(A propósito dos últimos acontecimentos na Ucrânia) Recordando Nestor Makhno


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Nos últimos dias os acontecimentos na Ucrânia têm feito com que esta antiga república soviética regresse à ribalta das notícias. Infelizmente, o peso do movimento anarquista na Ucrânia é neste momento muito pequeno para poder ter alguma influência decisiva no conflito que opõe entre si, sobretudo, dois blocos da burguesia ucraniana, dividida entre a União Europeia e os laços com a Rússia. O fascismo e o nacionalismo estão presentes de um e do outro lado da barricada

Mas nem sempre foi assim. Logo a seguir à revolução russa, a Ucrânia foi palco de uma enorme manifestação de criatividade camponesa, com a criação de cooperativas agrícolas e o controlo operário de muitas fábricas e empresas. O anarquista Nestor Makhno, entre outros, foi o rosto visível desta revolução, traída e sabotada pelos bolcheviques que – como se viu também em Kronstdat e depois no conjunto da União Soviética e dos países que tiveram sob a sua tutela – não toleravam a liberdade de expressão e de autoorganização dos trabalhadores, visando apenas o poder totalitário do Estado e do partido sobre o conjunto da sociedade, mantendo no essencial as relações capitalistas, agora com o Estado no papel de patrão todo-poderoso. 

Makhno é hoje considerado um herói na Ucrânia e aproveitado por todos os sectores do nacionalismo. É pena que o seu exemplo de revolucionário, anarquista, não frutifique e abra novas perspectivas a uma Ucrânia que, ao longo da história, tem sido vítima de constantes humilhações e opressões.

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Nestor Makhno e o exército insurreccional da Ucrânia(1)

Pascal Nurnberg (*)

Nestor Makhno

Nascido em 1889, numa familia de camponeses pobres, Nestor Makhno confronta-se rapidamente com a questão da exploração do homem pelo homem. De facto, órfão de pai desde muito novo, foi obrigado a ir trabalhar aos 7 anos para os koulaks (proprietários de terras) ricos para ajudar a família. De seguida trabalhou como fundidor na única oficina da sua vila. A revolução falhada de 1905 (ele tem, então, 16 anos) vai fazer despertar o seu entusiasmo revolucionário e depois de ter tido contacto com várias organizações politicas que não o atraem, entra finalmente no grupo anarquista-comunista de Goulai-Polé, onde desenvolverá grande actividade.

Preso em 1908 pela Okhrana (polícia do czar) é condenado à morte. Mas, devido à sua idade, a pena será reduzida para prisão perpétua. Ele aproveita o tempo da prisão em Moscovo para completar a sua educação, ainda que devido à sua má conduta na cadeia esteja muitas vezes no isolamento. A insurreição de Moscovo, a 1 de Março de 1917 vai-lhe permitir recuperar a liberdade e voltar a Goulai-Polé onde é recebido de forma triunfal.

Ele reencontra o grupo de anarquistas, com os quais vai assumir algumas diferenças. Na verdade, a prisão permitiu-lhe pensar de forma mais profunda e, no seu regresso diz pretender que os camponeses se organizem duma forma bastante mais sólida para expulsarem definitivamente os koulaks. Ainda que hesitantes, os seus camaradas seguem-no e impulsionam uma união profissional dos operários agrícolas, uma comuna livre e um soviete local de camponeses que partilha as terras de maneira igualitária. Um exemplo que será rapidamente seguido nas vilas vizinhas.

É nesta época que acontece a entrada dos exércitos austro-alemães na Ucrânia.

Makhno é, então, encarregue pelo comité revolucionário de formar batalhões de combate contra o ocupante e contra a Rada Central (coligação de partidos nacionalistas e burgueses ucranianos) do hétman (comandante militar) Skoropadsky. Participa em numerosos comícios, apelando à insurreição geral dos trabalhadores. Espontaneamente todos os destacamentos de camponeses juntam-se-lhe e Makhno revela-se um organizador extraordinário, semeando o terror nas fileiras inimigas, à frente da companhia revolucionária de que é responsável. Apoiado pelas massas populares a que os combatentes pertencem, tem uma enorme vantagem e é seguro que face a uma tal força só a ajuda dos exércitos de ocupação pode ajudar o hétman a conservar o seu lugar.

Quanto estes são chamados a voltarem ao seu país, depois da derrota do bloco germânico na frente ocidental, é a debandada dos proprietários que procuram refúgio no estrangeiro.

É nesse momento que se situa verdadeiramente a experiência anarquista na Ucrânia que, com a sua teoria da organização libertária, se encontra em confrontação directa com a teoria da organização marxista e com as realizações bolcheviques na Grande-Rússia.

