(memória libertária) Nota da CGT sobre o 18 de Janeiro de 1934 publicada em “A Batalha” clandestina de Abril/1934


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Com os 80 anos do 18 de Janeiro a serem assinalados no próximo sábado temos vindo a publicar diversos textos relevantes para a compreensão daquilo que esta data significou para o movimento operário, em geral, e para o movimento anarco-sindicalista português, em particular.  É uma data importante em que a participação dos diversos actores – e o modo como o fizeram – ainda é motivo de polémica e controvérsia. Hoje publicamos a primeira tomada de posição da CGT (logo em Abril de 1934, numa edição clandestina de “A Batalha”) sobre uma nota do Secretariado do PCP em que este partido afirma, de forma mentirosa, que “o 18 de Janeiro caracterizou-se precisamente pela expressão do desejo das massas de seguirem as palavras de ordem do Partido Comunista” e de que “na margem Sul do Tejo, em Almada, Cacilhas, Porto Brandão, Alfeite, Cova da Piedade a greve foi geral. No Algarve, houve greves e manifestações de massas, sobretudo em Silves, alguns pontos do Alentejo seguiram, também, as palavras de ordem do nosso Partido”. Ou seja, onde houve movimentação de massas ali esteve o PCP, então quase inexistente em termos de militantes… Os  métodos mentirosos, contra a verdade e de pura propaganda, afinal são a matriz fundadora de um partido que, primeiro, com financiamento da URSS, depois com as verbas do Estado,  tem partidarizado e anestesiado, desde há décadas, a luta dos trabalhadores portugueses.

A C.G.T., os chefes bolchevistas e o movimento de 18 de Janeiro

Os processos de actuação dos chefes bolchevistas são conhecidos: «todos os meios são bons para alcançarem os fins»… Desde a mentira à confusão, desde a intriga à calúnia.

Temos à nossa frente um Boletim assinado pelo Secretariado do Partido Comunista. É por consequência um documento oficial. Trata do movimento de 18 de Janeiro. O seu conteúdo não eleva quem o redigiu; revela apenas uma falta de honestidade moral que nunca pode triunfar no seio do proletariado.

A audácia das suas afirmações, o descaramento com que se pretende demonstrar uma grande preparação revolucionária comunista para o citado movimento, não consegue iludir a própria massa operária, fora, ou desviada, do âmbito destas lutas.

É nestes momentos que os «chefes» bolchevistas pretendem ganhar terreno. Para isso confundem, baralham, sofismam, porque sempre produzirá algum resultado…

Conhecemos, porém, esses processos. Andamos por cá há alguns anos e sabemos perfeitamente como a sua acção tem sido conduzida. Mas vamos ao documento em questão. O que diz ele, em resumo? Diz isto:

«O 18 de Janeiro caracterizou-se precisamente pela expressão do desejo das massas de seguirem as palavras de ordem do Partido Comunista».

Já é audácia! Como se o referido movimento fosse obra sua! Mais ainda, para que se observe até onde vai o arrojo:

«Na margem Sul do Tejo, em Almada, Cacilhas, Porto Brandão, Alfeite, Cova da Piedade a greve foi geral. No Algarve, houve greves e manifestações de massas, sobretudo em Silves, alguns pontos do Alentejo seguiram, também, as palavras de ordem do nosso Partido».

Querem melhor?

Então, toda a acção desenvolvida pela classe trabalhadora na margem Sul do Tejo não foi orientada pela C.G.T.?

Que influência exerce nesses locais, ou melhor, nas respectivas classes, o partido bolchevista?

A organização de Silves não é retintamente cegêtista?

Para quê tanta mentira?

Vila Boim, Terrugem, Campo Maior e outros pontos do Alentejo não agiram sob a influência da C.G.T.? Que organização tinham lá os bolchevistas?

E Coimbra, não agiu sob a influência da C.G.T.?

Se é assim que procuram arranjar adeptos, contem connosco para esclarecer o proletariado.

Temos então Marinha Grande. Sim senhor agiu bem e toda a sua acção está dentro da Circular Confidencial que a C.G.T. enviou aos vários pontos do país. Absolutamente dentro dessa Circular.

Em Marinha Grande existiam dois órgãos que se entenderam para a eclosão do movimento. Aceitando, honestamente, que a influência bolchevista fosse ali maior do que a cegêtista, pergunta-se: mesmo assim, quem proporcionou à organização da Marinha Grande os elementos materiais para ela poder desenvolver tal raio de acção? E não foram com esses elementos materiais que o proletariado da Marinha Grande pôde tomar conta do posto da guarda, fazer a respectiva apreensão de 12 espingardas, munições e uma metralhadora ligeira, e em seguida ficar de posse da vila durante algumas horas?

Repetimos: quem forneceu esses elementos materiais?

A C.G.T. ou os bolchevistas?

Lérias temos lido muitas; obras é que não as vemos.

