Day: Março 10, 2014

Conceição Jorge (1953-2001): uma libertária eborense


foto2Conceição Jorge com o anarquista lisboeta José de Brito

José Maria Carvalho Ferreira (*)

Maria da Conceição Tavares Magos Jorge, mais conhecida nos meios libertários e entre amigos, como Conceição Jorge nasceu no dia 16 de Julho de 1953, na cidade de Évora. Era filha de Manuel João Rodrigues Magos Jorge e Mariana Arcanjo Tavares Magos Jorge. Antes de ter nascido teve dois irmãos: António Paulo Tavares Magos Jorge e João Miguel Tavares Magos Jorge.

Nessa altura da hegemonia do salazarismo no território português, como se depreende, não era fácil dar sustentabilidade económica às necessidades das famílias portuguesas. No caso específico dos pais da Conceição Jorge, a vida profissional de seu pai no setor livreiro não era propício a uma vida familiar desafogada. Esse fato, no entanto, não obstou que Conceição Jorge e seus irmãos tenham frequentado a escola secundária. Não tendo concluído o ensino secundário, mesmo assim frequentou o 1º ano do curso de Psicologia da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

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(40 anos do 25 de Abril) O Portugal de sucesso que a classe política soube construir


Lisboa 2014 !!!!! 

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Porto, finais de 2013 !!!

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Numa rua ao pé de si

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Não, estas imagens não são na Síria, não são na Grécia e muito menos África, são mesmo em Portugal.
Eis o Portugal de sucesso 40 anos depois do 25 de Abril. A classe política que tem gerido o país e as autarquias, ficando para si e para os seus apaniguados com a quase totalidade da riqueza gerada, não sentirá um “aperto de peito” ao ver imagens destas?

Correspondência/debate: Sobre o individualismo e a proposta anarquista


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O email:

Para começar, gostaria de me apresentar: o meu nome é R.L. e moro na margem Sul (por, enquanto, desejo não dar mais informações por agora). Primeiro, gostaria de elogiar o Portal Anarquista pelo seu excelente trabalho em querer manter a memória do anarquismo em Portugal (e não só) com os seus artigos do blog, boletins, os pdf´s que tem disponível, os arquivo de imprensa, etc.); visto o estado fraquíssimo em que se encontra o anarquismo em Portugal (após uma grande História de repressão durante todo o século XX, tanto física como ideológica) nos dias de hoje, o que o ex-Colectivo Libertário de Évora fez é uma pequena gota de esperança para um futuro melhor e que me faz extremamente contente. Isso não posso claramente questionar.

Mas há algo que me faz sentir mal por dentro em relação ao vosso blog. Claramente o blog demonstra a sua tendência anarco-sindicalista, e não há dúvidas sobre isso. No entanto, o anarquismo não é só anarco-sindicalismo, e este facto relaciona-se com a minha pessoa. Ideologicamente, tive um evolução muito conturbada e diversificada ao longo da minha ainda pequena vida de jovem e de jovem-adulto. Durante certo tempo, fui um liberal clássico, influênciado pela ideologia dos libertarians norte-americanos, advogando uma tendência minarquista, e tinha Ron Paul como um grande ídolo. Mas cedo abandonei esta tendência, e vi no chamado “anarco-capitalismo” de Murray Rothbard um pensamento ideológico interessante que rapidamente me seduziu. A partir daí, começei a ter melhor interesse pela tradição anarquista. Chateava-me a problemática de conflicto entre o chamado “anarco-capitalismo” e o anarquismo comunista e sindicalista, onde os últimos acusavam os primeiros de não serem verdadeiros anarquistas (e às vezes os primeiros faziam o mesmo em relação aos últimos).

Mas entretanto, ao ler as obras de Rothbard, a sua própria vida e as origens do chamado libertarianism norte-americano, vi que o pensamento dos “libertários norte-americanos” tinha origens numa tradição anarquista (que se costuma chamar de anarco-individualista, mutualista ou anarquismo de mercado), que tinha como origens vários pensadores do anarquismo: o próprio Proudhon (numa certa fase da sua vida), Max Stirner, o economista Thomas Hodgskin, e os não tão conhecidos ou ignorados pensadores norte-americanos, Josiah Warren, Lysander Spooner, Benjamin Tucker, Voltairine de Cleyre, (entre outros). Origens estas que foram esquecidas e pervertidas com o tempo (à qual o próprio Rothbard teve a sua responsabilidade). Além disso, após ler os actuais pensadores do anarquismo individualista/anarquismo de mercado (mais ligados à tradição anarquista do que o próprio Rothbard) como Kevin Carson, Brad Spangler, Roderick T. Long, Garry Chartier, etc., virei-me mais para a tradição perdida do anarquismo-individualista (que nunca teve sucesso na Europa, sendo ultrapassado pelo comunismo de Bakunin e Kropotkin, e que se perdeu na América, até ter sido recuperada pelo próprio Murray Rothbard a partir dos anos 50 e 60, que infelizmente cometeu o gigantesco erro crasso de apelidar o seu anarquismo individualista – agora refundando ao abandonar a teoria do valor do trabalho e adoptar as teorias da Escola Económica Austríaca – de “anarco-capitalismo”). Isto acontece devido a uma problemática de terminologia (e não só) que não quero falar agora aqui, pois é algo que requer um extensa leitura de vários artigos escritos (e uma breve leitura de alguns livros) de autores que mencionei anteriormente (e tenho todo o prazer de enviar esses artigos e livros em formato pdf, se o responsável pelo gmail do Portal Anarquista os querer receber).

