(Fev./Março de 1921) A revolta dos marinheiros de Kronstadt contra o terror bolchevique


Cronstadt1917

Kronstadt é uma fortaleza naval situada numa ilha que serve tradicionalmente de base à frota naval da Rússia para proteger a cidade de São Petersburgo (que será baptizada Petrogrado durante a primeira guerra mundial, depois Leninegrado, depois de novo São Petersburgo) e que fica a 35 milhas da cidade

mapa1

“Todo o poder aos sovietes e não aos partidos”

A revolta de Kronstadt começa nos primeiros dias de Março de 1921.

Os marinheiros de Kronstadt foram a vanguarda das acções revolucionárias de 1905 e de 1917. Em 1917 Trotsky designava-os como “o valor e a glória da Rússia revolucionária”. Os habitantes de Kronstadt foram, desde muito cedo, apoiantes e executantes do “todo o poder aos sovietes”, formando uma comuna livre em 1917, relativamente independente das autoridades. Praticando a democracia directa a partir de assembleia ou comités de base. No centro da fortaleza, um espaço público enorme servia de fórum popular podendo acolher mais de 30 000 pessoas. Os habitantes de Kronstadt estavam habituados a organizarem-se eles próprios.

A guerra civil russa acabou em Novembro de 1920, no este da Rússia, com a derrota do general Wrangel na Crimeia. Através de toda a Rússia  explodiam protestos populares no campo e nas cidades. Os levantamentos rurais tinham como alvo a policia do partido comunista que requisitava cereais. Nos sectores urbanos, surgiu também uma vaga de greves e em Fevereiro explode uma greve geral em Petrogado.

A 26 de Fevereiro, em resposta a estes acontecimentos em Petrogrado, a tripulação dos navios “Petropavlovsk” e “Sevastopol” têm uma reunião de urgência e põem-se de acordo para enviarem uma delegação á cidade para se informarem e fazerem um relatório sobre o movimento grevista. No regresso, dois dias depois (a 28 de Fevereiro), informam os seus camaradas marinheiros das greves (com as quais têm total simpatia) e a repressão que o governo dirige contra elas. Os participantes nesta reunião realizada no navio “Petropavlovsk”  aprovam então uma resolução com 15 reivindicações que incluem eleições livres para os Sovietes, liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de organização para os operários, os camponeses, os anarquistas e os socialistas de esquerda.

“Considerando que os sovietes actuais não exprimem a vontade dos operários e camponeses,

1º) proceder imediatamente à reeleição dos sovietes pelo voto secreto. A campanha eleitoral entre operários e camponeses deverá desenrolar-se com plena liberdade de expressão e acção;

2º) Estabelecer a liberdade de expressão e de imprensa para todos os operários e camponeses, para anarquistas e socialistas de esquerda (1);

3º) Dar liberdade de reunião aos sindicatos e às organizações camponesas;

4º) Convocar à margem dos partidos políticos uma Conferência dos operários, soldados vermelhos e marinheiros de Petrogrado, de Kronstadt e da província de Petrogrado para 10 de Março de 1921, o mais tardar;

5º) Libertar todos os prisioneiros políticos socialistas e também todos os operários, camponeses, soldados vermelhos e marinheiros presos em consequência dos movimentos operários e camponeses;

6º) Eleger uma comissão com o fim de examinar o caso daqueles que se encontram nas prisões e campos de concentração;

7º) Abolir os “comissários políticos” (2), pois nenhum partido político deve ter privilégios para a propaganda das suas ideias, nem receber do Estado meios financeiros para esse fim. No seu lugar devem-se instituir lugar comissões de educação e cultura, eleitas em cada localidade e financiadas pelo governo;

8º) Abolir imediatamente todos os postos de controlo («zagraditelnyé otriady») (3)

9º) Uniformizar as rações para todos os trabalhadores, excepto para aqueles que exercem profissões perigosas para a saúde;

10º) Abolir os destacamentos comunistas de choque em todas as unidades do exército, assim como a guarda comunista nas fábricas e oficinas. Em caso de necessidade, esses corpos de guarda podem ser designados pelo exército para as companhias e nas oficinas e fábricas pelos próprios operários;

11º) Dar aos camponeses o direito de trabalharem as suas terras da maneira que desejarem, bem como o direito de possuírem gado, na condição de que eles mesmos executem as suas tarefas, isto é, sem recorrerem ao trabalho assalariado;

12º) Designar uma comissão móvel de controlo;

13º) Autorizar o livre exercício do artesanato, sem emprego de trabalho assalariado;

14º) Pedimos a todas as unidades do exército e também aos camaradas kursanty (4) que se juntem à nossa resolução;

15º) Exigimos que todas as nossas resoluções sejam largamente publicitadas pela imprensa.