Um dia, a história dirá como agiram os «chefes» comunistas para o movimento de 18 de Janeiro. De longe, por causa da cheia…

E também havemos de saber com que elementos materiais contavam; elementos que noutras ocasiões têm sido defendidos por eles com calor.

Teria certa graça até se fossemos descobrir que a maioria desses «chefes» haviam trabalhado no dia do aludido movimento e traído, por consequência, a greve e as palavras de ordem do seu partido…

Infelizmente o movimento não correspondeu ao que se pretendia. Motivos? Vários. Alguns poderão sofrer a necessária rectificação, outros ainda por errada mentalidade dalgumas classes e ainda outras por culpa exclusiva dos «chefes» bolchevistas que têm a mania de anunciar os movimentos com tal antecedência que as autoridades tomam logo posições… Dizem eles: é necessário demonstrar a organização revolucionária da classe trabalhadora; que de qualquer forma sabe agir.

Óptimo. Nós também assim pensamos, mas o que reconhecemos é que em Portugal isso não é possível, por enquanto. E o exemplo não é de hoje. No chamado «29 de Fevereiro» os bolchevistas tiveram um exemplo frisante… Fizeram uma revolução de papéis.

De facto nunca se escreveu tanto.

Chegou o momento próprio e, nada. Precisamente pelas medidas tomadas pelo Governo. Ora, o que nós queríamos que os «chefes» comunistas compreendessem era isso.

Em conjunto, há de facto organizações revolucionárias que o podem fazer. Por exemplo, em Espanha, a C.N.T.. Ali sim é que um governo, informado devidamente de que ia estalar uma revolução e tendo a ousadia de dizer que a sufocaria em «20 minutos», teve de a enfrentar durante duas semanas, sob uma violência desusada e onde os trabalhadores se bateram como leões.

Em Portugal, é possível podermos citar alguns exemplos, isolados, como o da greve de Setembro de 1920 dos ferroviários do Sul e Sueste e alguns dos antigos movimentos da construção civil.

Resta acrescentar que os citados movimentos da organização espanhola são orientados pela corrente «anarco-sindicalista», que não «passou a fazer parte das velharias do século passado» como o referido boletim diz. Bem pelo contrário…

Quem queria levar o proletariado até à «possível transformação social», numa obcecação de pasmar, eram os «chefes» bolchevistas. Esses sim, que são homens que aparecem sempre onde a massa se encontra, à frente das suas brigadas de choque!…

Para se avaliar bem da mentira de tal boletim; para se poder apreciar com serenidade «e bom humor» a sua prosa, basta dizer que Setúbal à data da proclamação da greve geral já não possuía material algum, pois lhe havia sido apreendido dias antes e, por isso, como podia fazer anunciar com 12 horas de antecedência, – com o estampido das bombas – a greve em perspectiva?

Não vêem os «chefes» bolchevistas que assim caiem no ridículo?

Não há o direito de se querer conquistar partidários com essa forma de proceder.

Depois, se foi a C.G.T. a culpada do fracasso do movimento, porque não puseram os «chefes» bolchevistas, em pé de guerra, toda a sua organização? Porque é que nos raros pontos da província onde a sua influência é maior, não se observou a acção grevista? Assim é que era: fazer vincular nitidamente a sua organização revolucionária!

Porque é (que) ainda essa acção se não observou em relação às classes que em Lisboa são por si agitadas?

Que fenómeno especial se teria produzido para não englobar, nas mesmas causas, a falta de acção de várias classes, quer as que se orientam bolchevisticamente?

Bolas para tais processos de propaganda.

Assim não vale snrs. «chefes» bolchevistas. Assim, onde está a lealdade?

Se ela existisse, seria possível afirmarem que Silves, a margem Sul do Tejo e Marinha Grande representam a grande jornada do vosso partido? Seria possível?

A maioria revolucionária, quer de Silves, como da margem Sul do Tejo, como dos pontos do Alentejo que se manifestaram, é cegêtista. E toda a organização operária consciente o sabe.  Só os bolchevistas dizem o contrário.

Consequentemente, pois, ainda foi a C.G.T. que influi no maior número de pontos do país onde a greve se levou a efeito.

Isto é incontestável. E não podia deixar de ser assim, não só porque é a C.G.T. quem mantem o maior raio de acção revolucionária, como foi de facto ela que trabalhou para o referido movimento com uma persistência digna de nota.

Os «chefes» bolchevistas não conseguem destruir esta verdade, por mais que se esforcem por «empalmarem» o movimento operário, com os processos que atrás se citam.

A C.G.T. continuará organizando o proletariado para novas lutas contra a «legislação-fascista». O que se perdeu na luta passada, reorganizar-se-á, e toda a restante organização entrará em acção no momento propício, rectificadas as causas que deram lugar a uma acção de massas menos intensa em 18 de Janeiro.

O resto são cantatas dos «chefes bolchevistas», que não conseguem embalar as massas proletárias.

Em “A Batalha” (clandestina), série III, nº 1, de Abril de 1934. (A grafia do texto foi actualizada).

Aqui: https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2013/01/batalha-abril-de-1934.pdf

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