A experiência anarquista

Até à fuga de Skoropadsky, o movimento tinha sido sobretudo destrutivo. Com a unificação, ele vai encontrar uma estrutura que permite um plano preciso para uma organização livre dos trabalhadores. Este plano vai ser traçado no primeiro Congresso da Confederação de Grupos Anarquistas que assume o nome de Nabat (Rebate)

Os principais pontos são: a rejeição dos grupos privilegiados (não-trabalhadores); a desconfiança face a todos os partidos; a negação de qualquer ditadura (sobretudo a de uma organização sobre o povo); a negação do princípio do Estado; a rejeição de um período “transitório”; o autogoverno dos trabalhadores através dos conselhos (sovietes) livres.

Vê-se já neste plano diferenças fundamentais com as aspirações dos bolcheviques no resto do país. É por isso que, num primeiro momento, o movimento anarquista vai apresentar e explicar as suas ideias sãos trabalhadores, sem tentar, no entanto, impô-las. O exército insurreccional formado anteriormente vai ser apenas um grupo de autodefesa, por que o ideal anarquista de bem estar e de igualdade geral não pode ser conseguido através da acção dum exército, qualquer que ele seja, mesmo se ele for exclusivamente formado por anarquistas.

Por isso pode-se ler na “Via para a Liberdade” (jornal makhnovista): “O exército revolucionário, no melhor dos casos, poderá servir para a destruição do velho regime odioso; para o trabalho construtivo, para a edificação e a construção, qualquer que seja o exército que, logicamente se apoie na força e na orientação do comando, será completamente impotente e mesmo nefasto. Para que a sociedade anarquista se torne possível é necessário que os próprios operários, por si, nas fábricas e empresas, os camponeses, eles próprios, nas suas aldeias,  se dediquem à construção da sociedade anti-autoritária, não esperando nenhuns decretos leis.”

E durante seis meses (de Novembro de 1918 a Junho de 1919) vai assistir-se a uma verdadeira experiência anarquista durante a qual camponeses e operários vão viver sem qualquer poder, criando assim novas formas de relacionamento social. Ao lado, com a gestão directa das fábricas pelos operários sob uma base de igualdade económica, vão-se criar comunas livres.

«A maior parte destas comunas agrárias era composta de camponeses, e algumas eram integradas, ao mesmo tempo, por camponeses e por operários. Elas estavam assentes, antes do mais, na igualdade e na solidariedade entre os seus membros. Todos, homens e mulheres, trabalhavam em conjunto com uma consciência perfeita, quer trabalhassem nos campos ou que fossem empregados para executar tarefas domésticas […]. O programa de trabalho era estabelecido em reuniões onde todos participavam. De seguida, todos sabiam exactamente o que tinham que fazer» (Makhno, a Revolução russa na Ucrânia).

«Um novo estado de espírito nasce logo destas experiências, porque os camponeses começam rapidamente a considerar este regime comunal livre como a forma mais elevada de justiça social. Deste modo, os membros do grupo aderiam à ideia de unidade colectiva na acção e muito particularmente na acção fundamentada e fecunda. Eles habituaram-se naturalmente a terem confiança uns nos outros, a compreenderem-se e a se apreciarem sinceramente nas suas áreas específicas» .(ibidem)

Continuando as suas experiências criadoras, vão-se aperceber que uma sociedade nova não pode manter uma educação esclerosada; é assim que eles se viram decididamente para a pedagogia libertária de Francisco Ferrer (2), que eles decidem aplicar nas escolas. Isso vai colocar, certamente, alguns problemas à partida, uma vez que eles não conhecem esta pedagogia  a não ser muito sucintamente. Por isso vão pedir a algumas pessoas, aptas a explica-la e a pô-la em prática, para saírem das cidades e é assim que Voline (3) chega a Goulai-Pole.

Ao nível das trocas com as cidades, os camponeses vão rejeitar todos os intermediários. Sem passarem pelas estruturas do Estado, vão fornecer aos operários das cidades cereais e alimentos e, em contrapartida, os operários trocarão os seus produtos com base numa estimativa recíproca e na ajuda-mútua definida por Kropotkine.

Qual é o papel de Makhno em tudo isto?

Ele não é senão um animador do movimento, que responde a quem lhe vem pedir conselhos: “Vocês é que têm que saber; procurem as soluções, organizem-se e é a fazer erros que vocês aprendem a evitá-los». Que diferença com Lénine ou Trotsky, ditando as suas ordens pro tudo e nada! Makhno demonstra assim, duma maneira magistral, que a teoria marxista não é válida, uma teoria segundo a qual o povo precisa de guias que pensem por ele, por um partido potente que dita o que é preciso fazer.