*

Petrichenko

Fotografía de Stepan M. Petrichenko alguns meses depois da sua participação na revolta de Kronstadt. Presidente do Comité Revolucionário Provisório, membro da tripulação do Petropavlovsk e um dos líderes da insurreição de Kronstadt. Morreu na prisão, na União Soviética, em 1947.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Stepan_Petrichenko

Entre as 15 reivindicações apenas duas poderiam ser associadas àquilo que os marxistas gostam de classificar como “pequena burguesia” (camponeses e artesãos) ao exigirem “plena liberdade de acção” para todos os camponeses e artesãos que não utilizem trabalho assalariado. Como os operários de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a igualdade de salários e o fim dos postos de controlo que limitavam a liberdade de circular e a capacidade dos operários trazerem alimentos para as cidades.

Teve lugar uma reunião com quinze ou dezasseis mil pessoas na praça principal a 1 de Março e ficou claro o apoio à resolução do Petropavlovsk, aprovada depois da delegação de “procura de informações” ter redigido o seu relatório. Só dois funcionários bolcheviques votaram contra a resolução. Nesta reunião ficou decidido enviar uma nova delegação a Petrogrado para explicar aos postos de controlo e à guarnição da cidade as reivindicações de Kronstadt e para exigir que delegados independentes fossem enviados pelos operários de Petrogrado a Kronstadt para se informarem directamente do que ali estava a acontecer. Esta delegação de trinta membros foi travada pelo governo bolchevique.

No momento em que a reunião do Soviete de Kronstadt estava a terminar, foi também decidido apelar a uma “conferência de delegados” para o dia 2 de Março. Devia-se aí discutir a forma como se realizariam novas eleições para os sovietes.

A conferência será composta por dois delegados das tripulações de cada navio, das unidades do exército, dos trabalhadores do porto, das oficinas, dos sindicatos e dos estabelecimentos do Soviete (Conselho). Esta reunião de 303 delegados aprova a resolução de Petropavlovsk e elege “um Comité Revolucionário Temporário” de cinco pessoas (este será alargado para 15 membros dois dias mais tarde aquando de uma outra conferência de delegados).

Este comité será encarregue de organizar a defesa de Kronstadt, um movimento decidido em parte pelas ameaças dos funcionários bolcheviques (e das práticas conhecidas dos bolcheviques) e do rumor, que se revelará sem fundamento, de que os bolcheviques teriam enviado forças para atacar a região. Kronstadt, a vermelha, levanta-se contra o governo comunista/marxista e lança o slogan da revolução de 1919 “todo o poder aos Sovietes (Conselhos)”, ao qual foi acrescentado, dada a evolução das condições políticas, a frase “e não aos partidos”. Eles chamarão a esta revolta “a terceira revolução” e concluirão os programas das duas primeiras revoluções russas instituindo uma verdadeira república de trabalhadores baseada em eleições livres, uma exigência imperativa, para os Sovietes/conselhos.

O governo comunista responderá com um ultimato para o 2 de Março. Eles afirmarão que a revolta “tinha sido seguramente preparada pela contra-espionagem francesa”  e que a resolução de Petropavlovsk é uma resolução dos Socialistas-Revolucionários de direita, bem como de reaccionários. Dirão também que a revolta é organizada pelos oficiais ex-czaristas dirigidos pelo ex-general Kozlovsky (que, ironicamente, tinha sido colocado na fortaleza, enquanto especialista militar, por Trostky). Foi esta oficialmente a resposta do partido bolchevique a toda esta revolta e a estas reivindicações.

Durante a revolta, Kronstadt começa a se reorganizar de baixo para cima. Os comités sindicais foram reeleitos e foi formado um Conselho dos Sindicatos. A conferência dos delegados reúne-se regularmente (especificamente a 2, 4 e 11 de Março) para discutir as alternativas que tinham a ver com os interesses de Kronstadt e a luta contra o governo bolchevique. As bases comunistas existentes em Kornstadt abandonarm o partido, expressando assim o seu apoio à revolta e ao seu objectivo de “todo o poder aos sovietes e não aos partidos” Cerca de 300 comunistas foram presos e tratados de forma humanitária na prisão (em comparação, pelo menos 780 comunistas deixaram o partido em protesto contra as medidas tomadas contra Kronstadt e o seu papel na revolução). De maneira significativa, um terço dos delegados eleitos pela conferência rebelde de Kronstadt, a 2 de Março, eram comunistas.

