Day: Março 13, 2014

O poder absoluto da Igreja permanece “para mal das populações e dos povos”


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Um ano de poder do papa Francisco e a morte do Cardeal

UMA MÃO CHEIA DE NADA E OUTRA DE COISA NENHUMA

Mário Pais de Oliveira (*)

padre-marioA morte acaba de surpreender o cardeal patriarca emérito de Lisboa, quando o papa Francisco e os seus fãs, mais do que muitos, tecem loas e cantam “te deums”, pelo seu primeiro ano de poder monárquico absoluto. A conjugação destes dois eventos vem dizer/revelar, em toda a sua crueza, que os poderosos também morrem, apenas o poder permanece, de geração em geração, para mal das populações e dos povos. O poder é o algoz do mundo, nos seus mais variados e distintos graus. Na igreja católica romana, o algoz-mor veste de branco e diz-se papa ou santo padre. Desde há um ano, papa Francisco. Era cardeal e foi escolhido pelos seus pares, num consistório em Roma, de que também fez parte o cardeal José Policarpo de Lisboa. Esta sua inesperada morte, em consequência de um aneurisma, vem dizer que a Cúria romana estaria hoje de luto, se os cardeais, há um ano, em lugar de terem escolhido o argentino Mário Bergóglio, tivessem escolhido o português José Policarpo, sem dúvida, muito menos ingénuo que o argentino, mas muito mais sisudo e aristocrata que aquele. Foi escolhido o plebeu argentino, porque a Cúria romana estava pelas ruas da amargura e mergulhada em duas das mais ferozes corrupções, a financeira e a da pedofilia do clero. E era necessário escolher um papa histriónico e bobo da corte que contribuísse decisivamente para distrair os grandes media da Europa e do Ocidente.

Um ano depois, é indiscutível que os cardeais acertaram em cheio. Já ninguém, hoje, fala da Cúria romana e dos seus escândalos. Só se fala do papa Francisco e das suas piruetas, qual delas a mais eficiente, em termos de alienação e de infantilismo das populações. “O poder da palavra” contra “a palavra dos poderes”, diz, num sonante, mas vazio trocadilho, o prof. Adriano Moreira, no decurso de uma iniciativa de alguns intelectuais não-orgânicos do nosso país, organizada em Lisboa, para Roma ver e o núncio apostólico registar. À falta de actos concretos do papa Francisco que possam apontar, os intelectuais cristãos, estéreis quanto ele, masturbam-se com frases e trocadilhos sonantes e, deste modo, contornam o incómodo que é ter de louvar o papa Francisco, quando deveriam acusá-lo de nada fazer no terreno das mudanças estruturais na igreja católica romana, mais do que prementes. Mas como acusar de ineficácia o papa Francisco, se todos eles são iguais a ele? As cátedras que ocupam, anos e anos, a fio, nas universidades, não são o que há de mais estéril e de perverso? Não estão todas ao serviço do poder financeiro, político e religioso-eclesiástico? Não é delas que saem as elites dirigentes das nações e das igrejas? E estas não se têm todas na conta de pedras fundamentais da sociedade e do mundo, quando são todas os seus algozes de turno?!

Dispensado desta hipocrisia, por parte dos poderes de turno, está, agora, José Policarpo, bispo emérito da Igreja de Lisboa. A sua inesperada morte, aos 78 anos de idade, acaba de o reduzir a objecto de hipócritos elogios fúnebres, qual deles, o mais bacoco e despropositado. Só as populações ouvem a notícia e prosseguem mergulhadas nas suas desventuras, causadas pelos agentes dos poderes, seus algozes. Para elas, o acto de morrer é tão natural como o acto de nascer. E é assim que deve ser. Mas não é assim para os agentes dos poderes. Se um deles morre, como acaba de morrer o cardeal patriarca emérito de Lisboa, logo os outros vêm a terreiro chorar lágrimas de crocodilo e tecer loas póstumas, qual destas a mais ridícula e disparatada. E lá se juntarão todos, no funeral, como se só eles existissem. As populações, suas vítimas, são apenas estatísticas e por isso não pesam nada nem significam nada para eles, seus carrascos. Nem os grandes media lhes dão importância, a não ser como estatísticas. Mas sempre que morre um dos carrascos das populações, a notícia salta, veloz, para todos os noticiários. São assim os grandes deste tipo de mundo, de raízes cristãs, por isso, sem entranhas de humanidade, tal como o cristianismo e o seu cristo-da-fé, o mito dos mitos, sobre o qual está edificado o Ocidente ladrão e assassino.

O papa Francisco, com um ano de poder monárquico absoluto – a igreja católica romana, sou eu!, diz ele, todas as manhãs, quando se vê ao espelho – está bem e recomenda-se O poder é assassino, mas não é suicida. Mata, mas não se suicida. Cuida-se e prolonga-se no tempo. Faz-se rodear de tudo o que é especialista em cuidados médicos, para que nenhum aneurisma o faça desaparecer antes de tempo. Não falta, entretanto, quem, um ano depois, ainda continue a temer que ele venha a ser assassinado, pela forma como está a comportar-se no trono petrino e imperial. Quem isso pensa e diz, é ainda mais ingénuo que ele. Ignora que, a um bobo, ninguém mata. Louvam-no e aplaudem-no, por cada espectáculo que faz. Pertence-lhe distrair as atenções e o papa Francisco faz isso como poucos, como nenhum outro antes dele. Tomasse ele decisões estruturais consequentes, que partissem a espinha à Cúria romana, e aí sim. Já estaria morto. Mas ele fala muito e escreve sobre os assuntos fracturantes, mas não lhes mexe nem com um dedo. E, como ele, os clérigos católicos todos, nas diferentes nações onde pontificam. São todos “o poder da palavra” contra “a palavra dos poderes”. Por isso, uma mão cheia de nada, e outra de coisa nenhuma. Muito cristãos, pois claro. Nada humanos. Nada jesuânicos.