A grande questão que quero pôr aos responsáveis pelo Portal é a seguinte: consideram o anarquismo individualista uma verdadeira vertente do anarquismo? Ou adoptam uma visão ao estilo de Lucien Var de Walt (no seu livro, Black Flame), que tenta retirar Godwin, Proudhon, Benjamin Tucker (e outros pensadores da vertente anarquista individualista) da tradição anarquista acusando-os de não serem verdadeiros anarquistas? Ou conhecem esta vertente, mas simplesmente a ignoram, devido à predominância do anarco-sindicalismo como a ideologia dos responsáveis deste mesmo site? Ou simplesmente nunca a conheciam anteriormente? Porque, segundo a minha experiência, tanto no internet como fora dela, a grande maioria de anarquistas da tradição comunista ou sindicalista que conheci parecem ser extremamente ignorantes desta vertente: e daqueles que a conhecem, chegam ao ponto de adoptarem a mesma visão de Lucien Var der Walt, excluíndo Proudhon, Josiah Warren, Benjamin Tucker, etc., da tradição anarquista devido à defesa que estes tinham da propriedade individual e de uma economia de mercado livre, ao defenderem que estas posições são inconsistentes com o “anarquismo verdadeiro”.

Penso que não tenho mais nada a dizer por enquanto. Se consideram que existem erros em alguma coisa que eu escrevi, apontem por favor. Ficarei muito feliz se adquirir uma resposta da vossa parte.

Saudações Libertárias!

R. L (via mail) 

*

A Resposta

Caro R. L.

No espaço do anarquismo, o pensamento individualista sempre seguiu a par e passo com a corrente mais colectivista. Uma e outra influenciaram-se e, como canais comunicantes, moldaram aquilo que é o pensamento anarquista mais comum hoje em dia: defendendo o indíviduo e a sua matriz única, sem o opôr, no entanto, ao colectivo. O colectivo deve alargar a liberdade individual e não esmagar aquilo que é único e específico de cada um. Em Portugal essa matriz individualista tem ido beber muito mais aos autores da escola franco-alemã – Stirner, Libertad, Coeurderoy, etc. – do que aos da escola norte-americana.

A grande questão que se coloca prende-se com os limites e o equilibrio entre o individualismo e o colectivismo, o indíviduo e a colectividade. Defender o capitalismo e a propriedade privada, em geral, é defender a apropriação particular de um produto ou um bem que foi gerado colectivamente, o que do ponto de vista do anarquismo é inconcebível. Se uma fábrica produz sapatos e se essa fábrica tem cem trabalhadores a produção é conjunta e a criação de riqueza também , pelo que deve ser distribuida igualitariamente entre todos os que estiveram envolvidos na produção. No entanto, os anarquistas sempre foram contra a estatização da propriedade (passando-a da mão dos particulares para as mãos do Estado) e sim pela sua socialização e entrega às colectividades de produtores organizados (daí a sempre presente questão da autogestão). Mais: para os anarquistas é perfeitamente legítimo que alguém possua e chame seus aos meios de produção próprios – seja terra, animais, um atelier ou uma oficina – desde que não seja utilizada mão de obra assalariada. Ou seja: desde que sejam produtores individuais, exercendo a sua actividade, sem exploração de trabalho assalariado. O próprio Proudhon, separando a “propriedade” da sua “posse”, refere com grande justeza que a propriedade “é um roubo”.

Voltando às referências hitóricas, mesmo os chamados teóricos do anarquismo mais combativo e de classe, como Bakunin, dão grande importância aos valores da individualidade, seja face ao grupo seja, por exemplo, face à religião. A grande crítica de Bakunin à existência de deus é que se houvesse deus não seria deixada ao homem qualquer liberdade de escolha e de traçar o seu destino…

Por outro lado, a quase generalidade – mesmo os mais individualistas – dos anarquistas consideram que vivemos numa sociedade de classes e, mesmo que a luta de classes não seja o motor da história definido pelos marxistas, é uma alavanca importante na luta pela transformação do mundo num sentido mais igualitário, uma vez que são os mais pobres, os despossuídos da sociedade e aqueles que exercem a sua actividade produtiva que mais interesse têm e mais capacidades possuem para a sua transformação.

É nesta tradição que o Portal Anarquista se integra, recusando pelos motivos expostos não o individualismo enquanto espaço de construção de um colectivo respeitador das minorias, mas sim o individualismo capitalista de que resulta quase sempre a exploração do homem pelo homem e o “salve-se quem puder”, em que se inclui o chamado “anarco-capitalismo”, que não é mais do que uma falácia histórica – uma vez que a defesa do capitalismo e do trabalho assalariado (não autogestionário) são incompatíveis com a igualdade que está subjacente ao projecto anarquista – seja qual for a sua vertente.

Sabemos que há muitas correntes e olhares sobre a sociedade a partir do anarquismo. Não temos uma verdade, apenas a construção de um caminho, assente na pluralidade de expressões e de contributos, desde que estejam expressos alguns princípios básicos: a recusa do trabalho assalariado, a autogestão dos meios de produção e dos espaços sociais, a decisão colectiva e assembleária (protegendo os direitos das minorias) sempre que necessário, a organização social a partir de baixo e das pequenas comunidades, a recusa do parlamentarismo e da representação política, etc., etc..

A sociedade do futuro será uma sociedade em rede, com expressões diversas, mas assente no desenvolvimento individual e na construção colectiva. É isso que nos anima porque, como Bakunin, sabemos que “Socialismo sem liberdade é tirania e opressão; liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça”. Daí que o chamado “anarco-capitalismo” e outras vertentes ditas “libertárias” ou “libertarianas” (no cenário político norte e sul americano), que excluem este património rico – que concilia o que é individual com o que é colectivo e que recusa uma sociedade dividida em classes -, não possam fazer parte do conjunto de ideias que consideramos como anarquistas.

J.C. (Portal Anarquista)

relacionado: http://ita.anarchopedia.org/anarco-capitalismo