Mês: Outubro 2013

(impostos) Hoje junto ao palácio de belém um apelo à desobediência


Nota de Imprensa para um Apelo ao Público

Nelson Arraiolos vai estar, ao meio-dia da próxima quarta-feira, no jardim em frente ao Palácio de Belém, para fazer um apelo à desobediência. Este apelo vem na sequência da anuência de Cavaco Silva, de Maria Luís Albuquerque e do Chefe da Repartição de Finanças do Bombarral, relativamente à declaração na qual afirmou que vai deixar de pagar impostos.
O Nelson está desempregado e carece de apoio adequado para a doença degenerativa de que padece. A sua família foi alvo de penhoras ilegais por parte das Finanças, as quais visavam dívidas do próprio.
Agradece-se a todos as senhoras e senhores jornalistas, órgãos de comunicação e cidadãos em geral a divulgação e apoio a este acto de resistência involuntária.
Nelson Arraiolos
24 de Outubro de 2013
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nuno-arraiolos

Testemunho:

“Trabalhei em muitas profissões diferentes, duma ponta à outra do país. Da construção civil a call centers. Vivi sozinho em cidades estranhas. Nunca poderá ser dito que os sítios onde trabalhei se adaptaram a mim. Eu é que me adaptei ao trabalho.
Começou a guerra aberta aos trabalhadores, à qual alguns, descaradamente, se atrevem a chamar ‘crise’. Vieram os gafanhotos dos bancos e vieram os credores. Veio um milhão e meio de desempregados, uma massa humana de famintos e desesperados, como os patrões gostam, para lhes poderem dar trabalhos de 300? e ainda rir-se com soberba na cara deles; rir-se bêbados com o prazer mesquinho de quem põe e dispõe da vida alheia.
Descobri que estava a ser despromovido. É que não me querem como ser humano, nem a mim nem a vocês: querem-nos como animais de carga. Eu nem para animal sirvo. Enviei milhares de currículos, mas… sou velho de mais, doente de mais. Foi assim que saltei directamente de ser humano para dano colateral. Um daqueles mortos que há nas guerras quando uma bomba falha o alvo e aterra num bloco de apartamentos cheio de famílias. Não há lugar para mim na economia da austeridade. ‘Morre, se faz favor, rapidinho e sem barulho.’
Por algum tempo o que resta do 25 de Abril permitiu-me ser um morto com alguma dignidade. Tive o meu subsídio de desemprego. Depois acabou. Não tive direito a subsídio subsequente ou de inserção social. Tal como eu, há outro meio milhão de mortos que vivem neste país sem qualquer rendimento, sem qualquer esperança, alimentando-se da caridade da família e dos vizinhos. Ou acabam na rua a passar fome. Danos colaterais perante a vista de todos, destroços humanos da guerra económica feita aos trabalhadores.
O Estado que, nas mãos dos partidos dos patrões, não passa de um carrasco, continua a acossar-me. Pede-me o que não tenho. Manda as Finanças atrás da minha família. E eu descubro que só uma coisa me pode devolver a vida, ou pelo menos a dignidade: resistir.
Avisei o Presidente da República, a ministra das Finanças e a repartição de Finanças do local onde resido, Bombarral. Avisei: acabou-se. Enquanto me tomarem como um dano colateral das suas operações de resgate dos bancos, eu não tenho qualquer responsabilidade perante este Estado. Cessei qualquer pagamento de impostos.
O Estado tornou-se o instrumento da nossa destruição. Façamos então os possíveis por acelerar o fim dos nossos carrascos. Lançarei em breve um apelo à desobediência civil e sei que conto com a vossa ajuda para o propagar.”
Nelson Arraiolos
Excerto de um texto de Nuno Ramos de Almeida publicado no jornal i:
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Saiu mais uma edição de “A Batalha”


batalha

Acaba de sair uma nova edição do jornal de expressão anarquista “A Batalha”, antigo jornal diário e órgão da CGT anarco-sindicalista.  Esta edição  – o nº. 256, da VI Série, Set./Out. de 2013 – dá destaque aos protestos no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro;  assinala os 125 anos do jornal da FAI, Tierra y Libertad; aborda a situação em Portugal e em Espanha, após os planos de austeridade;  destaca a poesia de Fernando Dias Antunes e publica um artigo do historiador e escritor eborense Joaquim Palminha da Silva, que a seguir se transcreve:

Paciência

Joaquim Palminha da Silva

Normalmente, a paciência aconselha-se… aos outros! – Para nós ela não é bem-vinda, pois temos pressa! Efectivamente, a paciência só presta quando se tem vagar… Mas quem é que tem vagar?!

