(memória libertária) LEMBRANÇAS AVULSAS DE GONÇALVES CORREIA (1886–1967) E DO SEU FILHO FERRER


antonio_goncalves_correia06

Gonçalves Correia  com a família mais próxima: em cima, Etelvina (filha), Ana de Jesus (esposa) e Liberdade Celeste (filha); em baixo, Luz Natércia (filha), Gonçalves Correia com o filho Victor Hugo e Emílio (filho).

LUÍS AMARO (*)

[António] Gonçalves Correia… Evoco este homem generoso, sonhador impenitente, romântico, retórico talvez (no melhor dos sentidos), e de apostólicas barbas, verbo fácil — e ressuscito uma fase do tempo que vivi em Beja, para onde sonhos infantis me levaram no fim de Abril de 36, poucos dias antes de completar treze anos…, vai já para incríveis oitenta.

Conheci primeiro o filho, Ferrer Fernandes Correia, de nome nitidamente inspirado no do célebre anarquista espanhol Francisco Ferrer (1859-1904). Poucos anos mais velho do que eu, e ao tempo o estudante liceal que não fui, Ferrer estreara-se nas letras, à volta de 37-38, no Diário do Alentejo bejense, com um artigo condenando o linguajar calão. Por sinal que ao longo da vida decerto me influenciaria tal artigo, tolhendo-me de utilizar, quantas vezes, essa poderosa arma defensiva da humana e camoniana «estranha condição pesada e dura».

Na Biblioteca Municipal, a cargo dum senhor amigo, Carlos Canelas, e a Biblioteca ocupando, nessa época, a par do Museu Regional, uma ala do lendário Convento da Conceição, o Ferrer consultava – e deles seria leitor único… – poeirentos cartapácios franceses de filosofia esotérica, que lá jaziam com outros de carácter religioso provindos de conventuais espólios, quem sabe até se do tempo, alguns, da problemática Freira cuja janela existia perto.

Aí, na Biblioteca Municipal, firmámos boa amizade, eu já com quinze ou dezasseis anos. Cheguei a conhecer a mãe e a irmã do Ferrer, certa vez que ele me levou a sua casa. A mãe compartilhava ideias libertárias, fora professora primária numa aldeia do Baixo Alentejo, e a juvenil irmã viria a morrer tuberculosa, vítima talvez de alimentação precária. Ambos, Ferrer e irmã, eram filhos naturais. O pai morava numa vivenda em zona lateral da cidade, com numerosa prole de que só vislumbrei na rua outro rapaz, irmão de Ferrer.

Creio que foi ele, Ferrer, quem me apresentou a Gonçalves Correia. Figura singular e respeitada, era caixeiro-viajante, ou de consignações vivia, e como tal contactara em Aljustrel meu pai e o meu irmão mais velho, clientes seus em artigos de correaria, dos dignos ofícios em Beja “cursados” por ambos. Numa das nossas conversas na cidade, o senhor Gonçalves Correia chegou a confessar-me – oh, ingénuo ser! – que não se importaria de me dar a mão da filha, que eu aliás só avistara na casa materna.

Ainda na Biblioteca Municipal, que abria ao serão, surgiram, uma noite, o romancista Manuel Ribeiro (1878-1941) e o contista Julião Quintinha (1885-1968), que, tendo vivido outrora em Beja, eram amigos de juventude do militante anarquista. Este, informado do acontecimento, acorreu a saudar, alvoroçado, as estimabilíssimas celebridades locais que eles também eram e cuja presença igualmente empolgou os meus verdes anos. No momento, ouvi a Manuel Ribeiro, baixando mais a já branda voz, um aparte do género «que figura de romance!», ou «que tipo extraordinário!», de iniludível afecto.

Na verdade, essa «figura de romance» suscitara até o interesse de Raul Brandão, num livro que deixou inédito e o ensaísta Túlio Ramires Ferro (1922-2009?) admiravelmente editou em 84: Os Operários (Lisboa, Biblioteca Nacional); e a mesma personagem – Gonçalves Correia – inspiraria, vegetariana e tudo, um romance de Mário Domingues (1890-1977), outro companheiro anarquista no jornal A Batalha dos anos 20. Intitulado Uma Luz na Escuridão (Lisboa, Agência Editorial Brasileira) e datado de 38, cheguei a lê-lo em Beja, mas não tornei a compulsá-lo. Teve crítica de Adolfo Casais Monteiro na revista lisboeta Humanidade (n.º 47, 29-I-38), da qual fui em Beja correspondente (!), e recensão também de João Gaspar Simões no Diário de Lisboa (17-II-38); a de Casais motivou até malferida réplica do criticado.