A revolta de Kronstadt era não-violenta, mas desde o princípio a atitude das autoridades terá como ponto de partida o ultimato e não a negociação séria. Com efeito, os bolcheviques publicitaram a ameaça que eles disparariam sobre os rebeldes “como sobre perdizes” (Trotsky) e tomaram como reféns as famílias dos marinheiros em Petrogrado. Já no fim da revolta, Trotsky recusa a utilização de armas químicas contra os rebeldes, mas se eles não tivessem sido esmagados, o ataque de gás teria tido lugar. Não foi feita nenhuma tentativa real para responder à revolta duma forma pacífica. Ainda que antes do gelo poder ser quebrado tivessem que passar pelo menos três ou quatro semanas depois da reunião de delegados de 2 de Março, quando se realiza a “conferência” que vai marcar verdadeiramente o princípio da revolta, os bolcheviques começaram as operações militares às 6.45 pm do dia 7 de Março.

E havia meios que possibilitavam uma resolução pacífica do conflito. A 5 de Março, dois dias antes do começo do bombardeamento de Kronstadt, os anarquistas com Emma Goldman e Alexandre Berkman à frente, ofereceram-se como intermediários para facilitar as negociações entre os rebeldes e o governo bolchevique (a influência anarquista tinha sido forte em Kronstadt em 1917). Mas isso foi ignorado pelos bolcheviques. Anos depois o bolchevique Victor Serge (que foi testemunha ocular dos acontecimentos) reconhecia que “mesmo quando o combate já tinha começado, teria sido fácil evitar o pior: tinha sido suficiente aceitar a mediação oferecida pelos anarquistas (Emma Goldman e Alexandre Berkman) que tinham contactos com os insurrectos. Por razões de prestígio e um excesso de autoritarismo, o Comité Central recusa esta oportunidade”.

Uma outra solução possível, a sugestão do soviete de Petrogrado de 6 de Março de que uma delegação de membros do partido e de membros sem partido, mas membros do soviete, visitem Kronstadt, não foi seguida pelo governo. Os rebeldes, sem surpresa, tiveram reservas quanto ao verdadeiro estatuto dos delegados sem partido (mas do conselho, isso por desconfiarem de manipulação sobre os membros eleitos democraticamente, já uma prática comum na época) e exigido que tivessem lugar eleições para delegados nas fábricas, com a presença de delegados de Kronstadt (em si mesma uma exigência muito razoável). Nada veio daí (sem surpresa, pelo facto de que uma tal delegação teria relatado a verdade de que a revolta de Kronstadt era uma revolta popular de gente trabalhadora, ao mesmo tempo que ficariam visíveis as mentiras bolcheviques e o ataque armado que estava previsto seria mais difícil). Uma delegação “enviada por Kronstadt para explicar a situação ao Soviete de Petrogrado, cairá nas prisões da Tcheka” (Victor Serge – Memórias dum revolucionário – pag. 127). A recusa em seguirem estes caminhos possíveis para uma resolução pacífica da crise explica-se pelo facto de que a decisão para atacar Kronstadt já estava tomada. Com base em documentos dos arquivos soviéticos, o historiador Israel Getzler declara que “a 5 de Março, senão mais cedo, os chefes soviéticos já tinham decidido esmagar Kronstadt. Deste modo, num telegrama s [un] membro do Conselho do trabalho e da defesa, nesse dia, Trostky insistiu no facto de que ‘somente a tomada de Kronstadt porá um termo à crise política em Petrogrado’. No mesmo dia, agindo enquanto presidente da RVSR [o Conselho Militar Revolucionário do exército e da marinha da República], mandou reforçar e mobilizar o sétimo exército ‘para suprimir o levantamento de Kronstadt’ no menor tempo possível.” (O papel dos Chefes comunistas na tragédia de Kronstadt de 1921 à luz dos documentos de arquivo recentemente editados”, la Russie révolutionnaire, pp 24-44, vol. 15, numero 1, junho 2002, P. 32]

Como assinala Alexandre Berkman, o governo comunista “não fará nenhuma concessão ao proletariado, ao mesmo tempo que se dispunham a comprometer com os capitalistas da Europa e da América” [Berkman, La tragédie russe, p. 62]. Ao mesmo tempo que se satisfaziam em serem dialogantes e comprometidos com os governos estrangeiros, trataram os operários e os camponeses de Kronstadt (aliás, como os do resto da Rússia) enquanto inimigos de classe (com efeito, desde logo, Lenin interrogava-se publicamente sobre se a revolta não seria uma espécie de pano de fundo para a existência de negociações!)