Vox Populi, Vox Dei… Talvez, todavia, há ditados populares que se contradizem descaradamente, dificultando, assim, uma interpretação mais ou menos profunda à mentalidade corrente dos portugueses. Nesta ordem de ideias entra a palavra paciência. Tem a tradição oral centenas de canastras de «paciências», a ofertar ao curioso mais exigente… Eis alguns destes ditados:

«A paciência abranda a dor»;

«A paciência é amarga mas o seu fruto é doce»;

«A paciência é boa para a vista»;

«Paciência e sebo de grilo, é bom para aquilo…»;

«A paciência é unguento para todas as chagas»;

«Paciência excede sapiência»,

(Vd., Pedro Chaves, Rifoneiro Português, Porto, 1945).

Não raro, o cidadão isolado, polida a existência nas arestas e rudezas do quotidiano e nas dificuldades de subsistência, aguenta-se de tal forma sem se revoltar que parece impregnado de paciência.

O Povo, entretanto estabelecido no solo maninho da injustiça social e económica, parece-nos conformado a viver numa pesada atmosfera de tristeza, própria de quem acabou por depor as armas da «luta de classes», entre outras «lutas», disposto a esperar pacientemente que melhores dias surjam, após estas crises cíclicas… Encolhemos os ombros e, que se há-de fazer (?), paciência!

A “miragem” do caudal contínuo da História, da sua «longa duração», segundo a opinião do historiador francês F. Braudel e seus seguidores da revista «Annales», chegou a fazer-nos esquecer os seus sussurros, aquilo que sempre fica em suspenso na História, levando-nos a intitular de paciência dos povos tudo o que não aponta para a acção, para a ruptura imediata.

O cidadão isolado e o Povo em geral, estão apenas limitados por condicionalismos arquitectados fora da sua realidade, não pela paciência.

Na verdade, exercendo-se sobre um ou outro grupo social a acção “plástica” da injustiça de forma mais acintosa e, diga-se, a partir da sua dolorosa experiência, estes mesmos grupos sociais, como seixos rolados no rio da desgraça, chegam a tomar formas agudas e ferozes, com que a qualquer momento podem arrombar as portas que lhes foram vedadas. E não há mais paciência que os segure ou acalme!

A paciência é, pois, um arquétipo de recurso, o “ersatz” tradicional de que podem tomar mãos os Governos faltosos para com os seus povos, bem como as organizações de “caridade” social montadas pelos ricos para aliviar a pressão da fome e evitar explosões de ódio social; enfim, todos que pretendem pedirem aos “humilhados e ofendidos” tréguas no seio do mal-estar social, para que uma minoria possa dispor dos recursos colectivos em paz, discreta ou ostensivamente, sem contestação organizada, violenta, radical!

A ideia de que existe paciência tem vindo a submeter a Humanidade a duras provas, às vezes mortais! – Uma coisa é saber esperar um pouco por A+B e etc. e tal; outra coisa, e bem oposta, é ter uma contínua e desmiolada paciência que nos acompanha até à hora da morte!

A paciência não é um território onde se possa viver. O cidadão anónimo e o Povo em geral, não são nativos monótonos de uma maravilhosa terra da paciência!

A paciência é utilizada para tentar a suspensão da História e, como se isso fosse possível, transportá-la depois para terrenos que possibilitem a sua absorção pelo espaço do conformismo, da desistência de toda a acção directa, sem “donos” e sem “mestres”! – Por toda a acção que a História sempre determina, sem obedecer aos seus professores!

Estes professores de História, que olham para nós embaraçados, como se nos dissessem: «Qué-q’quer? A revolução social não está, saiu!», e depois, com remorsos, acrescentariam: «Vá, peguem lá uma greve e uma manifestação, quentinhas, acabadas de organizar…Seja tudo em desconto dos nossos pecados revolucionários! E tenham paciência…»

A paciência que se “vende” por aí, sem escapatória explicativa imediata, exprime bem o clima de apreensão morna, de angústia asfixiante que antecede uma explosão… Mas nem sempre as explosões sociais vão no sentido da Democracia e da possível justiça social…

A última vez que tivemos paciência, andámos com ela ao colo 40 e tal anos.

