Roberto das Neves: elementos de uma biografia


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  josé maria José Maria Carvalho Ferreira

Escrever sobre Roberto das Neves não é uma tarefa fácil, na medida em que tantos são os fenómenos e as vivências que acompanharam este homem invulgar. Seus diferentes escritos permitem-nos absorver a matriz essencial do seu pensamento e ação. Todavia, muitos dos fatos sócio-históricos que integraram a sua vida quotidiana não são possíveis de reproduzir com a proficiência devida.

Em primeiro lugar a sua trajetória biológica e social foi sempre acompanhada por opções ideológicas, filosóficas, culturais, morais e éticas diversificadas, mas todas elas complementares e interdependentes no que concerne à sua visão do anarquismo e, consequentemente, da anarquia. Por outro lado, a sua incursão na visão utópica do anarquismo permitiu-lhe experienciar de forma muito singular e individual a sua plasticidade social, económica, política e cultural nas sociedades contemporâneas do século XX.

Em segundo lugar, não obstante tendo sido aculturado historicamente pela língua portuguesa, não podemos daí extrair ilações analíticas fáceis, deduzindo que a vida e a obra de Roberto Neves foi totalmente baseada numa matriz teórica e prática comum que teve a sua origem em Portugal e culminou no Brasil.

Por último, porque não tive oportunidade de conhecer ou viver com Roberto das Neves, devo ter em linha de conta as minhas limitações em relação à pequena abordagem biográfica que pretendo realizar sobre ele. Para os devidos efeitos, recorri fundamentalmente ao trabalho de pesquisa realizado pelo seu filho Roberto das Neves no sítio: http.//betodasneves.multiply.com/jornal. Esse fato não me impediu de consultar outros sítios, principalmente das bibliotecas em Portugal e no Brasil sobre Roberto das Neves e de ouvir testemunhos verbais orais de companheiros seus que conviveram com ele no Brasil. Como é normal, nestas circunstâncias, procurei ler a maioria dos documentos escritos por si, na maioria dos casos editados em livro pelo próprio Roberto das Neves.

Roberto das Neves nasceu em 7 de Setembro de 1907, em Pedrógão Grande, Distrito de Leiria, Portugal. Os seus pais tinham algumas posses, daí que os primeiros anos da sua vida foram vividos em Pedrógão Grande. Neste período da sua infância frequenta a escola primária na sua terra natal. A influência religiosa embora perdurasse com pouca ênfase nas escolas primárias no tempo da 1ª república, no seio da família de Roberto das Neves, a influência da mãe e da avó materna tornaram-se relevantes. Com nove anos Roberto das Neves aprendeu a suportar os castigos da civilização judaico-cristã, mas, por outro lado, aprendeu também a rebelar-se contra as perversões do catolicismo na sua vida quotidiana. Diga-se, em abono da verdade, que essa postura comportamental leva-o a assumir uma posição militante ateísta, sobretudo quando passa a frequentar o liceu de Coimbra após ter atingido quatorze anos. Um dos episódios mais emblemáticos da militância ateísta de Roberto das Neves teve lugar numa Igreja em Coimbra, após ter adulterado a figura religiosa do corpo do Menino Jesus, aplicando neste um pénis com proporções desmesuradas. O resultado do escândalo foi sintomático. Pura e simplesmente foi obrigado a sair da casa onde habitava.

A continuidade do processo de escolarização evolui com o fim da frequência do liceu e o início dos primeiros anos da licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra. A maturidade intelectual que acompanha o processo académico de Roberto das Neves no sentido do anarquismo começa com a sua participação na criação da União Anarquista Portuguesa, em 18 de Março de 1923, em Alenquer, quando tinha quinze anos, cinco meses e onze dias. Embora tivesse participado individualmente neste evento, tudo leva a crer que fazia parte do Grupo Libertário “Os Rebeldes” e mais tarde do Grupo Libertário “Os Rebelões”. A sua militância na cidade Coimbra desenvolve-se quando ainda era aluno do 6º ano do liceu, razão pela qual com quinze anos ajudasse a criar e a liderar o grupo estudantil “A Labareda”).

