Artigo de David Graeber no The Guardian: “Importar-se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras.”


Matt Kenyon illustration on the working class

Ilustração de Matt Kenyon

Porque é que a lógica básica da austeridade foi aceite por todos? Porque a solidariedade começou a ser vista como um flagelo.

“O que eu não consigo entender é:  porque é que não há tumultos populares nas ruas?” é algo que oiço aqui e ali de pessoas de estratos ricos e poderosos. Há uma espécie de incredulidade. “Afinal de contas”, parece ler-se nas entrelinhas, “nós ficamos furiosos quando alguém põe em perigo os nossos paraísos fiscais; se alguém cortasse o nosso acesso à comida ou a um abrigo eu estaria, com certeza, a queimar bancos e a tomar o parlamento. O que há de errado com estas pessoas?”

É uma boa pergunta. Qualquer um poderia pensar que um governo que provocou tanto sofrimento aos que têm menos condições para resistir, sem sequer melhorar o ambiente económico à sua volta, correria risco de suicídio político. Em vez disso, a lógica fundamental da austeridade foi aceite por quase todos. Porquê? Porque é que os políticos que prometem sofrimento prolongado ganharam a condescendência da classe trabalhadora, para não falar em apoio?

Acredito que a própria incredulidade com que comecei nos dá uma resposta parcial. Os trabalhadores podem ser, como muitas vezes é lembrado, menos meticulosos nas questões da lei e da moral convencional do que os seus “superiores”, mas são também muito menos obcecados consigo mesmos. Preocupam-se mais com os seus amigos, famílias e comunidades. No conjunto são, pelo menos, pessoas fundamentalmente melhores.

Até certo ponto, isto parece reflectir uma lei sociológica universal. As feministas desde há muito que assinalaram que aqueles que estão na parte de baixo de qualquer estrutura social desigual tendem a pensar mais e, portanto, a preocuparem-se mais com os de cima, do que estes pensam ou se preocupam relativamente a eles. As mulheres, onde quer que seja, têm tendência a pensar e saber mais sobre a vida dos homens do que os homens sobre as mulheres, tal como os negros sabem mais sobre os brancos, os funcionários sobre os empregadores e os pobres sobre os ricos.

E sendo os humanos as criaturas empáticas que são, o conhecimento leva à compaixão. Os ricos e poderosos, no entanto, podem permanecer alheados e indiferentes, porque podem dar-se a esse luxo. Numerosos estudos psicológicos recentes confirmam isso. Os que nasceram em famílias da classe trabalhadora têm, invariavelmente, melhor resultados nos testes de percepção dos sentimentos do outro do que os filhos dos ricos ou das classes médias. De certa forma, o resultado não é inesperado. Afinal, isso é, em grande parte, aquilo em que consiste o ser “poderoso”: não ter que prestar muita atenção áquilo que os outros em seu redor pensam ou sentem. Os poderosos empregam outros para fazerem isso por eles.

E quem é que eles empregam para isso? Principalmente, filhos das classes trabalhadoras. Neste aspecto creio que temos tendência a ser tão cegos pela nossa obsessão com o (poderei dizer romantização do?) trabalho de fábrica como paradigma de “trabalho real” que nos esquecemos em que consiste actualmente a maior parte do trabalho humano.

Mesmo na época de Karl Marx ou Charles Dickens, os bairros operários abrigavam muito mais empregadas domésticas, engraxadores, trabalhadores do lixo, cozinheiros, enfermeiras, motoristas, professores, prostitutas e vendedores ambulantes do que empregados nas minas de carvão, nas fábricas de têxteis ou nas fundições. Hoje, isso é ainda mais verdadeiro. O que nós pensamos do trabalho das mulheres como arquétipo – cuidar de pessoas, encarregar-se dos seus desejos e necessidades, explicar, confortar, antever o que o patrão quer ou está a pensar, para não falar de cuidar, vigiar e conservar plantas, animais, máquinas e outros objectos – representa uma parte importante do que a classe trabalhadora faz, quando está a trabalhar, mais do que martelar, talhar, carregar ou colher coisas.

Isto é assim não só porque a maioria das pessoas da classe trabalhadora são mulheres (uma vez que a maioria das pessoas, em geral, são mulheres), mas também porque temos uma visão distorcida daquilo que os homens fazem. Como os trabalhadores do metro em greve tiveram que explicar recentemente aos passageiros indignados, os “cobradores”, de facto, não passam a maior parte do seu tempo a cobrarem bilhetes: passam a maior parte do tempo a dar informações, a consertar coisas, a encontrarem crianças perdidas, a cuidarem de velhos, doentes ou pessoas desorientadas.

Se pensarmos um pouco, não é basicamente isto a vida? Os seres humanos são projectos de criação mútua. A maior parte do trabalho que fazemos é uns para os outros. As classes trabalhadores apenas fazem uma parcela desproporcional deste trabalho. São classes cuidadoras e sempre o foram. Apenas a diabolização incessante dos pobres, por parte daqueles que beneficiam do seu trabalho, faz com que seja difícil, num espaço público como este, reconhecê-lo.

Como filho de uma família da classe operária posso atestar que é disso mesmo que nos orgulhamos. Disseram-nos constantemente que o trabalho é uma virtude em si – molda o carácter ou algo assim -, mas ninguém acreditava nisso. A maior parte de nós achava que era melhor evitar o trabalho, a menos que ele beneficiasse outras pessoas. Do trabalho que beneficiasse alguém, fosse ele construir pontes ou esvaziar penicos, podíamo-nos orgulhar. E há outra coisa de que, definitivamente, nos orgulhávamos: eramos o tipo de pessoa que cuidava dos outros. É isso que nos diferenciava dos ricos que, na nossa percepção,  nem sequer metade do tempo se dedicavam a cuidar dos seus próprios filhos.

Há uma razão para que a maior virtude burguesa seja a economia e a maior virtude da classe trabalhadora seja a solidariedade. Porém, é precisamente esta a corda em que a classe operária agora se encontra suspensa. Houve um tempo em que prestar assistência à  sua comunidade significava também lutar pela classe trabalhadora enquanto tal. Nessa altura era costume falarmos sobre “progresso social”. Hoje vemos os efeitos duma guerra implacável contra a própria ideia de uma política da classe trabalhadora ou de comunidade da classe trabalhadora. Isso deixou a maioria dos trabalhadores com poucos meios para expressar essa preocupação, excepto dirigindo-a para abstracções artificiais: “os nossos netos”, “a nação”, seja através do patriotismo chauvinista ou de apelos ao sacrifício colectivo.

Em resultado disto, tudo se inverteu. Gerações de manipulação política transformaram, por fim, esse sentimento de solidariedade num flagelo. O nosso sentimento de preocupação com o outro transformou-se numa arma contra nós. E assim deve permanecer até que a esquerda, que pretende falar em nome dos trabalhadores, comece a pensar séria e estrategicamente naquilo em que consiste actualmente a maior parte do trabalho e o que é que aqueles que o realizam pensam ser a virtude nele contida.

26/3/2014

(David Graeber é um antropólogo anarquista americano, autor de diversos livros, e um dos principais dinamizadores do movimento Occupy Wall Street)

aqui: http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/26/caring-curse-working-class-austerity-solidarity-scourge?CMP=twt_gu

tradução em português do Brasil: http://baderna.cc/importar-se-demais/

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