 (A Batalha, nº. 256, Set/Out. 2013)

(1922) Manifesto de sindicalistas presos sobre o PCP


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Por vezes surge a versão que o aparecimento do Partido Comunista em Portugal estaria ligado ao impacto que teve a revolução russa  e a criação da União Soviética, nomeadamente entre os anarquistas e anarcosindicalistas. Segundo estas versões teria sido algo “natural”, que coincidiu também com a divulgação das obras de Marx e Lenin no nosso país e que tudo se teria processado de forma tranquila. Não foi assim. Desde logo, porque a militância comunista rapidamente se sectarizou e infiltrada nos sindicatos da CGT tentou por todos os meios quebrar, muitas vezes pela força, a influência anarco-sindicalista no seio operário. Outras vezes também, através do recurso à força e a métodos já considerados na época como “fascistas”. Exemplo disso é este manifesto – de 1922 –  repudiando a morte às mãos de elementos do PCP de um operário que terá aderido ao partido, mas depois terá querido sair e isso terá sido a justificação para a sua eliminação física. O comunicado, escrito na Prisão do Limoeiro, é assinado por mais de duas dezenas de sindicalistas revolucionários ali detidos e constitui um libelo acusatório contra as práticas sectárias do PCP, fundado no ano anterior como secção portuguesa da Internacional Comunista. CLE

Manifesto aos trabalhadores conscientes

CAMARADAS:

É após uma análise aturada à situação social revolucionária do nosso pais, que nós somos constrangidos a vir a público, dar parte de uma resolução algo importante por nós tomada, pois que ela é o início de uma nova era de processos de camaradagem e solidariedade entre as duas modalidades distintas – Marxismo, hipocritamente encoberto com a mascara de Comunismo, e Comunismo libertario.

Com origem em dissidências e personalismos, e numa contenda de princípios filosófico-sociais, fundou-se em Portugal um partido politico denominado: Partido Comunista.

Este Partido, cujas bases assentam nas teorias marxistas e que tende á conquista do poder politico-estatal, entravando por esta forma a marcha da Revolução que aspira á conquista da integra emancipação humana e á supressão de todo o principio de autoridade, alberga no seu seio individuos de caracter duvidoso, cujo proceder tem dado ensejo a merecer a mais completa repulsa de todo o trabalhador consciente.

Sabemos que nessa facção politica existem indivíduos cuja intenção é boa. Contudo, reconhecemos que estão mal colocados, pois se encontram fora do seu campo de acção.

Sucede isto, pelo facto desse partido se acobertar sob a bandeira do comunismo, atraindo por esta forma bastantes camaradas incautos, que julgam vêr nele uma força revolucionaria, suficiente a preparar a Revolução num curto espaço de tempo.

Porem a força das circunstancias e a própria ideologia do Partido teem evidenciado a incapacidade deste em fazer algo de concreto pela emancipação do proletariado, tendo começado já as divergências e as desilusões.

A provar esta nossa asserção está o facto do nosso desditoso camarada Manuel Maria, filiado nesse partido, que reconhecendo o campo falso em que estava colocado teve a consciência de regressar ao campo sindicalista revolucionário, o que ocasionou o seu assassinato infame por um bando de facínoras que, ainda não satisfeitos com isto, não tendo saciado a sua sede de sangue, teem ameaçado de morte camaradas nossos por terem tido a lealdade de verberar o seu procedimento.

Outros há, que querendo seguir o exemplo de Manuel Maria, o não teem feito, talvez pelo seu receio de serem victimas do sectarismo dessas criaturas, cujo procedimento ignóbil se assemelha aos «fascistas» italianos, pois o seu fito não é outro senão o desmantelamento da organização operária.

Poder-nos-hão objectar que o Partido Comunista não pode ser responsável pela obra criminosa e demasiadamente cobarde que uma reduzida meia dúzia de malucos impunemente vem realisando.

Mentira! Respondemos nós, que pela causa revolucionaria proletariana temos sacrificado o nosso bem estar, a nossa saúde e a própria Liberdade por tempos infinitos.