A incursão literária e poética de Roberto das Neves realiza-se quando ainda muito jovem e quando só tinha quinze anos. Na pesquisa que me foi permitido realizar verifiquei que a viajem aérea feita por Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em 1922, impressionou sobremaneira o jovem Roberto das Neves, daí que tenha escrito um pequeno opúsculo em memória do feito histórico e científico dos dois pilotos portugueses. Quando faltava cinco dias para fazer dezasseis anos, com o pseudónimo de Pedro das Neves publica um artigo extremamente radical subordinado aos Monumentos aos Mortos da Guerra. É sem dúvida, um manifesto contra a guerra, os exércitos, as bandeiras e as pátrias. Para Roberto das Neves qualquer um destes factores não tinha razão de ser ou de existir.Com A sua visão materialista e ateísta crítica faz com que se aproxime das ideias e práticas do anarquismo, daí que com a idade de quinze anos, dez meses e vinte e nove dias tenha começado a escrever poemas no jornal A Comuna, Semanário Comunista Anarquista. Neste primeiro texto já se denota-se uma postura crítica radical aos pressupostos da religião católica apostólica romana, mas também às manifestações perversas do capitalismo nas sociedades de antanho. Por razões que têm que ver com a sua permanência em Coimbra, Roberto das Neves transforma-se num colaborador assíduo do jornal A Comuna.

A república implantada em 5 de Outubro de 1910 tinha sido um acontecimento histórico extraordinariamente importante para as aspirações emancipalistas dos trabalhadores portugueses, na medida em que a queda da monarquia e da influência da Igreja Católica Apostólica Romana, potenciavam a probabilidade da realização de um conjunto de reformas do capitalismo no quadro da democracia representativa burguesa. Esta esperança depressa foi desfeita, tanto pelas modalidades alternadas de governo dos republicanos e democratas, como pela prisão e morte de grevistas que lutavam por melhores condições de vida social, económica, política e cultural. A emergência histórica do anarco-sindicalismo em 1919 e do seu porta-voz A Batalha como jornal diário radicalizaram a acção coletiva do operariado português no sentido da emancipação social e, logicamente, do fim do Estado e do capitalismo. Todavia, Roberto das Neves sentia que uma parte substancial do operariado português ainda seguia o canto da sereia republicano iniciado em 1910.

Quando em 1924, Roberto das Neves tinha dezasseis anos, seis meses e trinta dias, através dos seus poemas, afirma-se publicamente com anarquista. A solução dos problemas sociais só poderiam ser resolvidos por essa via, e não através dos processos clássicos da burguesia e do Estado. Consequentemente, as formas de representação burguesa, estatal, religiosa ou partidária deveriam ser suprimidos. A revolução social anarquista deveria ser realizada pela força das armas. A insurreição seria o melhor método para alcançar a anarquia (1):

“Herói plebeu nobre povo,

Lião faminto e ululante,

vai erguer o Mundo Novo

com teu braço fecundante!

pelo ceu, na imensidade

vagueia, há séc’los, à solta

a forte voz da Revolta,

a chamar-te à Liberdade.

 

A’s armas! às armas! Contra a cruel Burguesia!

A’s armas! às armas! Pelo Amor e a Harmonia!

Contra a Opressão! Pela Anarquia!

 

Desfralda a nova bandeira

sôbre a grande Pátria – a Terra.

Do Universo – a Terra inteira –

bane o Crime, o Roubo, a Guerra!

E, ridente, o Sol jucundo

sorrir-te-hà ó Produtor,

que o teu braço vencedor

levantou um Novo Mundo.

 

A’s armas! às armas! Contra a cruel Burguesia!

A’s armas! às armas! Pelo Amor e a Harmonia!

Contra a Opressão! Pela Anarquia!

 

Saudai o sol que desponta

num rutilante clarão.

Seja o eco duma afronta

o sinal da Insurreição!

Sirva de morte, de guia

a Idea fulgente e bela.

Vamos, de olhos fitos nela,

à conquista da Anarquia!

 

A’s armas! às armas! etc…”

1924-Fevereiro, 11

Roberto das Neves

A continuidade da produção literária e poética de Roberto das Neves, durante a década de 1920, fez-se fundamentalmente através do semanário A Comuna sediado no Porto. Ao mesmo tempo que o jornal A Batalha expressa o ideal anarquista em termos do anarco-sindicalismo e do sindicalismo revolucionário, A Comuna era o baluarte do anarquismo específico, mais concretamente do anarco-comunismo e do comunismo libertário. Não obstante, percebe que embora estivesse integrado na perspectiva da União Anarquista Portuguesa, pela natureza dos  seus escritos, podemos observar que suas posições idiossincráticas vão no sentido de uma anarquismo individualista. Nesse sentido, com dezasseis anos, dez meses e treze dias publica “Perante o Garrote” (aos homens livres de todo o mundo) um poema de solidariedade para com Juan Bautista Archer. Com dezassete anos publica o poema “Prelúdios” alusivo a uma crítica à burguesia. Aos dezassete anos, seis meses e vinte e cinco dias publica “Carnaval”, fazendo uma crítica feroz à participação do povo numa festa alienante e estupidificante. Quando tinha dezoito anos, um mês e três dias publica o poema “O Herói”, onde mais uma vez fustiga a participação do povo na revolução de Outubro de 1910.

