Dia: Maio 11, 2014

(Filme) A morte do trabalhador


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Da Ucrânia à Indonésia, passando pela Nigéria, China e Paquistão, esta é a viagem que Michael Glawogger (3 Dezembro 1959 – 22 Abril 2014), cineasta austríaco, encetou em «Workingman’s Death», um épico admirável e provocador que se propõe denunciar o trabalho manual (e invisível) realizado nas mais extremas condições.
As imagens, impressionantes, tão depressa remetem para a contenção do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, como evocam o terrível inferno de Bosch. De estrutura episódica (assistiremos a cinco histórias: os «Heróis» de Donbass, na Ucrânia, os «Fantasmas» de Java, na Indonésia, os intrépidos «Leões» nigerianos, os «Irmãos» de Gaddani, no Paquistão, e, a esperança de um «Futuro» radioso na China), Glawogger compõe neste seu extraordinário documentário um verdadeiro hino ao trabalhador.

relacionado: http://revistasamuel.uol.com.br/conteudo/view/20564/Cinco_dos_trabalhos_mais_miseraveis_do_planeta.shtml

(A. sugestão por email)

(Opinião) O novo fascismo, por António Guerreiro (*)


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Assistimos hoje a uma Pasolini-renaissance, que reconhece uma enorme actualidade às reflexões críticas do poeta, cineasta e ensaísta sobre o seu tempo. Quase 40 anos após a sua morte, as análises e intervenções políticas de Pasolini parecem ter chegado ao momento da sua legibilidade, o que mostra que estamos perante um “homem póstumo”, um intempestivo, no sentido nietzschiano. Pasoliniana é a ideia, que começou a irromper nalguns círculos de reflexão política virados para uma ontologia da actualidade, de que está disseminado um “novo fascismo” na nossa existência quotidiana.

Quando hoje, em Portugal, comemoramos os 40 anos da conquista da liberdade e da democracia, todo o regozijo surge atenuado por uma ideia difusa, uma intuição para a qual a grande maioria das pessoas ainda não encontrou nome: a de que a liberdade e a democracia contemporâneas, que celebramos, convivem com este novo fascismo quotidiano, muito diferente do antigo, mas que, deste, mantém um conjunto de funções sociais que se combinam em estruturas diferentes. Ou seja, este novo fascismo, que do ponto de vista de um historiador parecerá um equívoco, revela-se uma categoria pertinente de um ponto de vista genealógico e estruturalista. O novo fascismo só se revela à luz de uma análise molecular, micropolítica, não é inerente a estruturas como o Estado, os partidos, os sindicatos, nem necessita da supremacia de um líder, de um Führerprinzip. O seu uso encontrou, em primeiro lugar, um princípio de justificação na ideia de que vivemos numa “sociedade de controle”.

Tornou-se evidente que a sociedade de controle (que todos nós sabemos hoje muito bem o que é, mesmo sem a ajuda de mediações teórico-filosóficas) desenvolveu a produção de bens e serviços imateriais e um modelo ético baseado na competição e no sucesso que deu origem a um fascismo empresarial. Na relação das empresas com os seus “colaboradores” (este novo nome para os trabalhadores vale com uma sintoma), o clima é friendly, o chefe não é um patrão, mas um líder, e a “cultura” empresarial que se constrói é sempre de colaboração e a-conflitual, orientada para uma “missão” e determinada por uma “visão”. Por trás, sustentando esta “cultura”, está o medo, não o grande medo inculcado pelo fascismo tradicional, mas os pequenos medos que o novo fascismo gere e multiplica. A experiência do medo é o factor primeiro deste novo fascismo e está hoje generalizado, em todos os ambientes de trabalho, até nas empresas mais liberais.

O novo fascismo, organizando estrategicamente as pequenas inseguranças que alimentam medos (antes de mais, o medo de ser despedido), apresenta-se como um pacto para a segurança, para a gestão de uma paz angustiante, fazendo de todos nós – e muito particularmente todos os colegas de trabalho – microfascistas. E há, depois, o novo fascismo cultural, a lógica da uniformização. Não através da anulação das diferenças entre os indivíduos, como o velho fascismo, mas produzindo uma homologação a partir da produção de diferenças (tudo é diferente, exactamente para que tudo seja igual). Este novo fascismo cultural tem como instrumento principal o editorialismo, que é o contrário do pensamento crítico. Este editorialismo generalizado está bem patente, no espaço público mediático, na proliferação do comentário político e opinativo que corrompe e intoxica a linguagem. Podemos então verificar que o novo fascismo tanto pode ser de esquerda como de direita, tanto habita a página ímpar do jornal como a página par, tanto se senta à direita como à esquerda do jornalista que apresenta o telejornal.

(*) António Guerreiro

Público, 07.05.2014

Ucrânia: anarquismo no contexto da guerra civil


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Nos últimos meses muitos têm sido os textos publicados sobre a Ucrânia. Há análises para todos os gostos. Quem reafirme o perigo fascista, quem aponte a actividade das milícias pró-russas como terroristas, quem preveja uma guerra civil de alta intensidade no terreno ou quem diga que os dados estão lançados e que a parte leste do país se vai unir à Rússia, como fez já a Crimeia, sem grande resistência por parte de Kiev. No dia em que os pró-russos («federalistas») levam a efeito um referendo no leste da Ucrânia e em que, em várias cidades, há combates de rua, publicamos o texto de Antti Rautiainen, um anarquista finlandês de 35 anos, profundo conhecedor de todo o contexto geoestratégico da região, já que viveu 12 anos na Rússia, de onde foi expulso em 2012 pelo governo de Putin. Rautiainen defende que é preciso evitar por todos os meios a guerra civil já em marcha e considera que o perigo fascista tem sido sobrestimado.

 Antti Rautiainen (*)

Na sexta-feira, 2 de Maio, um incêndio destruiu a União de Sindicatos em Odessa. No total, pelo menos 42 pessoas perderam a vida durante os confrontos na cidade, a maior parte delas no incêndio e os outros em combates de rua. Há um excelente texto em língua russa (com fotos), de uma testemunha ocular dos acontecimentos disponível aqui.

Os incidentes começaram quando milicianos armados antiMaidan e pró-Rússia atacaram uma manifestação organizada por hooligans com simpatias nacionalistas. Este ataque resultou nalgumas mortes, mas depressa os pró-russos foram contidos e regressaram ao seu acampamento de protesto em Kulikovo. Manifestantes pró-Kiev seguiram-nos e incendiaram-lhes o acampamento que ficou em chamas. Os pró-russos, em seguida, fugiram para a União dos Sindicatos, que rapidamente começou a arder. Neste vídeo é visível o fogo a espalhar-se. Aos 2 minutos, pode-se ver uma chama atrás de uma janela fechada, o que torna plausível que alguns dos focos de incêndio tenham sido iniciados a partir do interior. Por exemplo, devido a acidentes com cocktails molotov que foram usados ​​por ambos os lados durante a luta. No entanto, pode-se ver também os nacionalistas pró-ucranianos a atirarem cocktails molotov, tornando-os, pelo menos parcialmente,  responsáveis pelo incêndio.

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