A vida e obra do anarquista Omar Aziz e o seu impacto na auto-organização na Revolução Síria


aziz

Omar Aziz (1949 – 2013) foi um anarquista sírio. Nasceu em 1949 e morreu nas prisões do regime de Al Assad em 2013. Exilado durante vários anos na Arábia Saudita e nos Estados Unidos, voltou à Síria no início da revolução popular (inspirada nas “primaveras árabes”), no início de 2011. Desenvolveu, conjuntamente com muitos outros companheiros, sistemas de auto-organização populares, de base, à margem do Estado e das suas instituições. Omar Aziz foi preso pela polícia secreta de Assad em novembro de 2012 e pouco depois morreu na prisão. Nestes tempos difíceis em que a revolução síria parece encurralada, entre a ditadura de Al Assad e o fundamentalismo islâmico dos rebeldes, exemplos como os de Aziz – e o dos muitos anarquistas e anti-autoritários que se revêem no espírito inicial da revolução síria – merecem ser destacados.

Omar Aziz (conhecido carinhosamente pelos amigos como Abu Kamal) nasceu em Damasco. Voltou do exílio na Arábia Saudita e nos Estados Unidos nos primeiros dias da revolução Síria. Foi um intelectual, economista, anarquista, marido e pai, que aos 63 anos se comprometeu com a luta revolucionária. Trabalhou em conjunto com ativistas locais para recolher ajuda humanitária e distribuí-la nos subúrbios de Damasco que estavam sob ataque do regime. Através da sua escrita e da sua prática, defendeu a auto-governação local, a organização horizontal, a cooperação, a solidariedade e a ajuda mútua, como meios através dos quais as pessoas se poderiam emancipar da tirania do Estado. Conjuntamente com outros companheiros, Aziz fundou o primeiro comité local em Barzeh (Damasco). O exemplo frutificou e espalhou-se a toda a Síria e com ele alguns dos exemplos mais promissores e duradouros de auto-organização não-hierárquica que surgiram nos países da Primavera Árabe.

Em homenagem a Omar Aziz, Budour Hassan diz que ele “não usava uma máscara de “Vendetta”, nem queria organizar “ Black Blocks”. Ele não estava obcecado em dar entrevistas à  imprensa … [Mas] no momento em que a maioria dos anti-imperialistas se lamentava sobre o colapso do Estado sírio e o “sequestro” de uma revolução que nunca apoiaram verdadeiramente, Aziz e os seus companheiros estavam a lutar sem descanso pela liberdade incondicional de todas as formas de despotismo e da hegemonia do Estado”. [1]

Aziz foi incentivado pela onda revolucionária que atravessou o país e acreditava que “as manifestações em curso seriam capazes de quebrar o domínio do poder absoluto”. [2] Mas ele percebeu uma falta de sinergias entre a actividade revolucionária e a vida quotidiana das pessoas. Para Aziz não fazia sentido participar em manifestações onde se exigia o derrube do regime, enquanto se vivia dentro das rígidas estruturas hierárquicas e autoritárias impostas pelo Estado. Ele descreveu esta divisão pelo facto da Síria estar sujeita à dupla sobreposição de “o tempo de poder”, que “ainda domina as actividades quotidianas”, e “o tempo da revolução” que é o tempo dos activistas que lutam para derrubar o regime. [3]

Aziz acreditava que, para a continuidade e vitória da revolução, era necessário que a actividade revolucionária influenciasse todos os aspectos da vida das pessoas. Ele defendeu mudanças radicais na organização e nas relações sociais, de modo a desafiar os fundamentos de um sistema baseado na dominação e no opressão.

Aziz viu muitos exemplos positivos em tudo à sua volta. Foi influenciado pelas múltiplas iniciativas que estavam em todo o país, incluindo a prestação voluntária de apoio médico e de emergência, transformando casas em hospitais de campanha e organizando cabazes de alimentos para distribuição. Ele viu em tais actos “o espírito de resistência do povo sírio à brutalidade do sistema, à  matança sistemática e destruição do sentido comunitário”. [4] O projecto de Omar era espalhar essas práticas pelo país  e que ele acreditava que a maneira para o conseguir seria através da criação de conselhos locais. No oitavo mês da revolução Síria, quando os protestos generalizados contra o regime ainda eram em grande parte pacíficos, Omar Aziz publicou um documento de discussão sobre os Conselhos Locais na Síria, onde expôs a sua visão.

Na visão de Aziz, o Conselho local era o fórum em que as pessoas provenientes de diversas culturas e diferentes estratos sociais poderiam trabalhar juntos para alcançarem três objectivos principais:  gerirem as suas vidas, de forma independente das instituições e órgãos do Estado;  garantirem um espaço que permitisse a colaboração colectiva dos indivíduos e lhes permitisse dinamizar a revolução social a nível local, regional e nacional.

(…) Omar Aziz não viveu para ver os desafios , muitas vezes aparentemente insuperáveis,  ​​que afligem os revolucionários da Síria ou os sucessos e fracassos das experiências que vão tendo lugar de auto-organização local. A 20 de novembro de 2012, foi preso em sua casa pelo mukhabarat (serviço de espionagem,  muito temido).  Pouco tempo antes da sua prisão, ele disse: “Nós não somos menos do que os trabalhadores da Comuna de Paris: eles resistiram por 70 dias e nós ainda aqui estamos  há um ano e meio” [5]

Aziz foi preso numa cela dos serviços de espionagem,  de 4 por 4 metros, compartilhada com 85 outras pessoas e isso provavelmente terá contribuído para a deterioração de sua saúde já frágil. Mais tarde, foi transferido para a prisão de Adra, onde morreu de complicações cardíacas, em fevereiro de 2013, um dia antes do seu 64º aniversário.

O nome de Omar Aziz pode nunca vir a ser muito conhecido, mas merece o nosso reconhecimento como uma figura contemporânea importante no desenvolvimento do pensamento e da prática anarquistas. As experiências na organização revolucionária , a partir da base, que ele inspirou podem fornecer informações e lições de organização anarquista para futuras revoluções em todo o mundo.

Notas:

1 Budour Hassan, ‘Omar Aziz: Rest in Power’, 20 de fevereiro de 2013, http://budourhassan.wordpress.com/2013/02/20/omar-aziz/

2 Omar Aziz, ‘Um documento de discussão sobre os Conselhos Locais, “(em árabe) http://www.facebook.com/note.php?note_id=143690742461532

3 Ibid.

4 Ibid.

5  Via @ Darth Nader https://twitter.com/DarthNader/status/304015567231266816

artigo na íntegra: http://tahriricn.wordpress.com/2013/08/23/syria-the-life-and-work-of-anarchist-omar-aziz-and-his-impact-on-self-organization-in-the-syrian-revolution/#more-1231

dois

Nem Assad, nem Obama!

https://www.facebook.com/events/181779558670822/

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