Entretanto, ocorre o golpe de Estado militar de 28 de Maio de 1926 que deu origem, posteriormente, à ascensão de Salazar ao poder autocrático fascista, sobretudo se tivermos em linha de conta o conteúdo da constituição de 1933. Estes fatos condicionaram a acção da luta dos trabalhadores e da Confederação Geral do Trabalho, assim como da sua porta-voz A Batalha. Roberto das Nevesnão se amedrontou e com dezoito anos participa numa luta solidária a favor de Sacco e Vanzetti, tentando evitar que seguissem o caminho da pena de morte. Ainda que a sua colaboração incidisse muito mais no semanário A Comuna, isso não impediu que se aproximasse do jornal A Batalha e publicasse um texto sobre o trabalho extenuante dos camponeses na produção de riqueza na terra, tendo presente o sofrimento que padeciam ao sol, à chuva e ao vento. Em termos das referências do anarco-sindicalismo preconizado pelo jornal A Batalha, todavia, importa sobremaneira enaltecer a descrição que faz da condição-função das famílias dos trabalhadores portugueses. Ao dar a estes o epíteto de ralé, por essa via, consegue expressar muito a natureza da tragédia, miséria, pobreza, promiscuidade e inexistência de dignidade humana nos trabalhadores portugueses. Em contrapartida a situação da burguesia primava pela luxúria e o egoísmo exacerbado.

A prodigalidade da escrita em Roberto das Neves era constante. A partir do momento em que a publicação dos seus escritos se tornaram mais difíceis devido à ação negativa da ditadura, mas também à falência financeira sistemática das publicações anarquistas, ainda com dezoito anos publica o Espectro de Buiça. Existem indicações que nesse ano de 1926 ano publicou ainda Flor de Maio e Os Temperamentos e sua Manifestações Gráficas (tese de conclusão do curso de psicologia da Universidade de Coimbra). Evidentemente que a sua maneira de ser não lhe permitia ficar quieto perante as injustiças que atravessavam a sociedade portuguesa. Por difundir as ideias anarquistas foi várias vezes preso em 1926 e 1927. Em 1929 é novamente preso como diretor do jornal anarquista “A Egualdade”. Nesse mesmo ano, com vinte e dois anos adere à maçonaria do Grande Oriente Lusitano através da Loja Rebeldia, tendo para o efeito adotado o nome simbólico de Satan. Como aderente a esta Loja Rebeldia, Roberto Barreiro Pedrosos Neves aparece como um dos aderentes em 1929 e é provável que tenha sido preso no mês de Abril desse ano, aquando de um assalto às instalações da sede do Grande Oriente Lusitano pela Guarda Nacional Republicana e pela Policia  de Segurança Pública. Em 1930 e 1931 continua na sua luta pelos ideais anarquistas, sendo por essa razão, várias vezes preso. Após ter interrompido a sua licenciatura em Coimbra, o problema da sua sobrevivência impõe-se de modo pertinente. Assim, a partir de 1931 torna-se jornalista do jornal diário portuense O Primeiro de Janeiro. Nesta condição torna-se correspondente deste jornal em Madrid. Ao mesmo tempo que elaborava as suas crónicas para o referido jornal, liga-se ao movimento anarquista espanhol e português, ajuda a reestruturar a Federação Anarquista de Portugueses Exilados e escreve no jornal Rebelião, órgão oficial desta organização.

