Conceição Jorge (1953-2001): uma libertária eborense


foto2Conceição Jorge com o anarquista lisboeta José de Brito

José Maria Carvalho Ferreira (*)

Maria da Conceição Tavares Magos Jorge, mais conhecida nos meios libertários e entre amigos, como Conceição Jorge nasceu no dia 16 de Julho de 1953, na cidade de Évora. Era filha de Manuel João Rodrigues Magos Jorge e Mariana Arcanjo Tavares Magos Jorge. Antes de ter nascido teve dois irmãos: António Paulo Tavares Magos Jorge e João Miguel Tavares Magos Jorge.

Nessa altura da hegemonia do salazarismo no território português, como se depreende, não era fácil dar sustentabilidade económica às necessidades das famílias portuguesas. No caso específico dos pais da Conceição Jorge, a vida profissional de seu pai no setor livreiro não era propício a uma vida familiar desafogada. Esse fato, no entanto, não obstou que Conceição Jorge e seus irmãos tenham frequentado a escola secundária. Não tendo concluído o ensino secundário, mesmo assim frequentou o 1º ano do curso de Psicologia da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

Com dezoito anos frequenta o curso de formação profissional na Escola Superior de Enfermagem de Artur Ravara. Com a mesma idade inicia a sua carreira profissional de funcionária administrativa no posto médico da empresa Lisnave, em Almada. Posteriormente, ao perfazer vinte e cinco anos,  transfere-se para a função pública, tendo para o efeito iniciado as funções na carreira administrativa no Centro de Saúde de Almada (SAPServiço de Atendimento Permanente).

Com a eclosão do 25 de Abril e 1974, com quase vinte e um anos, Conceição Jorge envolveu-se, rapidamente, nos interstícios das lutas sociais espontâneas e autónomas que não estavam identificados com os desígnios dos partidos e sindicatos de antanho. Por outro lado, a emergência do pulsar da liberdade e da criatividade levavam a pôr em causa todos os costumes e valores do fascismo salazarista. A libertação da mulher era acompanhada por uma vida quotidiana mesclada pela cultura, onde o cinema, a música  a poesia e a revolução sexual. Superados os momentos revolucionários da “transição para o socialismo” de tipo soviético, em 25 de Novembro de 1975, isso não impediu que anarquistas, situacionistas e marxistas radicais tenham continuado a sua luta em prol da emancipação social. É neste contexto que, em 1978, através de uma festa dinamizada pela  revista “Subversão Internacional” conheci Conceição Jorge.

Por razões várias que confluíram no mesmo sentido, desde então passou a frequentar grupos de ideologia libertária e a participar em reuniões, pic-niques  promovidos por grupo da mesma ideologia. Em termos concretos, a sua oposição ao Estado e ao capitalismo foram sempre atravessados pela sua militância sindical, tendo assumido  funções dirigentes no Sindicato da Função Pública do Sul e Ilhas e, ainda, em vários  Sindicatos do Distrito de Setúbal.

Entretanto, com base no seu primeiro casamento, nasceu Maria João Magos Jorge Carrilho, em 1de Agosto de 1975. Mais tarde, em 1 de Novembro de 1980,  nasce Carolina Magos Jorge Carvalho Ferreira. Devo dizer, em abono da verdade, que vivi dois  anos e meio  com a Conceição Jorge e se não fosse a sua vontade férrea em ter mais um filho, provavelmente, a minha filha Carolina não faria parte deste Mundo.

Depois da minha separação com Conceição Jorge isso não evitou que continuasse a frequentar os meios libertários da região de Lisboa e Setúbal e que, em 1987, tivesse participado no Colóquio Tecnologia e Liberdade, organizado pela revista A Ideia e a cooperativa Sementeira. Foi um momento propício para conhecer Dimitri Roussopoulos, editor da Black Rose Books sedeada no Canada. Para além do relacionamento amoroso que Conceição Jorge estabeleceu com Dimitri Roussopoulos, as leituras e a divulgação dos livros publicados pela referida editora em Portugal, permitiam que Conceição Jorge evoluísse para posições ideológicas próximas do municipalismo libertário e da ecologia social defendidas por Murray Bookchin e Janet Biehl. Para além destes, estava também em sintonia com as teses de Noam Chomsky a respeito dos Estados Unidos da América. O seguimento desta trajetória, em 12 e 13 novembre de 1988, Milano, participa num Seminário Internacional sobre “O municipalismo libertario – O ecofeminismo”, organizado pelo Centro de Studi Libertari e o Atélier de Création Libertaire. Esta participação de Conceição Jorge culminou com uma comunicação sobre “A situação da mulher portuguesa antes e depois do 25 de Abril de 1974”.