O Partido Comunista não repudiando até hoje o assassinato do nosso inolvidável camarada, provou insofismavelmente a sua abjecta cumplicidade num crime tam hediondo. Os miseráveis acobertam-se sob a sua bandeira, e o Partido Comunista não ousa escorraçar das suas fileiras essa malta miserável, sem nobresa nem ideal, ralé desprezível, incapaz dum gesto que dignifique, mas disposta a praticar as mais degradantes baixesas humanas.

Em face do que acabamos de narrar, é num indignado assomo de revolta que nós sindicalistas revolucionários presos por delicto social, de dentro desta masmorra nos dirigimos a vós, para ponderardes bem na obra de vil traição que estes indivíduos estão executando e definirdes qual a sua situação perante a massa trabalhadora consciente.

Por nossa parte, desde já constatando a maneira deslial e indigna como teem procedido, publicamente declaramos ter tomado as seguintes deliberações:

Tomar na devida consideração aqueles que fazendo parte desse Partido, já estivessem presos á data do atentado a Manuel Maria;

recusar a nossa camaradagem e solidariedade a quaisquer indivíduos que continuem fazendo parte dessa organização;

repudiar todo o auxilio moral e material que nos queiram prestar os mesmos indivíduos, visto eles serem nossos inimigos e o seu obulo vir manchado com o sangue dum camarada que baqueou victima da paixão cega dos neo-comunistas convertidos em “fascistas”;

afirmar a nossa inabalável crença no Ideal anarquista, reconhecendo o Sindicalismo revolucionário como único meio de luta para a  sua efectivação.

Abaixo os traidores!

Abaixo os «fascistas» portugueses!

Viva o Comunismo libertario!

Cadeia do Limoeiro, 1 de Novembro de 1922

Os sindicalistas revolucionários presos por delito social,

Manuel Vieira
Antonio Joaquim Pato
Avelino de Castro
Raul dos Santos
Antonio Manuel Vinhais
Artur Gonçalves
José Agostinho das Neves
José Gordinho
Manuel de Castro Simões
Alvaro Damas
Carlos Correia
Manuel Ramos
Manuel Viegas Carrascalão
Quirino Fernandes
José d’Almeida Figueiredo
Fernando Pedro Candido
Salvado de Matos Filipe
Pedro de Matos Filipe
Candido Rodrigues Mendes
José Bernardino dos Santos
Francisco Luiz
Francisco Costa
Albano Costa
José Rodrigues Pereira
Estevão Azenha
José Rodrigues
João Nunes
Joaquim Pita
Jaime de Campos
Sebastião Vieira
Joaquim Fernandes Talhadas
António Soares Branco
José Lopes
Joaquim Mendes
Urbano Alves
Manuel João
Antonio Torres
Henrique Rolim Ramos
Antonio José d’Almeida
José Nunes dos Santos
Sebastião da Costa Brito
Bernardino Sebastião Paiva
Antonio Chagas
Bernardo Costa
Bernardo Montes
Antonio Louça
Dionildo Novais
Francisco de Oliveira
José Vicente
Joaquim Pedro
José Maria da Silva

Aqui: http://casacomum.net/cc/visualizador?pasta=04525.068

“Salta à vista o renascimento das ideias e práticas libertárias”


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Carlos Taibo é um professor universitário, escritor e activista político espanhol, que defende a necessidade de um “decrescimento” económico. Habitual colaborador em múltiplas iniciativas da CNT e de outras organizações anarquistas e libertárias, editou já este ano o livro ‘Repensar a anarquia. Acção Directa, autogestão, autonomia’ (Catarata, Madrid, 2013) A entrevista que publicamos (depois de traduzida) foi-lhe feita por Pedro Maceiras.

Há três anos publicaste uma antologia do pensamento libertário. O que tem este livro a ver com aquele?

– São trabalhos com objectivos diferentes. Se em “Libertari@s”, publicado pela Del Lince, o meu propósito principal era demonstrar que os clássicos anarquistas, e com eles uma mão cheia de pensadores afins, tinham muito a dizer-nos de forma a iluminarem-nos o mundo em que vivemos, neste trabalho pretendo entrar, a partir duma visão que não pode ser senão pessoal e não dogmática, nos grandes debates que rodeiam o pensamento libertário: o Estado, o capitalismo, a luta de classes, a democracia e a acção directas, a autogestão, as eleições e os parlamentos, a própria questão nacional…

– Nas páginas de “Repensar a anarquia” voltas à distinção entre anarquistas e libertários.