Regressa passado algum tempo a Portugal. Em 1933 acaba finalmente a sua licenciatura na especialidade em Histórico-Filosóficas e torna-se também jornalista do jornal diário lisboeta O Século. Nesse mesmo ano publica um estudo sócio-geográfico relacionado com a sua terra natal. Em 1935, com vinte e oito anos, publica um Curso Completo de Esperanto (nível elementar, médio e superior), com e edição da Portugala Instituto de Esperanto. Foi também co-autor de um Dicionário Português-Esperanto eEsperanto-Português. Durante os últimos tempos que esteve em Portugal no período da vigência da ditadura fascista de Salazar, não obstante os condicionalismos que na altura persistiam, Roberto das Neves não se coibiu de lutar contra os aspetos perversos dessa realidade, o que o levou várias vezes à prisão. Muitos dos poemas que publicará, posteriormente, no Brasil têm origem nessas prisões. Um fato marca de forma indelével a sua luta pela liberdade e a solidariedade no meio anarquista internacional. A este respeito, a revolução espanhola de 1936-1939 foi, sem dúvida, um exemplo emblemático da ação de Roberto das Neves, de sua mulher Maria Jesusa Saiz Diaz e de outros companheiros e companheiras na solidariedade para com os refugiados espanhóis que almejavam chegar ao México. Usando estratagemas e estratégias de sobrevivência bastante arrojadas conseguiram arranjar um navio que transportou centenas de refugiados espanhóis para o México. Para além deste episódio de grande solidariedade, a ação de Roberto das Neves nos últimos tempos em Portugal é fundamentalmente panfletária e jornalística. Como já focamos, antes, durante e depois da eclosão da guerra civil espanhola, a inserção de Roberto das Neves no seio da imprensa escrita é muito importante, tendo para o efeito colaborado e, em alguns casos, dirigido diversos periódicos: semanário Igualdade (Coimbra), jornal Rebelião (órgão da Federação dos Anarquistas Portugueses- 1932-1938), o Portugala Instituto de Esperanto, jornal A Batalha (Lisboa), República (Lisboa), O Comércio do Porto, o Primeiro de Janeiro (Porto) O Rebate (Lisboa), o Diário da Noite (Lisboa), O Século (Lisboa), O Povo (Lisboa), no semanário O Diabo (Lisboa),A Comuna (Porto), Revolta (Lisboa), A Aurora (Porto, 1929-1930).

Com o início da 2ª segunda guerra mundial, Roberto das Neves tenta fugir de um contexto sócio-económico, político e cultural bastante adverso, daí que tenha emigrado em 1942 para o Brasil, com a sua mulher e sua filha. Antes de partir para o Brasil publicou O Meu Livro: orientação médico-pedagógica para a vida do ser humano.

Quando chega ao Brasil Roberto das Neves tinha trinta e cinco anos. As razões que estiveram na origem da vinda de Roberto das Neves para o Brasil enquadravam-se numa perspectiva simultaneamente cultural, sócio-económica e política. O contexto difícil da ditadura de Salazar agravou-se, notoriamente, durante a década de trinta do século XXX. O fato do Brasil não participar nos conflitos perversos provocados pela segunda guerra mundial e, por outro lado, ao estar mais vocacionado para socializar e expandir a língua portuguesa à escala mundial, torna-o num país de eleição para a emigração portuguesa. O Brasil para Roberto das Neves era também o espaço-tempo ideal para participar com outros portugueses na luta contra a ditadura fascista de Salazar.

O seu primiero objetivo reporta-se a arranjar formas de sobrevivência para si e para a sua família. Como no Rio de Janeiro existia uma comunidade de exilados políticos e que eram opositores do regime de Salazar e porque alguns eram seus conhecidos, não admira que através deles tela arranjado trabalho como jornalista em alguns jornais, como foi o caso da Força da Razão,  e tenha iniciado as suas pesquisas no domínio da grafologia com a criação do Instituto de Pesquisas Grafológicas em 1946. A atividade editorial caracteriza-se pela divulgação das suas ideias anarquistas, de concepção de vida e saúde e, indefectivelmente, pela oposição ao regime de Salazar.

