(Texto) O PCP e o nacionalismo antieuropeu


DSCF4158

Jorge Valadas (*)

A 5 de julho de 2012, António Vilarigues (A.V.), figura importante do partido comunista português, publica no jornal do partido, Avante, o texto «Algumas notas sobre o óbvio», no qual critica «alguns radicais pequeno-burgueses (que) descobriram duas teses espantosas: os partidos comunistas são «nacionalistas de esquerda», e, logo são incapazes de políticas internacionalistas». Segundo o autor, estes «radicais pequeno-burgueses» falam «em contradições insanáveis entre o nacional e o internacional na luta dos trabalhadores ».  A.V. sublinha que «os progressos realizados pelos povos da União Soviética e dos outros países socialistas provam a superioridade do modo de produção socialista em relação ao capitalista». «Em praticamente todos os países onde se verificaram revoluções socialistas foi impressionante o desenvolvimento das forças productivas nomeadamente na industria e agricultura. As evoluções negativas verificadas, fruto de erros internos e da acção externa do capital e do imperialismo […] não contradizem estes factos. Por muito que isso custe aos “nossos” radicais pequeno-burgueses»

Assim, em 2012, voltamos a ouvir estas afirmações barrocas. Alguns partidos comunistas europeus – cujo caso mais paradigmático é o do partido comunista grego, o KKE -, debilitados na sequência do colapso do bloco capitalista de Estado, encontram um novo fôlego num nacionalismo antieuropeu, espoletado pela decomposição social das sociedades em crise.

António Vilarigues, com a sua diatribe contra os «radicais pequeno-burgueses» efetua provavelmente um ajuste de contas no interior da sua própria organização. De um modo mais geral, responde à crítica que é feita ao partido comunista de resvalar para a defesa de posições nacionalistas suscetíveis de conduzir a uma convergência com as correntes da direita patriótica, uma tendência que se pode observar desde há anos na Rússia com a emergência do nacional-bolchevismo e, mais recentemente, na Grécia. A retórica marxizante e o culto do progresso económico, do produtivismo e das forças produtivas, essa vulgata bolchevique que entende o internacionalismo como uma adição de socialismos nacionais, envolvem a reivindicação de um hipotético retorno do país de Camões à «independência nacional», concretizado por uma saída unilateral do Euro, uma ideia de recuo nacional que contamina toda a velha esquerda impotente perante a crise. No espírito dos chefes neo-estalinistas, tratar-se-ia de uma etapa benéfica para o seu reforço. Não lhes passa sequer pela cabeça que o único caminho para uma emancipação dos explorados em Portugal possa porventura residir antes do mais numa união com os outros revoltados europeus e ibéricos, ao contrário de um retorno à suposta «independência nacional» e ao culto do patriotismo.

António Vilarigues e os seus camaradas podem vir a ver-se fora da zona Euro, não em consequência de uma improvável ação de massas sob a direção do partido, mas simplesmente por via do desenvolvimento da crise do capitalismo e das decisões dos seus gestores, com todo o seu cortejo de horrores, de autoritarismo político, de violências e de nacionalismos exacerbados.

Para fundamentar as suas afirmações, A.V. recorre a um texto que Álvaro Cunhal publicou em 1970, «O Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista». O dirigente histórico do PCP tinha o dom dos títulos cativantes. Em 2012, A.V. atualiza o texto ao gosto do momento presente: « Commo salientou o camarada Álvaro Cunhal […], a radicalisação política da pequena burguesia, fruto do desenvolvimento do capitalismo, é um fenómeno positivo. Entretanto, essa radicalisação é também acompanhada por fenómenos negativos», designadamente, especifica A.V., «hesitações», «contradições», «desvios de direita e de esquerda», «manifestações de impaciência e de desespero», tudo sintomas de doença grave, de que estariam protegidos aquelas e aqueles que seguem as posições do partido, que podem variar de acordo com as oscilações da linha, sempre com o fito de um desenvolvimento harmonioso das forças produtivas nacionais.

Presentemente, o partido comunista português e a central sindical dirigida pelos seus partidários, a CGTP, têm dificuldade em readquirir um peso político numa sociedade esmagada pelos efeitos da crise, pelas medidas de austeridade e de recessão implementadas pelos sucessivos governos, de esquerda e de direita. A sua base está desmoralizada por um sentimento de impotência, desorientada com a ineficácia da ação partidária e sindical a que estava habituada. Até parece que os sintomas que A.V. atribui ao «radicalismo pequeno-burguês» acabam por ser aqueles de que padece hoje o povo comunista. Ao mesmo tempo, verifica-se uma radicalização de setores da sociedade, tentados por novas formas de mobilização independentes, de onde se eleva uma crítica da «democracia realmente inexistente» e da decadência da vida política tradicional. Na juventude, observa-se um interesse pela democracia de base, e mesmo pelas ideias do anticapitalismo. A tal ponto que o serviço de ordem do sindicato maioritário se vê obrigado a «proteger» os seus cortejos do contacto com estes jovens anticapitalistas que fazem ouvir a sua voz e propõem uma reflexão sobre o estado do mundo que ultrapasse as fronteiras de um pequeno país em ruínas. Mais grave ainda, eis que franjas dos explorados até aqui habituados a desfilar docilmente atrás dos chefes se cansam das manifestações indigentes, das greves gerais com pouca adesão e das encantações repetitivas dos parlamentares comunistas, e se decidem a agir de forma direta e muito pouco sensata, agredindo em termos verbais, e mesmo físicos, ministros em deslocação e inclusivamente o corrupto presidente da república, semeando o medo nessa nobreza democrática que teme o incontrolável. E as gigantescas manifestações de 15 de setembro de 2012 por pouco não culminaram na invasão do parlamento em Lisboa aos gritos de «O povo unido não precisa de partidos!». Em resumo, o partido comunista está paralisado, obrigado a ir atrás da cólera da rua, perante uma situação que se degrada constantemente. Isto explica o sobressalto de António Vilarigues, que procura tranquilizar as suas tropas apontando um perigo, invocando a este propósito a fórmula oca do «radicalismo pequeno-burguês ».