Volto a essa distinção porque me serve para chamar a atenção sobre uma ideia importante, mas em que não me obstino a querer impor. O adjectivo “anarquista” tem uma condição ideológico-doutrinal mais forte do que a que corresponde ao adjectivo “libertário”. Ainda que saiba que estou a forçar a argumentação, um anarquista é alguém que leu Bakunin e Kropotkin e que se identifica com as suas ideias. Ainda que estas leituras sejam muito recomendáveis, o adjectivo libertário tem um sentido mais amplo, uma vez que remete para a condição de muitas pessoas que, anarquistas ou não, apostam em assembleias, na democracia directa e na autogestão, e recusam hierarquias e lideranças. Acredito firmemente em que cada vez existem mais libertários, algo que se pode comprovar através da expansão que entre nós estão a experimentar os espaços autónomos que se reclamam da autogestão e da desmercantilização.

-Crês realmente que assistimos a um renascimento das ideias e práticas libertárias?

Parece-me que isso salta à vista e que tem, pelo menos, duas explicações principais. A primeira é configurada pela quebra sem saída das propostas trazidas pela socialdemocracia e pelo leninismo. A segunda é , a meu ver, sem dúvida, a mais importante: para fazer frente aos problemas de um capitalismo que avança para uma fase de corrosão terminal, e que nos conduz ao colapso, a proposta libertária, que não é outra senão a da organização da sociedade a partir de baixo, em defesa clara da autogestão e da desmercantilização, que acabo de referir, tem hoje mais actualidade que nunca. Creio que essa proposta se justifica mais pelo que se anuncia do que, também, pelo que aconteceu no passado.

-O teu livro é uma alegação contra os que continuam a acreditar em eleições, partidos e parlamentos.

– Continua-me a fascinar o eco que a via eleitoral, e com ela a figura dos dirigentes políticos, tem em pessoas inteligentes e respeitáveis. Não sei se posso atribuir isso ao ascendente poderosíssimo que a cultura ao serviço do sistema que sofremos conseguiu alcançar ou a uma espécie de cegueira transitória derivada do desespero. Mas esclareço que também não me sinto muito cómodo nesta batalha: que cada qual faça o que achar conveniente. Ainda que esteja certo de quais são os becos sem saída a que nos conduz a via eleitoral, e em especial o que se traduz num esquecimento inevitável de tudo o que cheire a democracia directa e a autogestão, interessa-me mais a parte propositiva da proposta libertária. E pemito-me resgatar um argumento que Ricardo Mella utilizava com frequência: se vocês querem, votem, mas trabalhem pela emancipação, desde abaixo, os restantes 364 dias do ano. Se é que o feitiço de eleições e representações o permite.

– É imaginável um  projecto libertário se a luta de classes não correr constantemente pelas suas veias?

– Obviamente que não. Nunca foi imaginável sem a luta de classes e menos o será agora, num momento em que assistimos a uma manifestação ostentosa da luta de classes levada a cabo pelos de cima. Outra coisa distinta é que nos ponhamos de acordo no que se refere aos desafios que hoje coloca a luta de classes. A este respeito, sinto incómodo tanto com os que consideram que a classe operária é um artefacto do passado de que se pode prescindir como com os que consideram que essa mesma classe operária não experimentou qualquer mudança no decurso do último século. Seja como for, consolidar um projecto anarco-sindicalista que tenha o seu núcleo principal no mundo do trabalho, parece-me que é uma tarefa vital num cenário em que as relações laborais estão a regressar ao século XIX. É, pelo menos, se o nosso propósito não é apenas procurar uma saída social para a crise, mas deixar para trás urgentemente o capitalismo

– Há que rever o papel do Estado na tradição anarquista?

– Melhor, há que actualizá-lo. Creio que essa tradição assentou em duas percepções que merecem reflexão. A primeira é uma certa obsessão pelo Estado que esquece que ele é, ao fim e ao cabo, um instrumento, ainda que central, de domínio ao serviço do capital. Muitas das opressões de que hoje padecemos não têm necessária e claramente como origem o Estado. A segunda é, apesar de tudo, mais delicada, na medida em que assenta numa ingénua identificação da suposta função protectora do Estado, bem materializada nos chamados Estado de bem-estar. É importante questionar o que é que estes significam como instâncias exclusivas do capitalismo, hostis a qualquer perspectiva autogestionária, estreitamente vinculados à socialdemocracia e ao sindicalismo de conciliação, a duras penas libertadores relativamente aos problemas das mulheres, ecologicamente insustentáveis e não solidários com os problemas dos países do Sul. E é importante recordar, em paralelo, a dimensão repressiva e controladora que, desde sempre, corresponde ao Estado.