Em Abril de 1945 é criado o Comité Português Anti-Fascista. Participam nesse comité, entre outros, Roberto das Neves, Sarmento Pimentel, Tomás Ribeiro Colaço, Joaquim Novais Teixeira e Aniceto Monteiro. Em 5 de Outubro de 1958 conjuntamente com emigrantes e outros portugueses exilados, funda a Associação General Humberto Delgado. Passado algum tempo dá-se uma cisão entre o general Humberto Delgado e Roberto das Neves. As posições militaristas e autoritárias do primeiro não se coadunavam com os pressupostos anarquistas do segundo. Colaborou com o grupo que editava o jornal Portugal Democrático sedeado em São Paulo através da sua filial no Rio de Janeiro denominada Serviço de Informação Internacional do Portugal Democrático e, ainda, no jornal Gazeta do Brasil do Rio de Janeiro. A atividade política de Roberto das Neves era muito intensa, razão pela qual a sede da sua Editora Germinal fosse o local de muitas reuniões e de conspirações contra a ditadura de Salazar.Importa sobremaneira salientar a sua ação de solidariedade junto de todos aqueles que estavam envolvidos no sequestro do paquete Santa Maria da Companhia Nacional de Navegação. Foi uma aventura notável e a todos os títulos rocambolesca que perdurou entre 22 de Janeiro de 1961 e 4 de Fevereiro desse mesmo ano. Entre vários participantes, sublinhe-se o papel do capitão Henrique Galvão, do general Humberto Delgado e de Camilo Mortágua. Foi de fato um ato de terrorismo moderno que pôs em pânico a ideologia da estabilidade normativa do fascismo de Salazar. Neste caso, a solidariedade de Roberto das Neves e de Edgar Rodrigues em relação aos assaltantes do paquete de Santa Maria foi fundamental, já que permitiu subtraí-los da repressão policial brasileira, durante vários dias. O local privilegiado para essa ação de solidariedade foi o “Nosso Sítio”, propriedade do Centro de Cultura Social de São Paulo. Posteriormente, com o assassinato do general Humberto Delgado em 13 de Fevereiro de 1965, embora não tenha aparecido com o seu nome, Roberto das Neves escreve um artigo num jornal brasileiro denunciando o crime hediondo dos que atuaram em nome da PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado) como autora desse crime hediondo. Na sua luta contra a ditadura de Salazar há que salientar as edições que dinamizou no âmbito da Editora Germinal, nomeadamente, os Sermões da Montanha, de Tomás da Fonseca, em 1948, Portugal Oprimido, de Fernando Queiroga, em 1958 e, ainda, A Fome em Portugal, de autoria de Edgar Rodrigues e Roberto das Neves, em 1959.

Não obstante a importância que a luta contra a ditadura fascista de Salazar poderia personificar, para Roberto das Neves subsistia a necessidade imperiosa de divulgar as ideias e as práticas do anarquismo no Brasil. Essa divulgação centrava-se sobretudo na edição de livros identificados com o anarquismo individualista, o naturismo, o vegetarianismo e o esperantismo. Com este propósito cria, em 1946, no Rio de Janeira a Editora Germinal. Desse modo, em 1955, edita de Rafael López del Palacio, Páginas Clínicas. De Sébastien Faure edita, em 1958, Provas da Inexistência de Deus. Ainda,em 1958, edita Cooperativa sem Lucros de Pedro Ferreira da Silva. Em 1960, de Emile Armand, edita Nova Ética Sexual. Em 1961 edita O Quinto Evangelho e o Manual Filosófico do Individualista, de Han Ryner. Em  1962, O Novo Israel, de Agoustin Souchy.  De José Oiticica, para além do Curso de Literatura, em 1960, edita Ação Direta, em 1970. Tenha-se presente também as seguintes edições: Macrobiótica-Zen, de Georges Obsawa, em 1968; Terapêutica Waerland, de Ebba Waerland, em 1968; Alimentação Waerland, de Ebba Waerland, s/d; Manual Waerland da Saúde, de Are Waerland, de 1968; Anarquismo: da Doutrina à Ação, de Daniel Guérin, 1968; O Cãncer – Doença da Civilização – Prevenção e Cura, do Dr. Floriano de Lemos, em 1970; Erros e Contradições do Marxismo, de Varlan. Tcherskesof, s/d; O Anarquismo e a Ciência Moderna, de Pedro Kropótkine, s/d; Jesus Vegetariano, de Karl Brandt, s/d; O Sistema Waerlan numa Casca de Noz, de Are Waerland, em s/d; Curso de Alimentação e Terapêutica Naturistas, de Rogério Malta, em s/d; Acunculptura, Alopatia, Homeopatia e Naturismo, de Paul Carton, em 1970; e Como Viver de Acordo com os Ensinos de Krishnamúrti, de A. Carneiro da Cunha, s/d.

Devemos realçar o fato destas edições terem sido objeto de traduções, prefácios ou de introduções de Roberto das Neves. Estes aspetos indiciam que Roberto das Neves transformou a sua atividade editorial numa função de luta primacial contra o Estado, contra o capitalismo, contra Deus e também contra a estupidificação da espécie humana na planeta terra. Para os devidos efeitos, escolheu os autores, interpretou-os e valorizou-os. Muito antes da queda do muro de Berlin em 1989 e já na década de 20 do século XX é deveras interessante saber que Roberto das Neves sempre foi um crítico da situação do comunismo na URSS, do marxismo e da ditadura do proletariado.

