Dia: Janeiro 6, 2014

Rally Dakar: invasão motorizada e neocolonialismo desportivo


EvorallyDakar

O presidente da Bolívia e executivos da empresa Amaury Sport Organizations, no passado mês de Abril de 2013 no anúncio da inclusão da Bolívia no Rally Dakar. Longe estão os dias em que a imagem de Evo Morales se associava ao ambientalismo e à defesa da identidade cultural. Agora os recursos propagandísticos do governo vinculam-se aos campeonatos de futebol, aos concursos de beleza e às provas motorizadas. 

Começou ontem em Rosário (Argentina) o Rally Dakar 2014. Tal como em África, o Dakar é contestado no Cone Sul do continente americano pelos danos ambientais e sociais que causa. Uma prova de algumas dezenas de aventureiros e de ricaços para quem nada importa: nem a cultura, nem os sítios arqueológicos ou a estrutura das comunidades que atravessam. Este ano preparam-se para devastar o maior deserto do Sal do mundo, na sua primeira passagem pela Bolívia. Fica aqui a denúncia.

Antonio Pérez (*)

Em 1898, o capitão Voulvet e o tenente Chanoine saíram de Dakar (Senegal) à conquista do lago Chade. A invasão foi chamada de Missão África Central e, desde o ponto de vista cristão, foi de facto uma missão e com bastante êxito, pois que exportou para o céu milhares de africanos. A outrora bendita “coluna Voulet-Chanoine”, agora chamada coluna infernal ou das trevas, era composta por uns 70 africanos armados, 30 interpretes e 1200 carregadores escravos. À passagem pelos territórios indígenas subsaarianos que, um século depois, seria percorrido pelo rally Paris-Dakar, deixaram um rasto de aniquilação a que não escaparam nem as mulheres – esquartejadas e enforcadas – nem as crianças – queimadas – . Mas os oficiais franceses não se contentaram com praticar a táctica da guerra queimada, mas submergiram numa orgia genocida em que competiram entre si para verem quem era o assassino mais imaginativo. Segundo parece ganhou o capitão Voulvet graças a ter inventado um suplício original: pendurou vários dos seus guias em árvores de tal maneira que as hienas lhes comeram os pés e os abutres o resto. Pois bem: o antes chamado rally Paris-Dakar é a versão neocolonial daquela invasão colonial.

O Paris-Dakar (para a frente, PD) começou em 1979 como uma empresa privada do aventureiro T. Sabine e está agora em mãos da sua sucessora, a Amaury Sports Organization (ASO). Até agora e segundo os cálculos oficiais – sempre muito inferiores à realidade – os heróis do volante assassinaram a 28 africanos e a quatro sul-americanos. Os pilotos e o festival de apoio falecidos, creio, que chegaram aos 26, mas não é número que tenha verificado porque nenhuma hiena lhes devorou os pés e que metam de acordo entre as suas companhias de seguro. Fora duas edições, sempre causou mortes.

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