(Diário de Lisboa) O 18 de Janeiro em Silves


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A propósito de uma efeméride que se aproxima

O 18 de Janeiro em Silves

Alfredo Canana (*)

Acerca da organização da greve revolucionária de 18 de Janeiro de 1934, em Silves, e das razões porque se gorou a tomada da cidade pelos trabalhadores, tal como acontecera na Marinha Grande, pouco se sabe. Apenas os que viveram os acontecimentos conservam na memória os factos, enquanto os mais curiosos os conhecem por relatos parciais e até mistificadores saídos na imprensa burguesa da época. Há, no entanto, motivos que merecem notícia mais circunstanciada, de modo a permitir a correcção de certas «verdades» ditas oficiais, sobre o que na realidade se passou em Silves no dia 18 de Janeiro.

Dois homens, dois operários corticeiros participantes nessa luta, deram-nos o ensejo de concretizar tal objectivo e, mesmo à distância de 46 anos, dar a notícia.

São eles: Francisco Nicolau, que na altura foi julgado e condenado à revelia, mas teve a felicidade e a inteligência de poder fugir às masmorras do fascismo e viver em «liberdade» a época do salazarismo; e Manuel Pessanha, que cumpriu 12 anos de prisão em Angra do Heroísmo e Tarrafal. Para além da participação activa no dia 18 de Janeiro, algo de comum uniu estes dois homens: ambos conseguiram fugir para a serra. Por lá andar uns dias e refugiar-se em Espanha algum tempo.

«Depois de regressar de Espanha andei de terra em terra, mas nunca permanecendo muito tempo em qualquer delas. A localidade onde estive mais tempo foi Ponte de Sor. Fixei-me alguns anos e constitui família. Depois, morei em Sacavém, Lisboa, Barreiro, Grândola e, por último, definitivamente na Cova da Piedade.

Quanto ao Manuel Pessanha acabou por ser apanhado numa vila do Alentejo, onde se tornou popular e facilmente a polícia o localizou. Foi julgado e enviado, com outros camaradas, para o Tarrafal onde conseguiu sobreviver. Reside, actualmente, em Silves.»

Comunistas e anarquistas a mesma luta

No movimento do 18 de Janeiro, em Silves, os anarquistas estavam organizados por um lado e os comunistas por outro lado mas, apesar dessa divisão, ambas as partes colaboravam e procediam mesmo à distribuição conjunta de panfletos. Existia um comité de ligação com Lisboa e os dois grupos mantinham os contactos através desse comité, que integrava, entre outros: Domingos Passarinho, Manuel Pessanha e Abatino Luís da Rocha.

«Na noite de 17 de Janeiro reunimo-nos, comunistas e anarquistas, no campo, debaixo das árvores para acertarmos definitivamente os nossos planos de acção. Nessa mesma noite foram cortadas as ligações com o exterior. Como o grupo encarregado dessa tarefa se tivesse esquecido de cortar alguns fios, eu, o Pessanha e outro camarada fomos incumbidos de tal missão.»

Completando as palavras de Chico Nicolau, o Manuel Pessanha recorda:

«Já era dia quando cortámos os últimos fios. Subi a uma alfarrobeira e com um cinto cortei a ligação. Lembro-me como se fosse hoje.»

Isolada a cidade, os trabalhadores puseram o plano em marcha.

A «não chegada» do comboio correio, às 7 horas, à estação de Silves constituía o sinal «verde» para o começo da luta. Era o indicativo de que a revolução estava na rua, em Lisboa, que os ferroviários tinham aderido e que os trabalhadores poderiam tomar a cidade.

E o comboio não chegou. Os operários assaltaram o edifício da Associação de Classe dos Operários Corticeiros, encerrada pelos fascistas e convidaram a população a ocupá-la. Seguidamente dirigiram-se para o quartel da GNR, disposto a tomá-lo de assalto, quando chegou a notícia de que o comboio estava na estação. Tinha chegado com enorme atraso. Masi alguns minutos bastariam para que os trabalhadores concretizassem a ocupação do quartel da GNR, onde os soldados daquela corporação se tinham barricado. Existiam bombas suficientes para os assustar e levá-los a render-se.

