interesse pelos livros e materias expostos (com uma grande persença  das livrarias e editoras do Estado Espanhol, mas também de Portugal).  Para um dos debates a Bibliooteca Terra Livre, do Brasil, enviou um vídeo interessante sobre livros e tudo o que lhe está associado.

A GRÉVE DOS GRÃOS DE TRIGO (texto de Henrique Fèvre)


Capturar

     Quasi uma ninharia, semente ligeira, pequenino fruto, talo de erva num sulco, grão rubro numa espiga, pó branco no moinho, festim de inséto, na minha pequenez possuo a humilde inocencia campezina, ocupo um logar impercétivel na natureza, razo com a terra, ignorado dos grandes vegetaes prodigos de sombra e que enormes e musicaes se erguem até ás nuvens como nas igrejas.

      Tão debil e modesto, nada valho por mim mesmo; é necessario que sejamos muitos.  Começam a olhar-nos com consideração quando nos juntamos um centenar para formar uma espiga; uma palhinha nos ergue então um pouco acima do sólo e em volta de nós avistamos o mundo; a brisa que passa faz-nos enclinar em reverencias humildes, pois que ainda nos ergamos continuamos sendo modestos, sempre coisa minima; o primeiro que passa pisa-nos sem querer e morremos. A nosso lado as papoulas levantam as suas pequenas cabeças roxas e as margaridas as suas estrêlas brancas. Entre os seus requebros permanecemos simples, rubros, timidos, um pouco candidos, e os pequenos escaravelhos roxos encarrapitam-se nas hastes que os sosteem como o poderiam fazer num mastro de cocanha. Nem sequer possuimos a barba dos barbudos centeios que vivem perto de nós.

*
     Porém, se a nossa importancia aumenta um pouco com a espiga, torna-se consideravel pela associação das espigas, e então respeitam-nos quando formamos um campo, e até o governo delega um guarda campestre para velar por nós como se fossemos altos personagens. A nossa humilde personalidade desapareceu. Convertemo-nos em multidão e a nossa idilica massa cobre a terra. Todos procuram fazer-nos cêrco; os grandes e orgulhosos vegetaes retrocedem e por mais insignificantes que por nós mesmos sejamos, o numero converte-nos num elemento poderoso. As nossas espigas ondulam como o mar agitado; combatem-nos como se fossemos um ezercito, com as fouces, e como a mão do homem, só, não basta,é precisa a maquina que nos ceifa. A agua, o vento, o vapor, pó. E este mesmo pó é preciosissimo. Somos o pão que nutre os homens.
*
     Então a nossa importancia cresce até chegar á hiperbole. De humildes e rusticos grãos de trigo convertemo-nos em politicos. Para os graves economistas somos os cereais. Na bolsa cotisam-nos como se fossemos ouro; pezamos nos destinos dos imperios, fazemos as revoluções. Por nós se matam os homens. Por nós o sangue corre.
      Na nossa humildade campesina, na nossa benignidade e inocencia de grãos de trigo, em vez de nos orgulharmos, esta luta dos homens entristece-nos.
     O valor que os homens nos impõem, não o queremos, pois é feito da necessidade dos homens e do sofrimento dos pobres. A nossa força bemfeitora e doce despresa-o. Nós queriamos multiplicar-nos; a nossa fecundidade inesgotavel está á disposição dos homens; oferecemos a nossa abundancia e a nossa prodigalidade naturaes; um punhado de nós constitue um tesouro na terra; oferecemos os nossos tesouros inesgotaveis que podem aplacar os mais famintos e saciar todo o mundo. Só pedimos que nos semeiem.
     E os homens negam-se a isso. O cego interesse duns quantos o impede. Roubam-nos a terra, desterram-nos. Os semeadores desfalecem ante este interesse particular e as leis interveem para nos encarecer. Formam-se ligas para restringir a nossa fecundidade. Fazem-nos abortar. E o que mais choca é que os homens se batem por nós, encerram-se entre fronteiras, odeiam-se, levantando ezercitos e alfandegas.
*
     Por fim, este espectaculo, irrita-nos, e ante a maldade dos homens que nos obriga, apesar do nosso caráter modesto e bom, a converter-nos em objéto de lucro têma de assassinato, nós cujo sonho pacifico é dispensar a todos gratuitamente a vida, como o ceu dá o ar e o sol a sua luz, nós rebelamo-nos. A nossa natureza amigavel não quer, não pode suportar este papel de discordia. Vamos declarar-nos em greve sobre toda a superficie da terra. Permaneceremos enterrados nos sulcos, pediremos á tempestade que nos incendeie com os seus raios, que destrua com o seu graniso e ao sol que nos queime. Converter-nos-hemos em palha inutil e esteril. E então os homens famintos compreenderão.
     Compreenderão a inutilidade das suas guerras, a mentira dos seus interesses, a puerilidade do seu orgulho. Terão que considerar que, como nós, são pouca coisa; como nós, compreenderão que nada valem senão em comum, pela associação fraternal de todos, e então a humanidade não formará mais que um só homem, como uma espiga. E não terão medo de semear a terra. Unir-se-hão para semear em logar de  se separarem para combater.
     Os nossos grãos, arremessados profusamente, voarão para os sulcos; cresceremos robustos, macissos; cobriremos a terra com o ouro bemdito e rubro das colheitas que fazem o pão do homem. E todo o mundo poderá viver, porque, então, já nada valeremos. E na nossa modestia ficaremos contentes.
     Mas atualmente o nosso valor espanta-nos, a nossa carestia envergonha-nos…
     Na procima primavera vamo-nos declarar em greve.
Henrique Févre
in A Sementeira – Publicação mensal ilustrada – Crítica e Sociologia, nº 1, Lisboa, Setembro de 1908, pp. 7 e 8
(este texto foi publicado em francês, «La grève des grains de blé», no suplemento literário de domingo do jornal Le Figaro, em 3 de Março de 1894)
sementeira