 Após este período de identidade com as atividades editoriais da Black Rose Books, entre 1991 e 1996, foi diretora do jornal “A Batalha”. Não me interessa, nem este é local próprio, para analisar as razões que levaram Conceição Jorge a assumir esta função no referido Jornal. O que é fato é que também não se compreende como é que a sua demissão nunca foi  justificada nem explicada pelo colectivo editorial do jornal “A Batalha”.

Como Conceição Jorge estava profundamente mergulhada nas atividades internacionais da difusão das ideias e práticas do municipalismo libertário sob os auspícios da vida e obra de Murray Bookchin, na Conferência Internacional sobre “Ecologia Social e suas Perspectivas Políticas – O Municipalismo Libertário”, realizada em 26, 27 e 28 de Agosto de 1998, em Lisboa, pelo SOCIUS/ISEG-UTL.   Conceição Jorge teve um papel ativo na organização desse evento, tal como Carlos António Nuno, António Cândido Franco, Francisco Trindade e José Maria Carvalho Ferreira. Em termos do comité organizador internacional refira-se Dimitri Roussopoulos, Janet Biehl, Marcel Sevigny, Dan Chodorkoff, Peter Staudenmaier, Chaia Heller,  Philipp Chee, Gary Sisco, Wolfgang Haug, Dieter Schmitd, Andreas Speck, Roger Jacobs, Peter Zegers, Eirik Eiglad, Floreal, Carlos Ramos, Luís Altable, Russel de Napoli, Bill Barrett, Tiziana Ferrer, Terry Fishe, Dario Padovan, Roberta Farber, Michalis Teremopoulos, Mikis Anastasiadis, Alberto Villareal e Mimmo Pucciarelli.

As posições ideológicas de Conceição Jorge são bem explicitadas na comunicação que fez nesse evento:

O conceito de municipalismo libertário, tal como Bookchin o entende, passa pelo ressuscitar da política para o sentido helénico da palavra : construir e expandir a democracia directa por forma a devolver aos cidadãos o poder de tomar decisões na comunidade e na sociedade em geral.

Ao contrário do Estado, o municipalismo libertário pretende gerar cidadãos activos, ao invés de meros constituintes passivos. Bookchin defende que, uma vez criadas democracias directas, os municípios democratizados poderiam unir-se em confederações que, em última análise, constituiriam um desafio ao capitalismo e ao Estado-Nação, conduzindo a uma sociedade libertária”.

Conceição Jorge, como era uma mulher que necessitava de estar sempre ativa, em 1999, integra, como independente, uma lista do Bloco de Esquerda que concorreu às eleições para o parlamento europeu. Este episódio, assim como outros que viveu no meio sindical, estavam, evidentemente, atravessados por uma série de contradições ideológicas. Esta postura não lhe impediu de continuar a colaborar com a imprensa libertária internacional.

Como personalidade e caráter, Conceição Jorge era uma mulher extremamente inteligente e solidária. Todavia, ao longo da sua vida sofreu de um problema que nunca conseguiu libertar-se. Era mulher compulsiva em relação ao consumo de objetos, o que a levava a endividar-se de forma indelével. O comportamento que mantinha para com os amigos que a auxiliavam a pagar as suas dívidas transformavam-na numa mentirosa compulsiva. Foram, principalmente, estes problemas que a levaram ao suicídio em 17 de Março de 2001. Sempre teve uma enorme paixão pela poesia de Florbela Espanca, e foi com um excerto da poesia de Florbela Espanca que se despediu do planeta Terra.

(*) José Maria Carvalho Ferreira (1945) é professor catedrático do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa. Foi emigrante em França antes do 25 de Abril. Em Portugal esteve ligado a diversas publicações libertárias, entre as quais a revista “Utopia”.

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Conceição Jorge, em Évora, em casa de familiares.

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