Nas palavras de Manuel Pessanha, os ferroviários traíram, naquela época, o movimento operário ao condicionar a sua adesão à greve revolucionária à participação dos homens do «reviralho» (conspiradores que tinham como único objectivo o simples retorno às instituições da democracia burguesa), os quais prometeram um apoio que não chegou a aparecer.

O traidor Fernando Boi escapou e denunciou

Na jornada de luta do 18 de Janeiro houve apenas um traidor em Silves; um único operário que foi trabalhar nesse dia. Chamava-se Fernando Francisco da Silva, mas era mais conhecido por Fernando Boi.

Francisco Nicolau conta-nos como reagiram os trabalhadores em luta quando souberam que esse trânsfuga, ao serviço do salazarismo, estava na fábrica do Pinheirinho, a trabalhar:

«Fomos todos lá para correr com o tipo, este apercebeu-se e tentou fugir por uma janela, mas depressa foi apanhado. O Manuel Pessanha tentou intimidá-lo, com uma pistola. Houve tiros. O fulano estava armado, tentou disparar, mas a pistola encravou-se. O Pessanha ainda disparou um tiro, mas não lhe acertou, foi então que pularam sobre ele alguns camaradas e lhe demos uma valente sova. Pensámos, ainda, liquidá-lo, mas ou por falta de coragem ou medo das consequências, o tipo safou-se e acabou por denunciar muitos camaradas.»

Passadas algumas dezenas de anos, Manuel Pessanha acha que o tipo deveria ser liquidado:

«Se o tipo morresse ali aos meus pés ninguém tinha visto, era muita a gente que nos rodeava. O gajo tinha ficado ali e não fazia falta a ninguém. Um traidor que leva os camaradas à prisão, não olhando pelos filhos de cada um, é um indivíduo que não tem o direito de viver em sociedade.»

Espalhada a notícia da chegada do comboio, o calor revolucionário arrefeceu um pouco, mas o espírito de luta proletária manteve-se vivo. A GNR ao tomar conhecimento de que a revolução falhara passou logo ao ataque a bater e a prender a torto e a direito. Foram muitos os indivíduos presos, mas apesar disso ninguém retomou o trabalho. Nem com medidas repressivas. Durante 21 dias as fábricas mantiveram-se encerradas por ordem do ditador Salazar e seus lacaios. Só depois da prisão de Vergílio Barroso, devido a denúncia, foi dada ordem aos industriais para reabrirem as portas das fábricas.

Foram 21 dias de luta clandestina, de perseguições, e de sofrimento, sofrimento que para muitos deles se estendeu até às prisões atlânticas de Angra do Heroísmo e do Tarrafal.

Em alternativa ao fracasso do movimento revolucionário, os operários tinham acordado transformar os acontecimentos numa greve para protestar contra o assalto dos sindicatos pelo salazarismo, mostrando assim o seu descontentamento pela fascização das organizações dos trabalhadores.

Isso aconteceu em Silves, durante 21 dias. Primeiro pelo «não dos trabalhadores» em pegar ao trabalho, depois pelo «lock-out» imposto aos industriais pelo governo fascista.

«O Século» aludia na sua edição de 21 de Janeiro que «as autoridades administrativas, em oficio-circular comunicaram aos industriais que, por ordem superior, não lhes era permitido admitir ao trabalho os operários que não compareceram ao serviço no dia da greve revolucionária.»

Como a adesão foi total (excluindo o já citado Fernando Boi), toda a população operária corticeira sofreu os efeitos da paralisação das fábricas durante três semanas.

Algumas questões a corrigir em defesa da verdade

Para os estudiosos ou mesmo os curiosos da história, algumas questões urge corrigir, na defesa da verdade dos factos, sobre o que se passou em Silves.

A primeira «verdade» a corrigir prende-se com a maneira como os acontecimentos surgem na imprensa burguesa da época, nomeadamente «O Século», então dominado pela família Pereira da Rosa, o jornal que mais espaço ocupou sobre o 18 de Janeiro e mais ódio vomitou contra os trabalhadores em luta.

Assim, não nos admiremos encontrar na edição de 19 de Janeiro algumas dessas «verdades» salazarentas que «O Século» noticiou:

«Hoje, de manhã (18 de Janeiro) apareceram nos lugares mais frequentes, alguns grupos de operários corticeiros que tinham abandonado o trabalho.