O texto citado por A.V. do dirigente estalinista lusitano Álvaro Cunhal foi publicado dois anos depois de maio de 68, num momento em que o partido estava também a braços com uma contestação e uma radicalização de setores da juventude e da classe operária. Pela primeira vez na sua história, o partido, ainda na clandestinidade, tinha de responder a uma crítica de esquerda da sua tática da «revolução democrática» e de aliança com a burguesia anti-salazarista. As circunstâncias mudavam rapidamente, alteradas por um descontentamento social e uma revolta da juventude estudantil contra o colonialismo, impregnada das ideias de maio de 68. A guerra colonial, interminável, mortífera e impopular, que se desenrolava em três frentes em África (Guiné-Bissau, Angola e Moçambique) havia acelerado a crise política de um regime fascizante anacrónico que começava a incomodar alguns setores da burguesia local e uma Europa capitalista em formação. Enquanto o partido comunista continuava a defender a necessidade de a juventude cumprir o serviço militar (e portanto a guerra) com o objetivo tático de infiltrar a instituição militar, as deserções e a resistência à guerra tornavam-se um fenómeno de massas e criavam uma corrente de emigração política para a Europa, sobretudo para França, onde as redes da emigração dita económica constituíam um apoio para os recém-chegados. Em Portugal, o ativismo da corrente maoista e as suas propostas de afrontamento total com a burguesia e de fim imediato do colonialismo e da guerra encontrava um eco nos meios operários agitados por movimentos de greve. Grupos à esquerda do partido faziam ações de sabotagem contra a máquina militar, e a juventude politizada escapava progressivamente ao controlo do partido comunista. É neste novo contexto que surgem grupos e publicações que se reclamam do marxismo e se afirmam em rutura com a linha do partido. A maioria posicionou-se na área de influência do maoismo, outros assumiram a ideologia castro-guevarista – tida como menos reformista e burocrática – outras ainda propuseram-se fazer a crítica do marxismo-leninismo. Entre estes últimos, a revista Cadernos de Circunstância (CC), publicada em Paris, teve uma influência importante nos meios do exílio e, depois, em setores da juventude estudantil em Portugal, o que lhe valeu ter ficado na mira do texto de Álvaro Cunhal, enquanto exemplo da famosa «radicalidade pequeno-burguesa».

(*) Esta é a introdução a um texto de Jorge Valadas, dedicado aos Cadernos de Circunstância, editados em França antes do 25 de Abril,  publicado na internet há um ano e agora retomado em papel na revista “Flauta de Luz”, nº 2. Jorge Valadas é ensaísta e colaborador da imprensa libertária internacional, sobretudo com o pseudónimo de Charles Reeve.)

relacionado: http://vosstanie.blogspot.pt/2011/09/cadernos-de-circunstancia.html

entrevista com Jorge Valadas: http://www.jn.pt/Domingo/Interior.aspx?content_id=1022313&page=-1

Anúncios

2 comments

  1. acusar o PCP de «nacionalismo antieuropeu» é insultuoso. o PCP não defende a superioridade do interesse nacional face ao dos outros povos, mas sim uma Europa de igualdade e solidariedade entre países soberanos, contrária à União Europeia de submissão e dependência. contudo, já tenho lido essa distorção simplista, vinda quase sempre de uma pequena burguesia intelectualizada pretensamente adepta do espontaneísmo anárquico, mas, na verdade, porque aponta para objectivos dificilmente atingíveis, receosa da turbulência económica e política que uma ruptura com a UE necessariamente acarretaria. que a luta deve ser global e alargar-se ao maior número de países possível é um dado adquirido; contudo, é no plano nacional que, primeiramente, as coisas se decidem. uma ruptura de Portugal ou da Grécia com a União Europeia (tal como defendida pelos “estalinistas” PCP ou KKE) criaria condições para uma transformação anticapitalista à escala europeia, a exemplo do que decorre na América Latina, fustigada por décadas passadas de neoliberalismo, com a ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América – Tratado de Comercio de los Pueblos). quem tem medo da revolução e de perder o seu salário “€uropeu”?

  2. Impressionante o desprezo pelo “produtivismo” e pelas “forças produtivas” e depois o que têm a apontar ao capitalismo é a austeridade e a pobreza. A pobreza seria melhor se fosse auto-imposta.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s