A revolta foi isolada e não recebeu nenhum apoio externo. Os operários de Petrogrado, em virtude da lei marcial, estavam bloqueados, pouco podiam fazer e nenhuma acção foi possível fazer para apoiar Kronstadt. O governo comunista começará a atacar Kronstadt a 7 de Março. O primeiro assalto foi uma derrota. “Depois do golfo começar a ter as suas primeiras vítimas”, Paul Avrich nota o facto de “alguns soldados vermelhos, incluindo um corpo de Cadetes de Peterhof (Peterhof Kursanty) passaram para os insurrectos. Outros recusaram avançar, apesar das ameaças da canhoneiras na retaguarda que tinham ordem de atirar sobre os hesitantes. O comissário do grupo norte assinala que as suas tropas quiseram enviar uma delegação a Kronstadt para saber quasi as exigências dos insurrectos” [ Avrich, pp 153-4 ]. Depois de 10 dias de ataque constante a revolta de Kronstadt foi esmagada pelo exército vermelho.

A 17 de Março seguiu-se o assalto final. E ainda nessa altura os bolcheviques tiveram que forçar as suas tropas a combaterem. Quando, por fim, entraram na cidade de Kronstadt “as tropas atacantes vingaram-se com uma orgia de sangue pelos seus camaradas caídos”. [ Avrich, p. 211 ]. No dia seguinte, numa ironia da história, os bolcheviques celebram o 50º aniversário da Comuna de Paris.

As forças soviéticas tiveram mais de 10 000 mortos em Kronstadt. Não há nenhum número fiável quanto ao número de rebeldes mortos ou quantos foram executados pela Cheka mais tarde ou enviados para os campos de prisioneiros. Os números que existem são fragmentários. Logo a seguir ao esmagamento da revolta, 4836 marinheiros de Kronstadt foram presos e enviados para a Crimeia ou para o Cáucaso. Quando Lenin é informado deste facto a 19 de Abril expressa grandes receios e eles serão, por fim, enviados para campos de trabalho obrigatório nas regiões de Archangelsk, de Vologda e de Mourmansk. Oito mil marinheiros, soldados e civis conseguem escapar através do gelo para a Finlândia. As tripulações do Petropavlovsk e do Sébastopol combaterão até ao fim, bem como os cadetes da escola de mecânica, do destacamento de torpedos e da unidade de comunicações. Um comunicado estatístico publicado a 1 de Maio refere que 6528 rebeldes foram presos, 2168 foram executados (33%), 1955 foram condenados a trabalho obrigatório (dos quais 1486 por apenas cinco anos) e 1272 serão libertados. Uma análise estatística da revolta, feita em 1935/36 situou o número de presos na ordem dos 10026 e refere que “não foi possível estabelecer com exactidão o número de punidos”. As famílias dos rebeldes foram expulsas para a Sibéria, considerada “seguramente a única região apropriada” para eles.

Depois da revolta ter sido sufocada, o governo bolchevique reorganizou a fortaleza. Ainda que ele tenha atacado a revolta em nome do “poder aos sovietes”, o novo comando militar designado para Kronstadt “abolirá totalmente o Soviete de Kronstadt” e reorganiza a fortaleza “com a ajuda duma troika revolucionária” (quer dizer, um comité de três homens designados). [ Getzler, p. 244 ]. O jornal de Kronstadt ser renomeado “Krasnyi Kronshtadt” (d’Izvestiia) e anunciará, em editorial, que “os dispositivos fundamentais” da “ditadura do proletariado” foram reconstruídos em Kronstadt, sendo “as suas fases iniciais” simplesmente “restrições da liberdade politica, o terror, o centralismo e a disciplina militar e o encaminhamento de todos os meios e recursos para a criação dum aparelho ofensivo e defensivo do Estado. .” [ citado por Getzler, p. 245 ]. Os vencedores começaram rapidamente a eliminar todos os traços da revolta. A praça central tornou-se “praça revolucionária” e os couraçados rebeldes Petropavlovsk e Sébastopol foram rebaptizados Marat e Comuna de Paris, respectivamente.

Notas:(1):Socialistas revolucionários de esquerda
(2):Secções políticas do partido comunista que existiam na maior parte das instituições do Estado.
(3):Destacamentos policiais criados oficialmente para lutar contra a agiotagem, mas que no fim de contas confiscavam tudo o que a população esfomeada, incluindo os operários, traziam dos campos para consumo pessoal.
(4):Cadetes

Traduzido e adaptado daqui: http://fra.anarchopedia.org/Cronstadt

Ver: Diário de Alexander Berkman

Bibliografia (em francês)

  • Voline, La Révolution Inconnue, Livre premier : Naissance, croissance et triomphe de la Révolution russe (1825-1917), Editions Entremonde, Lausanne2009. (ISBN 978-2-940426-02-7)

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