Saiu mais uma edição de “A Batalha”


batalha

Acaba de sair uma nova edição do jornal de expressão anarquista “A Batalha”, antigo jornal diário e órgão da CGT anarco-sindicalista.  Esta edição  – o nº. 256, da VI Série, Set./Out. de 2013 – dá destaque aos protestos no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro;  assinala os 125 anos do jornal da FAI, Tierra y Libertad; aborda a situação em Portugal e em Espanha, após os planos de austeridade;  destaca a poesia de Fernando Dias Antunes e publica um artigo do historiador e escritor eborense Joaquim Palminha da Silva, que a seguir se transcreve:

Paciência

Joaquim Palminha da Silva

Normalmente, a paciência aconselha-se… aos outros! – Para nós ela não é bem-vinda, pois temos pressa! Efectivamente, a paciência só presta quando se tem vagar… Mas quem é que tem vagar?!

Vox Populi, Vox Dei… Talvez, todavia, há ditados populares que se contradizem descaradamente, dificultando, assim, uma interpretação mais ou menos profunda à mentalidade corrente dos portugueses. Nesta ordem de ideias entra a palavra paciência. Tem a tradição oral centenas de canastras de «paciências», a ofertar ao curioso mais exigente… Eis alguns destes ditados:

«A paciência abranda a dor»;

«A paciência é amarga mas o seu fruto é doce»;

«A paciência é boa para a vista»;

«Paciência e sebo de grilo, é bom para aquilo…»;

«A paciência é unguento para todas as chagas»;

«Paciência excede sapiência»,

(Vd., Pedro Chaves, Rifoneiro Português, Porto, 1945).

Não raro, o cidadão isolado, polida a existência nas arestas e rudezas do quotidiano e nas dificuldades de subsistência, aguenta-se de tal forma sem se revoltar que parece impregnado de paciência.

O Povo, entretanto estabelecido no solo maninho da injustiça social e económica, parece-nos conformado a viver numa pesada atmosfera de tristeza, própria de quem acabou por depor as armas da «luta de classes», entre outras «lutas», disposto a esperar pacientemente que melhores dias surjam, após estas crises cíclicas… Encolhemos os ombros e, que se há-de fazer (?), paciência!

A “miragem” do caudal contínuo da História, da sua «longa duração», segundo a opinião do historiador francês F. Braudel e seus seguidores da revista «Annales», chegou a fazer-nos esquecer os seus sussurros, aquilo que sempre fica em suspenso na História, levando-nos a intitular de paciência dos povos tudo o que não aponta para a acção, para a ruptura imediata.

O cidadão isolado e o Povo em geral, estão apenas limitados por condicionalismos arquitectados fora da sua realidade, não pela paciência.

Na verdade, exercendo-se sobre um ou outro grupo social a acção “plástica” da injustiça de forma mais acintosa e, diga-se, a partir da sua dolorosa experiência, estes mesmos grupos sociais, como seixos rolados no rio da desgraça, chegam a tomar formas agudas e ferozes, com que a qualquer momento podem arrombar as portas que lhes foram vedadas. E não há mais paciência que os segure ou acalme!

A paciência é, pois, um arquétipo de recurso, o “ersatz” tradicional de que podem tomar mãos os Governos faltosos para com os seus povos, bem como as organizações de “caridade” social montadas pelos ricos para aliviar a pressão da fome e evitar explosões de ódio social; enfim, todos que pretendem pedirem aos “humilhados e ofendidos” tréguas no seio do mal-estar social, para que uma minoria possa dispor dos recursos colectivos em paz, discreta ou ostensivamente, sem contestação organizada, violenta, radical!

A ideia de que existe paciência tem vindo a submeter a Humanidade a duras provas, às vezes mortais! – Uma coisa é saber esperar um pouco por A+B e etc. e tal; outra coisa, e bem oposta, é ter uma contínua e desmiolada paciência que nos acompanha até à hora da morte!

A paciência não é um território onde se possa viver. O cidadão anónimo e o Povo em geral, não são nativos monótonos de uma maravilhosa terra da paciência!

A paciência é utilizada para tentar a suspensão da História e, como se isso fosse possível, transportá-la depois para terrenos que possibilitem a sua absorção pelo espaço do conformismo, da desistência de toda a acção directa, sem “donos” e sem “mestres”! – Por toda a acção que a História sempre determina, sem obedecer aos seus professores!

Estes professores de História, que olham para nós embaraçados, como se nos dissessem: «Qué-q’quer? A revolução social não está, saiu!», e depois, com remorsos, acrescentariam: «Vá, peguem lá uma greve e uma manifestação, quentinhas, acabadas de organizar…Seja tudo em desconto dos nossos pecados revolucionários! E tenham paciência…»

A paciência que se “vende” por aí, sem escapatória explicativa imediata, exprime bem o clima de apreensão morna, de angústia asfixiante que antecede uma explosão… Mas nem sempre as explosões sociais vão no sentido da Democracia e da possível justiça social…

A última vez que tivemos paciência, andámos com ela ao colo 40 e tal anos.

 (A Batalha, nº. 256, Set/Out. 2013)

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