A incursão de Roberto das Neves nas atividades editoriais circunscritas à difusão das ideias e práticas do anarquismo no Brasil não se basearam na ação de outros autores que foram editados na Editora Germinal. Quando tinha quarenta e cinco anos publicou, nesta editora, Assim Cantava um Cidadão do Mundo (Poemas que levaram o autor 13 vezes às Masmorras da Inquisição de Salazar). Com quarenta e sete anos publica O Diário do Dr. Satã (Comentários Subversivos às Escorrências Quotidianas da Sifilização Cristã). Ainda dentro desta perspectiva sublinhe-se a sua colaboração no jornal anarquista Ação Direta, do Rio de Janeiro, entre 1946-1957. Assinale-se também a sua colaboração com o jornal anarquista A Plebe de São Paulo, no período de 1945 a 1950, e no jornal anarquista Remodelações do Rio de Janeiro, entre 1945 e 1947. Toda a ação militante de Roberto Neves no Brasil em prol da anarquia estendeu-se sobretudo ao Rio de Janeiro. Com a morte de José Oiticica em 1957, não admira, assim, que Roberto das Neves, com cinquenta e um anos, em 7 de março de 1958, participasse com outros anarquistas na criação do Centro de Estudos Professor José Oiticica (CEPJO). Desse grupo faziam parte: Ideal Peres, Esther de Oliveira Redes, Roberto Barreto Pedroso das Neves, António Francisco Correia (Edgar Rodrigues), Afonso Alves Vieira, Seraphim Porto,  Germinal Bottino, Manuel dos Santos Ramos, Francisco de Magalhães Viotti, Fernando Gonçalves da Silva; Pedro Gonçalves dos Santos, Enio Cardoso e Rual Vital (Atayde da Silva Dias). As actividades do CEPJO foram muito importantes nos primeiros anos, não obstante as dificuldades financeiras que surgiram entre 1960 e 1964. No geral, segundo Edgar Rodrigues, o CEPJO desenvolveu um conjunto de actividades significativas, tendo para o efeito criado: 1) Movimento Estudantil Libertário (MEL); 2) Grupo de Teatro Social (GRUPETS); Movimento  Pacifista Brasileiro; 4) Centro Internacional de Pesquisas sobre o Anarquismo no Brasil (Pietro Ferrua e Enio Cardoso); 5) Cineclube; 6) Centro Brasileiro de Estudos Internacionais; 7) Cursos, Palestras, Seminários e Conferências. Por outro lado, assinale-se também que o CEPJO criou a Editora Mundo Livre em 1962.

Roberto das Neves saíu do projeto CEPJO em 1960. Isso não obstou a que tivesse proferido duas conferências relacionadas com a Maçonaria e o Nacionalismo, Internacionalismo e Anacionalismo. Por outro lado, publicou dois livros na Editora Mundo Livre:  Marxismo Escola de Ditadores; A Fome em Portugal (em colaboração com Edgar Rodrigues).

Embora já estivesse numa dinâmica sob controle e vigilância da ditadura militar, a sede do CEPJO só foi assaltado pelos militares em Outubro de 1969. Como é normal nestas circunstâncias, foram presos alguns membros do CEPJO: Ideal Peres, Roberto das Neves, Pietro Ferrua, Fernando Gonçalves da Silva e Carlos Alberto Silva. Para além destes foram acusados pela Primeira Auditoria da Aeronáutica da 1ª  Circunscrição Judiciária Militar: António Costa, Manuel dos Santos Ramos, Paulo Fernandes da Silva, António Francisco Correia (Edgar Rodrigues), Eli Briareu de Oliveira, Mário Rogério Nogueira Pinto, António Rui Nogueira Pinto, Maria Arminda Sol e Silva, António da Silva Costa, Elisa da Silva Costa e Roberto da Silva Costa. O processo judicial perdurou entre 1969 e 1972. Todos os acusados, sem excepção, foram absolvidos.

Em Portugal, a ligação de Roberto das Neves com a maçonaria começou, em 1929, quando tinha vinte e dois anos. Não obstante, a sua divulgação foi basicamente desenvolvida no Brasil. A interdependência e a complementaridade que Roberto das Neves encontra entre o anarquismo e a maçonaria é bastante sintomática. Roberto das Neves encontra na ideia da maçonaria a hipóteses de combater a injustiça, a dominação e a alienação. O seu ateísmo identifica metaforicamente Lúcifer ao Dr. Satã. O pseudónimo de Satã serve-lhe perfeitamente para dinamizar as suas ideias e práticas no seio da maçonaria, daí que em 1948 Roberto das Neves tenha aderido à Loja  “Filantropria e Ordem”, no Rio de Janeiro, tendo como patrono da instituição,  o Grande “Arquiteto Universal”. Ser maçon funcionava como antídoto das premissas do Estado, de Deus  e da Igreja. Não era por acaso que, segundo ele, Sebastien Faure, Pedro Kroptokine, Miguel Bakunine, Malatesta, Ferrer y Guardia, José Oiticica, Proudhon, Emile Armand, Han Ryner, Maria Lacerda de Moura, Eliseu Reclus, etc, eram todos maçons:

Provas de Inexistência de Deus” tornadas públicas pela primeira vez, em Paris, numa série de conferências promovidas pelo Grande Oriente de França (maçonaria Francesa), e que a Editora Germinal acaba de reeditar, é uma das obras primas do pensamento maçónico e anarquista mais difundidos em todo o mundo. Sébastien Faure nasceu a 6 de janeiro de 1858 em Saint-Étienne (Loire, França) e faleceu a 14 de julho de 1942, com 84 anos, portanto em Ruão. Originário duma das famílias  mais burguesas e conservadoras de França, recebeu as primeiras luzes do ensino em estabelecimento religioso, cujos dirigentes, padres jesuítas, havendo farejado nele inteligência e vocação apostólica excepcionais, se apressaram em aproveitá-lo para o serviço da Igreja. Que terrível e dolorosa decepção a deles, quando, mais tarde, como acontecera com Voltaire, Lamenais e tantos outros grandes vultos do livre-pensamento, o viram convertido num dos maiores campeões da Maçonaria e do Anarquismo! As circunstâncias em que se operou a crise mental que o fez abandonar o redil da Igreja e  abraçar os ideais revolucionários, que se tornariam no motivo dominante da sua vida, conta-no-los ele próprio nas linhas que servem de intróito às “Provas da Inexistência de Deus”, sob o título “Porque vesti e despi a sotaina” (2).

As atividades de Roberto das Neves no Brasil, como maçon, para além da divulgação dos seus princípios elaborando introduções e traduções de livros de autores anarquistas maçons realizou uma série de conferências a mando da loja a que pertencia. Acreditando sempre na utilidade da maçonaria, a sua descrença na maçonaria brasileira era no entanto, uma realidade:

No Brasil, antes de fazer o seu testamento e ceder o lugar a outra instituição porventura mais preparada para lhe suceder como dínamo do progresso social, a atual Maçonaria, que no Brasil conta com cerca de 700 lojas – infelizmente, em sua maioria “adormecidas” ou quase – espalhadas por todo o território, poderia ainda realizar tarefas eminentemente úteis, em prol do estabelecimento dum mundo melhor” (3).

Um outro domínio que Roberto das Neves abraçou foi, sem dúvida alguma, o esperanto. Para ele o esperanto não era exclusivamente o culminar da evolução natural de todas as línguas para a perfeição comunicacional mundial da espécie humana. O esperanto era também e sobretudo a língua da emancipação social que derrubava todos os nacionalismos e patriotismos e, por essa via, levava a espécie humana para a anarquia.

 Depois de ter chegado ao Brasil, Roberto das Neves deu uma série de cursos sobre esperanto. Foi nesse âmbito que teve oportunidade de conhecer como aluna Maria Angélica Oliveira, com a qual casou no início da década de 1960. Desse casamento nasceu um filho a que também chamaram Roberto das Neves e vive atualmente no Rio de Janeiro. Diga-se de passagem que da primeira mulher com quem casou, Maria Jesusa Saiz y Diaz, Roberto das Neves teve uma filha chamada Primavera Acrata Saiz das Neves. Esta morreu em 1981 e foi casada com o coronel Manuel Pedrosos Marques que participou no assalto ao quartel de Beja, em 1962, quando era capitão do exército.

Uma das facetas mais importantes da vida e obra de Roberto das Neves no Brasil situa-se na divulgação do vegetarianismo e do naturismo no Brasil. Ao radicalismo que assumiu através dos textos que publicou e, consequentemente, as práticas de que daí advinham levavam Roberto das Neves a antagonizar-se com muitas pessoas e também com certas conceções de vida de alguns anarquistas. Roberto das Neves foi muito mais conciso e pródigo sobre as problemáticas naturistas e vegetarianas de que propriamente sobre as grandes teorias sobre o anarquismo. Assim sendo, tenha-se presente a publicação de Duodecálogo do Verdadeiro Macrobiótico; Método Infalível para Deixar de Fumar; e Você é Macrobiótico ou Vegetariano?.

