Day: Junho 10, 2013

“Uns intrujam-vos, para alcançar as cadeiras do poder; outros querem que vós acreditais num deus e na glória da vida eterna”


BNP_N61_CX205-Rurais040 (1)

Por vezes há quem o queira ignorar. Outros fazem uma espécie de lavagem à memória como se nada tivesse existido antes deles. Mas a verdade é que, por estas (já na altura) velhas calçadas de Évora, há décadas atrás, passaram homens e mulheres, às centenas e aos milhares, imbuídos dum espírito solidário, combativo e de classe. Nada esperavam dos “politicos profissionais” nem do Estado. Era gente que se associava livremente. Joaquim Candieira – como José Cebola, Elias Matias ou tantos outros (alguns deles criaram, por exemplo, a SOIR, a que deram o nome do regenerador e anticlerical Joaquim António D’Aguiar (1792-1884)) – foi um deles. No início de 1930, já depois do 28 de Maio de 1926,  Joaquim Candieira fazia no semanário “Voz Operária”, que se publicava em Évora, um apelo para que os trabalhadores voltassem às suas Associações de Classe.

“Aos rurais

Palavras amargas dum rural aos seus irmãos

Entre as classes trabalhadoras é, sem sombra de desmentido, a dos rurais a que mais está sofrendo: Tem a sede da sua Federação encerrada e selada; e algumas das suas Associações foram dissolvidas… Apenas funcionam as cooperativas nas localidades onde ainda existem.

Há muito tempo já que os trabalhadores rurais não se movimentam nem dão acordo de si; não reclamam, nem exigem aquilo a que têm direito… com receio de incomodar os seus patrões! E estes, como compensação, diminuem-lhes sensivelmente os salários.

Em Elvas, os lavradores que fizeram as sementeiras pagaram os serviços dos trabalhadores rurais à razão de 2$00 e 2$50 com refeições, fazendo-os trabalhar de sol a sol – como é costume dizer-se. Em Évora, se bem que os salários fôssem um pouco melhores, o horário… de trabalho era o mesmo que em Elvas. No concelho de Reguengos e Mourão,  mesmo no tempo da colheita de azeitona, os salários conservam-se a 5$00 e a 6$00 diários, secos; em Évora e Montemor são raros os patrões que pagam aqueles serviços por 10$00.

E, enquanto isto se passa, os trabalhadores desocupados Veem-se em sérios embaraços por não conseguirem onde trabalhar!…

São estas as garantias que os trabalhadores teem recebido dos patrões em troca do sossego em que se manteem.

E foi para isto que deixaram desaparecer as suas Associações!

Quem tem a culpa: – os patrões ou os trabalhadores?

Evidentemente que os trabalhadores.

Não são os nosso interêsses antagónicos aos dos patrões?

Pois, se são, resta-nos somente defendê-los. Ponhamos os nossos olhos nos patrões e vejamos como eles se organizam, como eles se unem e conjugam as suas forças.

Porque é que os trabalhadores não se organizam tão fortemente como os patrões? Porque não querem; porque se teem na conta de espertos e, por isso, não se querem deixar enganar.

E levei eu (e outros como eu) 17 anos de vida a fazer propaganda associativa, a bradarmos aos trabalhadores a necessidade da Associação!…

Se os trabalhadores rurais se tivessem conservado firmes no seu posto, ainda hoje poderiam existir as Associações que foram fundadas, as quais chegaram a prefazer o número de 243! Calculando-se, para cada Associação, uma média de 250 associados, achar-se-ia um total de 60.650 associados – o que era já um pêso razoável na organização sindical. Infelizmente, quando as últimas Associações se fundaram já as primeiras tinham… desaparecido! Diversos contra-tempos houve que contribuíram para se chegar a este lamentável estado

– Entre estes podem contar-se: a influência das cooperativas; a introdução das políticas socialista e comunista no seio de algumas Associações; o desejo de adquirir capitais para a construção de sedes; as convulsões políticas e, por último, o maior de todos: o desinteresse das massas pelas Associações…

E é por isto que, quando eu e outros íamos fazer sessões de propaganda, era vulgar ouvirmos barbaridades como esta: «Isso já eu sabia! Isso já eu ouvi dizer… Isso já êle disse da outra vez…, etc.», Pois se a causa era sempre a mesma – como não haviam de ser as mesmas palavras ?!…

Então os políticos profissionais e os padres não vos dizem sempre as mesmas coisas? E vós acreditais nêles, sem vos enfadardes… Uns intrujam-vos, para alcançar as cadeiras do poder; outros querem que vós acreditais num deus e na glória da vida eterna, passando sacríficios nesta… enquanto eles gozam!

Então, trabalhadores inimigos das Associações, agora que elas estão fechadas, os vossos bons patrões não vos tratam melhor? E o vosso deus não vos dá melhores dias?

Meus amigos trabalhadores rurais! Todo o bem ou mal estar que nós possamos usufruir há-de estar em harmonia com as nossas actividades, porque «a causa dos trabalhadores só poderá ser defendida pelos mesmos trabalhadores». Só por intermédio das Associações de Classe, livres de toda a influência política-estatal, podem os trabalhadores rurais impôr-se.

Pensem, pois, os trabalhadores nestas palavras – e ingressem todos nos seus sindicatos, dando-lhe a necessária vida… mas sem vivas, nem morras.

Évora, 12 de Janeiro de 1930

J. J. Candieira

(publicado no semanário “Voz Operária”,  Évora, na sua edição de 9 de Fevereiro de1930)

Aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/index.php?option=com_jumi&fileid=12&id=994

Notas: José Joaquim Candieira foi um militante anarco-sindicalista muito conhecido na região de Évora. Nasceu (em data que se ignora) e morreu em Évora, em princípios de 1957. Fundou com outros a Associação dos Trabalhadores Rurais e foi o maior propagandista da organização da Federação das Associações dos Trabalhadores Rurais, do Alentejo. Por alturas de 1912/13 impulsionou as grandes greves rurais dessa época, pois a sua voz de agitador libertário arrastava as massas da região alentejana. Trabalhador rural, foi delegado dos trabalhadores rurais de Évora e da Federação Rural ao Congresso da CGT de Santarém (1925). Foi também membro do Grupo Anarquista “Rebelião” formado em 1914-15 em Évora. Quando as forças lhe faltaram para o trabalho, recolheu-se aos Inválidos, onde faleceu.

(aqui: http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/arquivo/index.php?p=creators/creator&id=1419)

BNP_N61_Cx117_S106