Contra a Monsanto: “A greve dos grãos de trigo” (uma homenagem também à revista anarquista “A Sementeira”)


A greve dos grãos de trigo…
Grão rubro numa espiga
Pó branco no moinho
Um centenar forma uma liga
A greve dos grãos de trigo

Somos destinos de impérios
Como se fôssemos ouro
Somos riqueza e a miséria
De quem trabalha como um mouro
Por nós o sangue corre
Há carestia e guerra
O que pedimos é só
Que nos semeiem na terra

A greve dos grãos de trigo…
Grão rubro numa espiga

Pó branco no moinho
Um centenar forma uma liga
A greve dos grãos de trigo

Quantos séculos de pão
De mãos e de pés atados
Cada grão vale um milhão
E querem patentear-nos

Rebelde, festim de insecto
Que o sol nos venha queimar
Um colectivo insurrecto
Não teme semear

A greve dos grãos de trigo…
Grão rubro numa espiga
Pó branco no moinho
Um centenar forma uma liga
A greve dos grãos de trigo

Canção interpretada pelo Coro da Achada, letra de Diana Dionísio, a partir de um texto de Henrique  Fèvre com o mesmo título,  publicado na revista anarquista “A Sementeira”  (1908), com música da canção «Andaluces da Jaén». Seria bom que o Coro da Achada desse voz também ao “Hino da Batalha” de que há o texto e a música, mas nenhuma gravação. Obrigado amigos por esta “a greve dos grãos de trigo”, hoje tão actual, a poucas horas da manifestação internacional contra a “Monsanto”. (através de acf)

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(Lisboa) Feira do Livro Anarquista até domingo


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Bancas na 6ª feira do livro anarquista (de 24 a 26/5)

– Acção Popular Libertária

– AIT-SP – Núcleo de Lisboa

– Anarchist Black Cross Brighton*

– Anarchist Black Cross Bristol*

– Biblioteca Libertaria Francisco Ferrer (Génova)

– Biblioteca Terra Livre (São Paulo)*

– Black Bear Distro ( Lisboa )

– BOESG (Lisboa)

– Casa Viva (Porto)

– Centro de Cultura Libertária (Almada)

– CNT-AIT-Almería

– CNT-AIT-Granada

– CNT-AIT-Madrid

– Contra Info

– Deriva & Federação Anarquista Gaúcha (Porto Alegre)

– Distribuidora La Lima (Salamanca)

– Distri Maligna (Madrid)

– Enclave de Libros (Madrid)

– Gruppo Anarchico Germinal (Trieste)

– Grupo Surrealista de Madrid 

– Guarrilleras (Madrid)

– In My Time Distro

– La Felguera Ediciones ( Madrid )

– Librería Bakakai (Granada)

– Librería Nosaltres ( Madrid )

– Livraria Letra Livre (Lisboa)

– Mapa : Jornal de Informação Crítica

– No Borders Brighton*

– Ediciones Madre Tierra (Madrid)

– Revista Alambique (Alentejo)

– Raividições 

– Tertúlia Liberdade (Lisboa)

– Oak Distro

* Participação através de envio de material.
Mais informações AQUI

AMNISTIA INTERNACIONAL CONDENA “USO EXCESSIVO DA FORÇA” PELA POLÍCIA PORTUGUESA


violência

O “uso excessivo da força” por parte da polícia contra manifestantes e ciganos em Portugal é assinalado no relatório da Amnistia Internacional (AI) divulgado hoje (22/5), que adianta que a violência doméstica continua a constituir uma “preocupação séria”.

O relatório anual da organização de defesa dos direitos humanos, com dados de 2012, enumera alguns casos, entre os quais o da manifestação realizada em Lisboa a 22 de março, dia de greve geral, e promovida pela Plataforma 15 de Outubro.

A polícia terá usado “força excessiva contra manifestantes pacíficos”, refere a AI, adiantando que “dois jornalistas receberam tratamento médico depois de alegadamente terem sido espancados pela polícia”.

Os fotojornalistas José Goulão, da agência Lusa, e Patrícia Melo Moreira, da AFP, faziam a cobertura da carga policial sobre os manifestantes no Chiado quando foram agredidos.

Indica ainda que alguns dos detidos (foram detidas nove pessoas e identificadas 21) não foram informados das razões da detenção e não tiveram acesso a um advogado em tempo oportuno.

O terceiro caso apontado ocorreu em setembro em Vila Verde, numa busca para a detenção de um homem num acampamento cigano. “Pelo menos nove ciganos, incluindo crianças, foram alegadamente espancados e abusados física e verbalmente por cerca de 30 polícias; pelo menos três tiveram de receber tratamento médico”, precisa o relatório.

Em relação à violência doméstica, a Amnistia Internacional nota que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e o Provedor de Justiça informaram sobre um aumento de queixas de idosos e que a primeira dá conta de 16.970 vítimas em 2012, contra 15.724 em 2011.

A organização internacional com sede em Londres refere ainda dados da UMAR-União de Mulheres Alternativa e Resposta sobre a existência de 36 mortes devido a violência doméstica até setembro de 2012, quando no ano anterior o número tinha ascendido a 27. (LUSA)