Sendo um adepto incontornável do vegetarianismo demonstra-se um intransigente defensor dessa prática ao longo de toda a sua vida:

Quanto a mim, adoto, há sessenta anos, a dieta vegetariana. A ela, apesar de meia dúzia de transgressões, de que muito me arrependo, devo as maiores alegrias da minha vida, tanto físicas como espirituais, pois, gravemente doente desde tenra idade e condenado à morte, várias vezes, pelos médicos, recuperei a saúde graças ao vegetarianismo, e gozo de saúde boa desde que, há meio século, me libertei da estúpida superstição de que carne carne  cria, abolindo do meu cardápio todas as carnes, incluindo nestas as mais nocivas de todas, a de peixe e a de galinha, assim como os ovos, mais tóxicos ainda do que a carne, o peixe e a galinha juntos, e adotando, em substituição, o regime Waerland, a macrobiótica verdadeira e, em meu entender, o melhor de todos e o mais conveniente principalmente para os países tropicais, como o Brasil” (4).

A ação de Roberto das Neves no domínio do vegetarianismo não se limita a criticar todos aqueles que comem carne, peixe ou ovos, ou ainda os que fumam e bebem álcool. O fato de considerar que a boca não foi criada para servir de fumeiro é bem elucidativo da posição que Roberto das Neves toma em relação ao tabaco. No sentido de dar continuidade às suas opções vegetarianas, Roberto das Neves foi um dos fundadores e posteriormente conselheiro da Cooperativa dos Vegetarianos de Guanabara. Esta cooperativa estava situada em Papucaia, nos arredores do Rio de Janeiro. Sem ter hipóteses de reconstituir a data da criação desta cooperativa, os seus princípios e práticas, eram presididas pela produção e consumo de produtos naturais segundo os pressupostos do vegetarianismo e naturismo defendidos por Roberto das Neves.

Uma outra ação desenvolvida por Roberto das Neves quando chegou ao Brasil foi a profissão de grafólogo. Para esse efeito criou o Instituto de Pesquisas Grafológicas em 1946. Desde então conseguiu sobreviver, economicamente, realizando cursos, estudos e conferências sobre a grafologia. Por outro lado, com base nos conhecimentos que era possível adquirir através da grafologia, Roberto das Neves vendia os seus serviços a empresas, analisando a personalidade das pessoas que procuravam emprego e que correspondiam a um determinado perfil profissional.

Roberto das Neves morreu em 28 de Setembro de 1981, com setenta e quatro anos e vinte e um dias.

Sobre o que me foi possível analisar, para mim não existem dúvidas: seja em que perspetiva me coloque,  Roberto das Neves é,  indubitavelmente, um Cidadão do Mundo. Esta asunção decorre, em primeiro lugar, do espaço-tempo que atravessa a vida quotidiana da espécie humana no planeta Terra. O anacionalismo exacerbado e o antipatriotismo posicionam-no no fim dos exércitos e das bandeiras e, consequentemente, na inutilidade das pátrias e das fronteiras. O equilíbrio ecossistémico entre as espécies animais e vegetais foram, desse modo, uma exigência do vegetarianismo e do naturismo proclamado por Roberto das Neves. A adoção do esperanto como língua universal está dentro dos mesmos parâmetros das exigências do Cidadão do Mundo.

Em segundo lugar, não obstante ter sido um divulgador dos múltiplos anarquismos que interpretam, explicam e comprendem a anarquia de modo diferenciado, Roberto das Neves foi, sem dúvida, um apologista do anarquismo individualista e do anarquismo naturista. A identidade ideológica que mantinha em relação à obra de Émile Armand, Han Ryner e Maria Macerda de Moura são disso uma prova insofismável.

Por último, o ateísmo de Roberto das Neves passou muito pela sua militância no seio da maçonaria. Pode-se discutir da sua inserção nesse meio. Todavia, sabendo do peso da Igreja Católica Apostólica Romana em Portugal e no Brasil, talvez se perceba a tendência que muitos anarquistas tiveram para ingressar na maçonaria destes países.

Finalmente, penso que muitos dos ensinamentos que nos foi legado pela vida e obra de Roberto das Neves continuam atuais e são, cada vez mais, uma probabilidade histórica indiciadora de uma nova civilização

José Maria Carvalho Ferreira

(artigo original para a revista A Ideia e Portal Anarquista)

Referências Bibliográficas

 (1) A Comuna, Semanário Comunista Anarquista, nº 50 (140), 24-2-924, p. 4

 (2) Neves, Roberto (s/d), Entre Colunas, Rio de Janeiro, Editora Germinal, pp.70-71

(3) http://betodasneves.multiply.com/tag/editora%20germinal

(4) Neves, Roberto (s/d), Entre Colunas, Rio de Janeiro, Editora Germinal, p.134

Relacionado: entrevista com Roberto das Neves (aqui)

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