Day: Julho 10, 2013

Arraiolos: aspectos da repressão fascista nos primeiros anos do Estado Novo


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     Os primeiros anos da ditadura fascista em Portugal foram particularmentos violentos para com o movimento operário organizado na CGT anarco-sindicalista e para com os grupos anarquistas, de raiz operária, existentes um pouco por todo o lado. A fúria fascista contra os trabalhadores e  as suas organizações virou-se sobretudo contra os sindicatos e outras Associações de Classe, nomeadamente nas zonas operárias de Lisboa, Porto, Coimbra ou Setúbal. Mas também contra muitos sectores como o dos corticeiros, mineiros ou o dos trabalhadores rurais alentejanos, reunidos em Associações de Classe disseminadas por toda a região.

     O fascismo dirigiu a sua violência particularmente para o movimento operário, prendendo, torturando, deportando e, em muitos casos, assassinados os seus dirigentes e militantes mais activos.

    Na altura, o PCP era ainda um partido de recente formação, com pouca influência e muito pouca implantação entre os trabalhadores, constituído, sobretudo, por antigos anarquistas seduzidos pela revolução russa, de que circulavam versões idílicas, e nesta fase foi relativamente poupado à repressão. Aliás, por se ter formado recentemente (em 1921, apenas 5 anos antes do golpe fascista de 28 de Maio de 1926), organizou-se de uma forma mais fechada e melhor preparada para a clandestinidade e para enfrentar a repressão do que as organizações sindicais e operárias, bem como as anarquistas – que estavam, regra geral, legalizadas; as portas dos sindicatos e das suas sedes estavam abertas (até a polícia as fechar) e os seus responsáveis eram conhecidos há muitos anos das autoridades políticas e policiais.

     O comunicado que hoje publicamos (disponibilizado a partir da colecção de documentos de Pacheco Pereira, no endereço: http://ephemerajpp.com/2009/04/14/panfleto-da-federacao-anarquista-iberica/), tem a sigla da FAI (Federação Anarquista Ibérica), mas é assinado pela Federação Regional Portuguesa das Juventudes Anarco-Sindicalistas e retrata esses anos de chumbo a partir da prisão de dois trabalhadores de Arraiolos (eventualmente cantoneiros), que são violentamente torturados, acabando um deles – Manuel Tomás Barreto – por enlouquecer.

     São os pequenos grandes dramas de uma história que ainda está por fazer: a da repressão fascista sobre o Alentejo e o Povo Alentejano e a resistência que aqui encontraram. Uma parte desta história foi “confiscada” no pós-25 de Abril pelo PCP como se lhe pertencesse. O que não é verdade. O anarquismo, o anarco-sindicalismo e a bandeira de que “a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores ou não o será”, da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) e da CGT (Confederação Geral do Trabalho), nela filiada, flutuaram, nessas primeiras cinco décadas do século XX, muito alto por toda a região.

  e.m.

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AO POVO

A DITADURA E A SUA OBRA

Um prêso que enlouquece no Aljube de Lisboa

Povo português! Trabalhadores Portugueses! Homens de consciência livre! Mocidade académica! Ó jovens trabalhadores fardados! Ó mulheres de Portugal!

     Um crime, um crime infamíssimo que há longos meses se vinha perpretando, acaba de ter a sua conclusão final!…

     À extensa e negra lista de assassinatos, torturas, violências que a Ditadura já tinha escrito foi-lhe acrescentado um crime mais, cuja características horríveis não podem deixar ninguém, ninguém indiferente!

    Aí por Agosto do ano passado foram presos em Arraiolos (Alentejo) dois modestos trabalhadores de estradas, sob a única acusação de pertencerem aos corpos gerentes da sua Associação de Classe cujo funcionamento estava autorizado por todas as leis vigentes. Levados para a cadeia de Évora foram ali sujeitos aos maiores vexames e torturas físicas e morais, as quais continuaram em Lisboa na tenebrosa sede da moderna inquisição.

     Nos infames calabouços policiais sofreram largos dias de rigorosa incomunicabilidade – suficiente só por si para transtornar o cérebro mais forte – sendo, por fim, aremeçados para a tétrica Cadeia do Aljube onde impera o mais infame dos regimens penitenciários!

     A burla infame da anistia passou, e eles, como tantos outros ficaram esquecidos… Depois de tanto isolamento, de tanta tortura – a visão dos tribunais militares… Apesar de inocentes quem sabe se cairia sobre eles uma pesada sentença condenatória?…

     E lá longe, no vasto Alentejo, a família, sujeita às maiores privações, talvez os filhos, as companheiras sofrendo os horrores da fome…

     Resultado… Manuel Tomaz Barreto, um deles, acaba de enlouquecer!

     Sim, um destes dois martirizados trabalhadores perdeu o uso das faculdades mentais! Não fazemos comentários. Deixamo-los às consciências honestas que nos lerem. Manuel Tomás Barreto talvez consciente da desgraça que o liquidava ainda gritou no princípio da sua loucura violentos morras à Ditadura e vivas à Revolução Social. Os tiranos que o desgraçavam não o esqueciam! O Ideal que, embora rudemente tinha concebido, tardava a apagar-se-lhe da mente!

     Povo português! Trabalhadores portugueses! Mocidade portuguesa. Gritemos com ele: Abaixo a Ditadura! Viva a Revolução Social!

     Mas que o nosso protesto não fique por aqui…

     De armas na mão temos que reparar este e todos os crimes cometidos!

     Sob pêna de merecermos o epíteto de cobardes não podemos consentir que perdure por mais tempo o predomínio infame dos miseráveis que nos oprimem!

     Não! Não!

     Federação Regional Portuguesa das Juventudes Anarco-Sindicalistas

    Lisboa, Março de 1933

    aqui: http://ephemerajpp.com/2009/04/14/panfleto-da-federacao-anarquista-iberica/