A GNR estabeleceu, porém, um serviço de patrulhas, nas ruas e locais mais concorridos e a cavalaria e infantaria postaram-se, principalmente, nas embocaduras das ruas, que davam acesso aos respectivos quartéis e dissolveram os ajuntamentos.

Não houve manifestações.

A autoridade administrativa afixou um edital a convidar os proprietários dos estabelecimentos que, com receio de qualquer acontecimento grave, os tinham encerrado, a reabrirem as portas, o que foi, prontamente, feito.

De resto, poucos estabelecimentos tinham as suas portas fechadas. O mesmo edital estabelece que não é permitido o trânsito, nas ruas, depois das 21 horas a não ser em casos especiais.»

A realidade, porém, desmentiu algumas dessas «verdades», como também a do jornal citar que «têm sido feitas prisões de alguns elementos considerados agitadores ou ligados aos extremistas.» Quando se sabia que o número de prisões, somente em Silves, atingia mais de uma centena de trabalhadores, alcunhados pelo «Século» como agitadores e ligados aos extremistas.

A outra «verdade» que me parece oportuno corrigir prende-se com o comportamento dos comunistas de Silves antes e depois dos acontecimentos e tem origem em afirmações de Vergílio Barroso, contidas numa carta que escreveu a José António Machado, incluída no livro «18 de Janeiro de 1934 e alguns antecedentes»

Textualmente pode ler-se:

«E se os comunistas não metessem no seu seio alguns tarados não estariam aqui (prisão de Angra do Heroísmo) cinco deles, condenados entre 10 a 12 anos. Afirmo-o com conhecimento de causa.»

Estas palavras escritas em 1934 e vindas a lume em 1976 enxovalham a memória de alguns comunistas já falecidos (entre eles o meu próprio pai) ao mesmo tempo insultam camaradas ainda vivos, que por pudor se recusaram a revelar as razões porque os comunistas de Silves foram presos, nomeadamente António Estrela, um dos cinco da carta.

Mas eu posso revelar, mesmo traindo o compromisso para quem me contou os factos e eles são claros, de quem denunciou os comunistas ou os comprometem, dando pistas às autoridades.

Em 18 de Fevereiro «O Século» dava notícia da prisão de Vergílio Barroso e da apreensão de oito bombas e sete cartuchos de dinamite. Nesse mesmo dia António Estrela é avisado para comparecer no quartel da GNR. Como nada o ligasse ao Barroso foi confiante, mas a surpresa acolheu-o: ficou detido, Vergílio Barroso tinha-o denunciado como possuidor de bombas, como se apurou depois.

Manuel Pessanha tinha pedido a António Estrela para lhe guardar, por pouco tempo, umas bombas na casa do cunhado e inadvertidamente ou opara assegurar que as bombas estavam em lugar seguro comunicou o caso ao Barroso e este não teve relutância em denunciar à Polícia onde estas se encontravam e o nome do camarada comunista que as guardara. Isso valeu a António Estrela 12 anos de prisão. Mas, mesmo sentindo-se traído o então jovem revolucionário de Silves, não quis criar, àquele que o traiu, problemas ainda maiores no seu cativeiro.

Mais se poderia evocar, mas o que aqui fica dito ilustra bem o que se passou em Silves, no dia 18 de Janeiro de 1934. Um acontecimento que a história do movimento operário nem sempre relata com o rigor que ele merece. Fala-se muito da Marinha Grande, mas tem-se esquecido evocar outras localidades, como Barreiro, Almada e Silves, onde o operariado teve igualmente à altura do momento antifascista e alguns melhores filhos da classe operária, sofreram e morreram no Tarrafal, por participação na greve revolucionária.

É tempo de prestar homenagem a todos esses homens que lutaram e deram a vida pela defesa dos seus ideais e de os colocar no lugar exacto que merecem na história.

(1)Edição «Regra do Jogo» – 1978.

(*)Texto publicado na edição do “Diário de Lisboa” de 6 de Janeiro de 1980, pág. 9)  Aqui: http://www.fmsoares.pt/aeb_online/visualizador.php?bd=IMPRENSA&nome_da_pasta=06832.182.28636&numero_da_pagina=9

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