Dia: Maio 10, 2014

Moradores expulsos do Bairro Sta. Filomena ocupam igreja da Amadora


habita

Um grupo de quatro moradores e moradoras que ficaram sem casa em resultado dos despejos e demolições forçadas realizados no Bairro de Santa Filomena instalaram-se hoje, sábado 10 de maio, na Igreja Matriz da Amadora. Sem qualquer alternativa onde dormir, estas pessoas ficarão na Igreja pois procuram um tecto e este foi o único que encontraram.

A Câmara da Amadora (CMA) tem vindo a demolir vários bairros na Amadora, e ao contrário do que diz, tem deixado as pessoas que estão fora do PER sem qualquer alternativa. São centenas as famílias que já foram despejadas pela Autarquia. Vivem agora em casa de familiares, amontoam-se na sala de jantar de um primo, passam a sobreviver num carro, ou engrossam o numero de sem abrigo que estão já na rua. Ninguém está livre do despejo e do tratamento violento da CMA: mulheres, mães sozinhas e desempregadas, homens, crianças, idosos/as, desempregados, doentes, etc.

Na ultima semana a Câmara voltou a surgir no bairro Santa Filomena com a força policial, arrombando portas, retirando famílias dentro das suas casas e destruindo o único tecto que tinham. Uma dezena de pessoas ficou na rua: duas mulheres, duas crianças, um idoso, 8 pessoas desempregadas: uns estão em casa de familiares numa situação que é insustentável, outros estão a dormir na rua nos últimos dias.

Apoiamos esta acção e pedimos a solidariedade de todos e todas! Venham ter à Igreja Matriz da Amadora!

http://www.habita.info/

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Em defesa da anarquia


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´leonel mouraLeonel Moura (*)

O meu amigo Paco, cujo avô andou na coluna de Durruti a combater o franquismo, enviou-me o link de uma notícia sobre o recente naufrágio na Coreia do Sul que vitimou centenas de jovens. O artigo cita várias fontes governamentais e analistas atribuindo uma boa parte da responsabilidade por tanta mortandade à cultura da obediência. Tendo recebido ordem para ficarem fechados nos camarotes, a maioria aí esperou obedientemente pela morte. Em suma, como dizia Paco, salvaram-se os anarquistas.

Que a cultura da obediência mata sabemo-lo das guerras. A forte hierarquia militar não consegue vencer contra uma guerrilha ou o que agora se chama terrorismo. Os Estados Unidos, por exemplo, têm perdido todas as guerras ditas não convencionais desde o Vietname. A hierarquia só parece funcionar no plano do convencional, como se a guerra tivesse algo disso. E mesmo assim, nem sempre… Veja-se a quantidade de mortes por “fogo amigo”. Alguém diz dispara e a cabeça obediente atira sem ponderar as reais circunstâncias.

Mas a obediência à hierarquia não mata só nas guerras e nos desastres. Mina todos os dias a generalidade da atividade humana. Na família oprime, na escola estupidifica, no mundo do trabalho reduz a produtividade e a capacidade de inovação. Num país, como é o caso deste infeliz Portugal, essa obediência cega a quem manda arruina milhões de existências presentes e futuras. Já agora, porque a época é apropriada, foi por causa da obediência à autoridade que Portugal viveu meio século em ditadura fascista. E também só quando desobedeceu conseguiu finalmente a libertação no 25 de Abril.

Nos últimos anos muito se tem falado da necessidade de empreender e apostarmos, individual e coletivamente, na criatividade e na inovação. São milhares de PowerPoint com frases feitas e banalidades repetidas à exaustão. Mas raramente alguém diz que o essencial da criatividade reside na desobediência, na recusa em seguir regras, no fazer aquilo que a maioria diz que não se pode fazer. A verdadeira inovação não pode ser nem banal nem aceite. Porque se o for não é realmente inovadora. Uma ideia nova não pode ser compreendida à partida. Porque sendo de facto nova obriga a uma mudança de mentalidades e de comportamento. E isso, a cultura da obediência imposta pelos poderes de todo o tipo, dos políticos aos económicos, dos morais aos filosóficos, não aprecia e combate.

Não só por natureza, certamente por ter decidido muito cedo ser artista, defendo que a anarquia, entendida sobretudo como um pensar com a própria cabeça e agir em conformidade, é o melhor sistema social e aquele que garante uma vida mais livre e proveitosa. Anarquia não é pôr bombas, fazer o que nos apetece ou desprezar os outros. Pelo contrário, implica uma forte ética da responsabilidade e conduz a um comportamento muito equilibrado no relacionamento social. Porque não vivemos no melhor dos mundos a cada momento há que fazer escolhas, pois são elas que determinam o curso da história. Quanto mais livres e ponderadas forem essas escolhas maior é a possibilidade de contribuirmos para uma evolução positiva do Todo. É essa a essência da democracia desde o tempo dos gregos que a inventaram.

A subordinação a dogmas e ordens conduz à letargia, quando não a destinos trágicos. É por isso que à cultura da obediência, extrema nos sul-coreanos e outros orientais, donde se destacam aliás os seus irmãos da alucinada sociedade da Coreia do Norte, é preciso desenvolver uma cultura da desobediência. Não só à autoridade, mas acima de tudo na vida corrente. O que nos resta, na Europa e no Ocidente, enquanto capacidade de resistir à invasão chinesa, assenta em grande medida nesta maneira algo libertária de construirmos as nossas vidas. É dela que vêm as grandes invenções, a inovação tecnológica, o design inovador que ainda nos permite andar um pouco à frente da fabricação repetitiva do regime do grande número, dos baixos salários e ausência de direitos.

Enfim, a Europa será libertária ou não será nada.

(*) Artista Plástico

leonel.moura@mail.telepac.pt

aqui: http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/leonel_moura/detalhe/em_defesa_da_anarquia.html

(sugestão de A.P.)