Tudo isto, evidentemente, não é visto com bons olhos pelas autoridades bolcheviques e Makhno sabe que um dia haverá um confronto.

Ele diz: «Não está muito longe o dia em que o povo russo será esmagado sob a bota dos partidos. Os partidos já não são para servir o povo, o povo é que os deve servir. Desta maneira, vemos já que todas as decisões que dizem respeito ao povo são tomadas directamente pelos partidos políticos. Assim vão-se tornar mais uma vez justificadas as palavras de Bakunin: onde há poder, há exploração. Ora nós não queremos aceitar nem o poder, nem a exploração».

É um verdadeiro desafio que, contudo, não será recusado. Um acontecimento importante vai adiar o confronto: é a aproximação das tropas monárquicas de Dénikine.  Mas, paralelamente, é também este acontecimento que vai servir de pretexto aos bolcheviques para “normalizarem” a situação na Ucrânia.

O Confronto

Face às tropas brancas que se apressam a invadir o país, os camponeses do sul da Ucrânia estão decididos a defenderem-se eles próprios. Mas Makhno sabe que têm em frente um muito bom exército, composto principalmente por cossacos e oficiais do antigo exército czarista. Por isso é preciso reforçar a makhnovchtchina e são convocados dois congressos regionais (com três semanas de intervalo) para analisar a situação.

O segundo destes Congressos decide uma mobilização voluntária e igualitária; nunca houve alistamento obrigatório na makhnovchtchina, como alguns quiseram fazer crer. Os voluntários são numerosos, mas o grande problema é a falta de armas. Contudo, durante três meses, O Exército revolucionário insurreccional (é o nome adoptados pelos combatentes ucranianos) faz frente aos monárquicos.

Makhno revela, de novo, um estratega extraordinário. Toda a imprensa bolchevique lhe dedica elogios, qualificando-o de “combatente corajoso” e de “grande dirigente revolucionário”!

O Exército vermelho só chega ao fim de três meses. Rapidamente é feito um acordo com Makhno: o Exército revolucionário insurreccional junta-se ao Exército vermelho, mas não depende dele senão do ponto estritamente militar; tem direito ao mesmo aprovisionamento de víveres e de munições; ela mantém o seu nome, as suas bandeiras negras e as suas estruturas (voluntariado, principio eleitoral, autodisciplina). Mais: não aceita nenhum poder político (comissários) na região onde estiver. Os bolcheviques aceitam estas condições, pensando absorver posteriormente a makhnovtchina.

Depressa dão-se conta que não o vão conseguir e decidem deixar de enviar provisões para os combatentes ucranianos. Makhno requisita então os comboios destinados ao Exército vermelho e recusa entregar-lhes hulha e cereais em que a região que ele ocupa é rica.

É uma prova de força que começa com as primeiras prisões de anarquistas, a proibição do seu jornal “Nabat” – de que Voline era, então, redactor – , uma campanha de calúnias na imprensa de Moscovo, com as autoridades cada vez a fazerem mais ameaças.

Face a esta situação é convocado um terceiro congresso regional para analisar as posições civis e militares a adoptar. Este congresso é rapidamente declarado ilegal e contra-revolucionário pelo comandante de divisão Dybenko, decisão à qual o conselho revolucionário de Goulai-Polé vai responder de uma forma veemente: “Podem existir leis feitas por algumas pessoas autointituladas revolucionárias permitindo-lhes porem todo um povo mais revolucionário do que elas fora da lei? […] Que interesses deve defender um revolucionário? Os do partido ou os do povo que, pelo seu sangue, põe em movimento a revolução?» (Archinov, O movimento makhnovista).

Esta resposta vai desencadear imediatamente uma nova campanha de difamação na imprensa comunista. As altas autoridades vão vir, então, à Ucrânia para conhecerem a situação. O enviado de Lenine, Kamenev, tem um encontro cordial com Makhno; ele parte declarando que os bolcheviques saberiam encontrar sempre uma linguagem comum com os makhnovistas e que podiam e deviam trabalhar em conjunto.

Mas mal ele partiu, os camponeses ucranianos começaram a interceptor mensagens dando ordem ao Exército vermelho para invadir Goulai-Polé  e referindo que iria ter lugar um atentado contra Machno. É convocado um quarto congresso de delegados operários, camponeses e combatentes. A ordem de Trotsky não se faz esperar; todas as pessoas que participarem neste congresso devem ser presas.