Ou invertemos esta multi-milenar situação e fazemos corpo com as vítimas de todos estes carrascos cristãos religiosos e laicos – todo o poder é cristão, religioso ou laico! – ou vamos de mal a pior. Porque, dos carrascos, nunca pode vir salvação/saúde social, vida em abundância. Apenas morte. E sempre antes de tempo. Cabe-nos acordar e mudar. De ser. E de Deus! Mudemos!

(*) aqui: www.jornalfraternizar.pt.vu

David Graeber: o que é o anarquismo


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O que é, então, o anarquismo?

Na verdade, o termo significa simplesmente «sem governantes». Tal como no caso da democracia há duas formas distintas de se contar a história do anarquismo. Por um lado, podemos examinar a história da palavra «anarquismo», que foi inventada por Pierre-Joseph Proudhon em 1840 e depois adoptada por um movimento político na Europa em finais do século XIX, implantando-se em força especialmente na Rússia, em Itália e em Espanha, para depois se difundir pelo resto do mundo; por outro, podemos olhá-lo como uma sensibilidade política bem mais abrangente.

A maneira mais fácil de se explicar o anarquismo, tanto num sentido como no noutro, é dizendo que se trata de um movimento político cujo objectivo é criar uma sociedade genuinamente livre – e que define uma «sociedade livre» como aquela onde os homens apenas estabelecem entre eles aqueles tipos de relacionamento que não tenham de ser concretizados pela constante ameaça de violência. A História já nos revelou que as extremas desigualdades de riqueza, as instituições como a escravatura, os casos de devedores à mercê dos seus credores por causa do que lhes devem ou o trabalho assalariado apenas podem existir quando contam com o apoio de exércitos, de prisões e de uma polícia. Até mesmo desigualdades estruturais mais profundas como o racismo e o sexismo se fundamentam, em última análise, na (mais subtil e insidiosa) ameaça da força. Assim, os anarquistas têm em vista um mundo baseado na igualdade e na solidariedade, onde os seres humanos seriam livres de se associar entre si para lutarem por uma infindável variedade de sonhos, projectos e concepções daquilo que consideram valioso na vida. Quando alguém me pergunta que tipos de organização poderiam existir numa sociedade anarquista, eu respondo sempre: qualquer forma de organização que se possa imaginar e, provavelmente, muitas que hoje não nos passam pela cabeça, com uma única condição: estariam limitadas àquelas que pudessem existir sem que ninguém tivesse a capacidade de, a qualquer momento, contar com a ajuda de homens armados para dizer: «Não me importa qual é a tua opinião sobre este assunto; cala-te e faz aquilo que te mandam.» (…)

O anarquismo possui infindáveis variedades, gradações e tendências. Pela minha parte, gosto de me dizer um anarquista com um «a minúsculo». Não estou tão interessado em descobrir que espécie de anarquista sou, mas sobretudo em colaborar em coligações abrangentes que operem de acordo com os princípios anarquistas:  movimentos que não procuram agir através de ou tornarem-se num governo; movimentos sem interesse em assumir, na prática, o papel de instituições governamentais, como associações profissionais ou firmas capitalistas; grupos que se concentrem em fazer das nossas relações uns com os outros um modelo do mundo que desejamos criar. Ou, por outras palavras: pessoas que estejam a trabalhar para criar sociedades verdadeiramente livres. No fim de contas, é difícil perceber qual o tipo de anarquismo que faz mais sentido quando há tantas questões que apenas poderão ser respondidas mais adiante. Haveria lugar para os mercados numa sociedade verdadeiramente livre? Como podemos saber? Pela minha parte, e baseando-me na História, sinto-me confiante em que, mesmo que tentássemos manter uma economia de mercado nessa sociedade livre – isto é, uma onde não haveria um Estado que nos obrigasse a assinar contratos, para que os acordos passassem a basear-se apenas na confiança -, as relações económicas depressa se transformariam em algo que os libertários não conseguiriam reconhecer e depressa não se pareceriam a nada que estejamos sequer habituados a associar à ideia de «mercado». Decerto não consigo imaginar ninguém a aceitar trabalhar a troco de um salário caso tenha outra opção. Mas quem sabe? Talvez esteja enganado. Estou menos interessado em estabelecer a arquitectura detalhada de uma sociedade livre do que em criar as condições que nos permitiriam descobri-lo.

Quase não fazemos ideia do tipo de organizações – ou mesmo de tecnologias – que surgiriam caso pessoas livres não tivessem qualquer constrangimento em usar da imaginação para resolver de facto os problemas colectivos, em lugar de apenas os piorarem. Mas a questão fundamental é esta: como podemos sequer lá chegar? O que seria necessário para que os nossos sistemas económico e político se transformassem em ferramentas para resolver colectivamente os problemas, em vez de, como agora acontece, serem um modo de guerra colectiva?

David Graeber (excerto de “Projecto Democracia”, Editorial Presença)

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(Na Gato Vadio, Porto) 2º dia das “Jornadas da Soda Cáustica”


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Libertação das mulheres – Libertação das crianças

13, quinta-feira – 20h – gato vadio

Karmela Valverde (Colectivo Manzanares, Soria)

Sopa do Povo sem Polvo

21h30 – gato vadio

&etc/Vítor Silva Tavares
Traficante de Sueños/Beatriz Garcia (Madrid)
Flauta de Luz/Júlio Henriques

aqui: http://gatovadiolivraria.blogspot.pt/2014/03/12-16-marco-iv-jornadas-da-soda-caustica.html

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/11/5165/