Tempos volvidos, e de Beja me transferindo a Estremoz – na demanda, sempre, do meu sonho! –, consigo emprego em Lisboa, na Livraria Portugália, graças a Mestre Agostinho da Silva, nos começos de Setembro de 41. E deparo com Ferrer, em pleno Largo a par da estação do Rossio, nas imediações (Praça de D. João da Câmara, 4 – 2.º, E.) da casa de Carlos Queiroz (1907-47), à qual, em 34, Fernando Pessoa subira para, à porta, dar ao amigo a sua Mensagem ainda fresca de impressão[1].

O pobre Ferrer transplantara-se à capital, filosofante escriturário numa Caixa de Previdência. Vivia com a mãe, na Rua do Diário de Notícias, ao Bairro Alto, e, ciente de eu não ter ainda poiso certo, logo se prestou a albergar-me nessa noite. Mas, nessa e em futuras noites de velhas casas lisboetas de camas infestadas, conseguiria o moço descansar?

Um dia, em Lisboa, de mim sabendo, o senhor Gonçalves Correia procurou-me na Livraria, onde também de outra vez me apareceu outro escritor bejense, Pedro Muralha (1878-1946), o do Álbum Alentejano, pai, sidonista, do Sidónio Muralha (1920-82) que, autor dum Beco lírico e neo-realista que encantou gregos e troianos, viria a ser meu amigo, muito dilecto de outro comum, Alexandre Cabral (1917-96). Gonçalves Correia, alma de poeta, valera-se, para custeio do regresso à terra, de quem mal ganhava para as sopas e que numa névoa recorda hoje tê-lo acompanhado à estação do Cais do Sodré.

Quanto ao Ferrer, casara com Irene, filha dum senhor Agatão dono do quiosque então existente no referido Largo da Conceição. Domiciliado eu em Queluz, onde casei por meados de 59, aqui encontro Irene a chefiar o posto do Correio e morando ao lado com o filho, de Ferrer. Constou-me na altura que o marido enlouquecera e sobrevivia em Beja a inomináveis circunstâncias, ferozmente recluso e só entreabrindo a porta de casa para receber alimento.

Um final gritantemente injusto, mais do que cruel, a exceder a ficção, se possível. Para a memória do Ferrer e do pai, nobres idealistas e mártires, a minha compadecida e revoltada saudade.

Massamá, 18-1-2014[2].


[1] – Especialmente aos ilustres e queridos pessoanos José Blanco e Fernando J. B. Martinho, tenho o gosto de revelar (?) as “fontes” de que me sirvo: Carlos Queiroz, «Poesia», crónica, in Acção, A. I, n.º 5, Lisboa, 22-V-41, p. 5; José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras ou O Gosto de Falar de Mim, Lisboa, Portugália Editora, 1965, p. 174; Manuela de Azevedo, Cartas a João de Barros, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. [1971], p. 267; Manuela Parreira da Silva, «Queiroz (Carlos)», in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, (coord. F. Cabral Martins), Lisboa, Ed. Caminho, 2008, p. 701.

[2] AGRADECIMENTO a José Carlos dos Santos pela digitalização do texto.

(*) Sobre Luís Amaro, poeta e homem de letras, natural de Aljustrel

nota: este texto será publicado, em papel,  na próxima edição da Revista “A Ideia”. Um agradecimento especial ao A. Cândido Franco pela sua disponibilização para publicação aqui.

Algumas ruas com o nome de António Gonçalves Correia:

rua_agc praceta rua_gc_albarraque_02

S. Marcos da Atabueira                              Albarraque                                   Castro Verde

Anúncios

2 comments

  1. Ferrer faleceu no final dos anos 80 no hospital Miguel Bombarda. Irene vive actualmente no centro popular espie miranda, em campolide, com os seus bonitos 95 anos. se alguem puder dizer isso ao Luís Amaro, ele de certeza iria gostar de saber

  2. Acompanhei várias vezes a minha mãe a visitar o Ferrer ao hospital Miguel Bombarda onde estava internado. Ferrer era primo da minha mâe, sobrinha de António Gonçalves Correia. Era muito jovem mas lembro-me da ternura das suas palavras e da lucidez do seu discurso, achava estranho que estivesse internado num Hospital onde os restantes utentes comprtavam-se de forma muito diferente. Lembro-me que ele perguntava sempre pela sua esposa e a minha mãe ficava constragida com essa perguntava porque (segundo me parece) a esposa não o visitava. Basicamente é o que me lembro. Conheço o filho do Ferrer e sei que mais tarde, como o Ferrer não era considerado um doente “perigoso” ia passar o fim-de-semana em casa do seu filho Diosnes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s