E declara: « É melhor entregar a Ucrânia inteira a Dénikine do que permitir o crescimento do movimento makhnovista: o movimento de Dénikine como é abertamente contra-revolucionário pode ser facilmente derrotado pela via de classe, enquanto que a Makhnovstchina desenvolve-se no fundo das massas e subleva-ascontra nós.» ?» (Archinov, O movimento makhnovista).

E põe as suas palavras em prática retirando as suas tropas para permitir ao Exército branco invadir a região. E diz, por outro lado, que Makhno é o responsável pela derrota e é dada ordem para prender e fuzilar os insurrectos durante a sua retirada.  Preso entre dois fogos, Makhno usa da astúcia para sair da ratoeira: demite.se do seu posto de comandante do Exército revolucionário insurreccional e desaparece com os seus companheiros.

É uma catástrofe para Trotsky que é vencido em toda a linha por Dénikine e que é obrigado a retirar as suas tropas da Ucrânia. É neste momento que Makhno decide regressar à superfície. Ele reforma o seu exército e em três meses vence as tropas monárquicas, salvando assim a revolução.

Tornando-se muito poderosa e muito popular, a makhnovstchina não vai usar a força mas estender o seu poder. Vai, pelo contrário, voltar-se de novo para a auto-organização do país. Ela vai também aplicar integralmente estes princípios tão caros aos anarquistas ao destruir as prisões e postos de polícia e permitindo total liberdade de expressão, de consciência, de associação e de imprensa.

Mas Makhno comete um erro. Seguro de si e do apoio das massas populares, ele não acha necessário prevenir-se contra uma nova traição dos bolcheviques. E quando metade das suas tropas foi dizimada por uma epidemia de tifo, Trotsky retoma a perseguição, havendo uma nova trégua em Outubro de 1920, com a aproximação do exército branco de Wrangel.

A machnovchtchina aceita mais uma vez ajudar o Exército vermelho. Quando os monárquicos são definitivamente eliminados vai-se assistir à última traição dos comunistas. Makhno intercepta três mensagens de Lenine a Rakovsky, presidente do Conselho dos comissários do povo da Ucrânia; as ordens: prender todos os militantes anarquistas e julga-los como criminosos de direito comum.

Em Agosto de 1923, Makhno, esgotado, será vencido e foge para a Roménia, depois para a Polónia e, por fim, para Paris, onde terminará a sua vida na miséria e no abandono.

O comunismo estatista instala-se na Ucrânia.

A difamação contra os anarquistas durará ainda muito tempo. Passarão mesmo um filme por toda a Rússia apresentando Makhno como um chefe de bandidos sanguinários e aliado do Exército branco. Depois, o silêncio, mas, no entanto, em 1953, na morte de Stalin e quando a Ucrânia conheceu um vasto levantamento nos campos de concentração, os presos, ao tomarem o campo de Norilsk, içaram a bandeira do movimento makhnovista no alto de um mastro.

A mentira e a calúnia darão, um dia, talvez lugar à verdade.

Soará, então, o dia da revolução social pela qual tanto lutaram os anarquistas ucranianos.

 (*) artigo publicado no “Le Monde Libertaire” – Tradução: Portal Anarquista

Aqui: http://www.monde-libertaire.fr/portraits/14063-nestor-makhno-et-larmee-insurrectionelle-dukraine

1. Makhnovtchina é o nome dado ao Exército insurreccional ucraniano dirigido por Makhno. (Ndlr.)

2. Ver o artigo de Guillaume Goutte, « Francisco Ferrer i Guardia, le pédagogue anarchiste », Le Monde libertaire, n° 1607, de 7 a 13 ocutubro de 2010. (Ndlr.)

3. Vsevolod Mikhaïlovitch Eichenbaum, dito Voline (1882-1945), é um anarquista russo . Durante a makhnovtchina foi encarregue da secção de «cultura e educação » do Exército insurreccional.Preso pelo Exercito vermelho em 1919,  foi preso e  depois libertado em 1920. Em Dezembro do mesmo ano, é de novo preso pelos bolcheviques quando se preparava para organizar o congresso anarquista de Khrakov. Beneficiando dum movimento de solidariedade europeu, é libertado. Nos anos trinta, está em França onde, a pedido da CNT espanhola, se envolve activamente na redacção da “Espanha Antifascista”. Morre em 1945 em Paris, de tuberculose. (Ndlr.)

Panfleto de 1920 a explicar o que é a Makhnovtchina (português)

As tropas de Makhno (filmagem da época)

Documentário sobre Makhno e a Makhnovtchina (em castelhano)

Canção “Anarquia”, da autoria de Makhno

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