-Dedicas um espaço importante do livro a procurar as relações entre os clássicos do anarquismo e as propostas que hoje conhecemos como ecologia, feminismo e pacifismo.

– A relação com o pacifismo e o antimilitarismo é fluída; existe, ainda que com entraves e problemas, no caso do pacifismo; e, pelo contrário, é muito débil no caso da ecologia. Ainda que, com alguma pequena excepção, os clássicos do anarquismo tenham sido, no que diz respeito ao problema enorme dos limites do meio ambiente e dos recursos, pensadores ancorados no século XIX, é verdade que a recusa dos grandes complexos produtivos e das formas de organização do trabalho, inevitavelmente opressivas, do seu tempo, em conjunto com a defesa da organização do trabalho a partir de baixo, prefiguraram amiúde pela sua parte um mecanismo de defesa quase biológico frente à idealização do desenvolvimento das forças produtivas a que se entregaram Marx e os seus epígonos.

– Os críticos da democracia directa sublinham que é uma forma completamente inadequada para encarar os problemas de sociedades complexas.

– E em parte têm razão. O que acontece é que a reivindicação da democracia e da acção directas não aparece só. Faz-se acompanhar, paralelamente, da defesa de uma reestruturação radical das nossas sociedades que reclama, face ao colapso, decrescer, desurbanizar, destecnologizar, descentralizar e descomplexizar. Há que levar o pacote inteiro. Se a tarefa em causa parece difícil, e sem dúvida é, não fica mal recordar o que dizia com ironia o trecho de uma canção anarquista francesa do século XIX: “abolamos, sim, o capital, mas, se o fizermos, quem nos pagará a jorna no sábado?”.  Muitos dos problemas que hoje nos parecem insolúveis, talvez não sejam um obstáculo tão severo quando pusermos mãos à obra.

Aqui: http://www.carlostaibo.com/articulos/texto/?lang=es&id=478

repensar

(Espanha) José Manuel Muñoz Poliz, é o novo Secretário Geral da CGT


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Foi eleito o novo Secretariado Permanente da Confederação Geral do Trabalho no XVII Congresso Confederal realizado na Corunha.

O trabalhador do sector ferroviário  José Manuel Muñoz Poliz, de 51 anos, foi eleito Secretário Geral da CGT no último dia do XVII Congresso Confederal que acabou hoje (20/10/2013) em Paraninfo da Universidade da Corunha.

Filiado neste sindicato desde 1986, foi Secretário de Acção Sindical da CGT confederal de 2001 a 2005 e Secretário de Organização de 2005 a 2008.

Acompanham-no nestas funções nos próximos quatro anos uma equipa formada por Luís Romón, Secretário de Organização; Dolores Vicioso, Secretária de Administração e Finanças; José Aranda, Secretário de Acção Sinidcal; Irene de La Cuerda, Secretária de Acção Social; José Manuel Fernández, Secretário de Comunicação; Desidério Martín; Secretário de Formação e Saúde Laboral; Paula Ruíz, secretária da Mulher; e Angel Bosqued, Secretário de Internacional.

Entre os principais defasios que a CGT enfrenta, destacam-se a potênciação da miltância e a participação dos sindicatos e da acção sindical para dar uma resposta laboral e social na rua, em defesa dos direitos e dos serviços públicos. Tudo isso dentro do modelo de anarcosindicalismo combativo, frente ao sindicalismo institucional representado pelas CCOO e UGT.

 Centro de Imprensa:  Juana Vázquez

cgtcong

(100 anos) Vinicius Moraes: o operário em construção, por Mário Viegas


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nao sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quatel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Nao fosse eventuialmente
Um operário em contrucão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operario em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que nao havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Excercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia “sim”
Comecam a dizer “não”
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
– “Convencam-no” do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vao sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindivel
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Nao dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Nao ves o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Nao podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um siêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silencio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arratarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

Vinicius de Moraes