(EZLN) Mensagem do subcomandante Marcos aos Anarquistas


marcos

 (O diário La Jornada (México D.F.)) na sua edição de 3/11/2013 difundiu um relatório sobre a primeira volta da “Escuelita” que o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) organizou em Chiapas em agosto passado. Nesse relatório, intitulado “Más e não tão más notícias”, o redactor – o comandante Marcos – dedica um capítulo aos anarquistas e à actual onda de histeria anti-anarquista que o Estado e o Capital promovem naquelas paragens).

«CASOS ESPECIAIS: @s Anarquistas.

Dada a campanha Anti Anarquismo que levam para a frente as boas consciências e a esquerda bem comportada, unidas numa santa cruzada com a direita ancestral para acusarem jovens e velh@s anarquistas de desafiarem o sistema (como se o anarquismo tivesse outra opção), para além de desmontarem as suas encenações (o apagarem a luz é para não verem @s anarquistas?) e que é levada ao delírio com qualificativos como “anarco-falcões”, “anarco-provocadores”, “anarco-porros”, “anarco-etc.” (li por aí o qualificativo de “anarco-anarquista”, não é sublime?), as zapatistas e os zapatistas não podemos ignorar o clima de histeria que, com tanta firmeza, pede e exige que se respeitem as vidraças (que não mostram, mas ocultam o que se passa detrás da montra: condições laborais esclavagistas, higiene nula, má qualidade, baixo nível nutritivo, lavagem de dinheiro, fraude fiscal, fuga de capitais).

Porque agora fica claro que essas ratanices mal dissimuladas chamadas “reformas estruturais”, que o despojo laboral do magistério, que a venda outlet do património da Nação, que o roubo que o governo perpetra contra os governados com os impostos, que a asfixia fiscal – que só favorece os grandes monopólios –, que tudo isso é culpa d@s anarquistas.

Que as pessoas de bem já não saiam às ruas para protestar (mas veja, ali estão as marchas, os plantões, os bloqueios, as pintadas, os comunicados. Sim, mas são de professores-transportistas-ambulantes-estudantes-ou-seja-índios-índias-e-de-província, digo eu gente bem-bem-do DF. – Ah, a mítica classe média, tão cortejada e ao mesmo tempo tão desprezada e defraudada por todo o espectro mediático e político-), que a esquerda institucional também deixa os espaços de manifestação, que o “único opositor ao regime” foi tornado opaco pelos sem nome uma e outra vez, que a imposição arbitrária se chama agora “diálogo e negociação”, que o assassinato de migrantes, de mulheres, de jovens, de trabalhadores, de crianças, tudo isso é culpa d@s anarquistas.

Para os que militam e se reivindicam como sendo do “A”, uma bandeira sem nação nem fronteiras, e que são parte da SEXTA, mas que militem de verdade e não seja apenas uma moda de vestir ou de calendário, temos para além de um abraço de companheirismo, um pedido especial:

Compas Anarquistas: nós os zapatistas, nós as zapatistas, não os vamos acusar pelas nossas deficiências (incluindo a falta de imaginação), nem os vamos tornar responsáveis pelos nossos erros, nem  muito menos vos vamos perseguir por serdes quem sois. Mais ainda, conto-vos que vários convidados nossos em Agosto (para a primeira fase da “Escuelita”) cancelaram a vinda porque, disseram, não podiam partilhar a aula com “jovens anarquistas, esfarrapados, punks, cheios de brincos e tatuagens”, que esperavam (os que não são jovens, nem anarquistas, nem esfarrapados, nem punks, nem cheios de brincos e tatuagens) uma desculpa e que não fossem inscritos. Seguem esperando inutilmente.

O que vos queremos pedir é que no momento da inscrição (para a segunda fase da “Escuelita”, prevista para o próximo mês de Dezembro) entreguem um texto, no máximo de uma folha de papel, onde respondam às críticas e acusações que lhes têm feito os meios de comunicação pagos. Este texto será publicado numa seção especial de nossa página eletrónica (enlacezapatista.ezln.org.mx) e numa revista-fanzine-como-se-diga que está prestes a aparecer no mundo mundialmente mundial, dirigida e escrita por indígenas zapatistas. Será uma honra para nós que no nosso primeiro número esteja a vossa palavra junto à nossa.

¿Eh?

Sim, vale uma folha só com uma palavra que abarque todo o espaço: algo como “Mentem!”. Ou algo mais extenso como “Eu explicar-vos-ia o que é o anarquismo se pensasse que iam entender”; ou “O anarquismo é incompreensível para os anões do pensamento”; ou “As transformações reais primeiro aparecem na nota vermelha”; ou “Estou cagando para a policia do pensamento”; ou a seguinte citação do livro “Golpes e contra-golpes”, de Miguel Amorós: “Todo a gente deveria saber que o Black Bloc não é uma organização,mas  sim uma tática de luta de rua similar à ‘kale borroka’, que uma constelação de grupos libertários, “autónomos” ou alternativos começou a praticar desde as lutas dos squats (“okupações”) nos anos 80 em várias cidades alemãs’ e juntar algo do tipo ‘se vão criticar algo, primeiro investiguem bem. A ignorância bem redigida é como uma idiotice bem pronunciada: igualmente inútil.”

Por fim, estou seguro de que não vos faltarão ideias.»

 …

Desde las montanhas do Sudeste  Mexicano.

O Subcomandante Marcos.

O texto original na íntegra: http://enlacezapatista.ezln.org.mx/2013/11/03/malas-y-no-tan-malas-noticias/

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