Eleições: o ‘fantasma’ da abstenção percorre a Europa


abstenção

Do ponto de vista anarquista, que não atribui qualquer vantagem ao sistema representativo vigente – uma vez que no seu horizonte não está gerir a sociedade actual, mas transformá-la – a elevada taxa de abstenção das eleições europeias do passado domingo, não só em Portugal, como em muitos países europeus, é um dos dados mais significativos.

Não é que julguemos que a esmagadora maioria dos abstencionistas faça uma crítica rigorosa do sistema representativo ou que faça da abstenção uma alternativa activa e radical ao funcionamento das democracias capitalistas ocidentais. No entanto, consideramos que grande parte dos eleitores não vota por estarem fartos e enjoados até ao último dos cabelos pelo sistema partidário, pela hipocrisia dos políticos profissionais, pela homogeneização do discurso político em torno, apenas e só, das estruturas partidárias, não deixando qualquer espaço para a livre associação ou a horizontalidade das propostas cidadãs.

Estas quando existem – e seria bom que existissem cada vez em maior número e qualidade – têm que se organizar fora das estruturas políticas existentes, consolidando um espaço à margem, de intervenção e cidadania, que em nada beneficia da proximidade com qualquer estrutura partidária ou sindical profissionalizada.

Assim, os mais de 66 por cento de abstenção em Portugal e os 7 por cento de votos brancos e nulos revela uma absoluta descrença no sistema político de “democracia menor”, mediada pelos partidos, que existe em grande parte dos países europeus.

Por outro lado, a perda de cerca de 500 mil votos pelos partidos do governo PSD/CDS, entre 2009 e agora, não deixa também de ser significativo, uma vez que demonstra a perda de influência dos partidos que têm gerido o poder em Portugal.Quanto ao PS, que também faz parte do chamado arco da governação, teve um aumento de 60 mil votos mas isso não o impediu de estar a braços com uma grave crise interna.

A subida da CDU (PCP) e a descida do Bloco de Esquerda são irrelevantes e mostram que quer um partido quer outro estão limitados ao seu eleitorado de base ideológica e que apesar de algumas diferenças (nomeadamente em relação à Europa) o espaço político que ocupam é, cada vez mais, o mesmo.

A subida do Partido da Terra com a eleição de dois eurodeputados e o aumento da votação nos pequenos partidos deve-se também ao efeito de crítica do eleitorado face ao sistema – umas vezes abstendo-se, outras votando em quem não tem representação – e pouco mais representa do que isso.

Em termos europeus as votações foram muito diferentes. Houve países em que se temia um avanço da extrema-direita e ele não aconteceu, noutros tornou-se realidade, embora a representação da extrema-direita alemã não signifique o mesmo do que a vitória do partido antieuropeu britânico ou da Frente Nacional, em França.

Contudo, para os que dizem acreditar na virtualidade eleitoral, os resultados devem ser aceites: quem afirma acreditar e “vai a jogo” na democracia representativa não pode depois vir dizer que não aceita os resultados obtidos através das urnas. Como se os votos dos outros tivessem menos legitimidade do que os seus.

A subida da extrema-direita (e,  já agora, de alguns partidos de esquerda soberanistas e eurofóbicos) não é de hoje, mas prende-se com a falta de soluções encontradas no espaço europeu para ultrapassar a crise que a Europa vive há quase uma década, com o desemprego e a quebra de rendimentos e da protecção social.

O que está em causa é perceber – para quem considera que o capitalismo não é eterno e que a crise do sistema, até devido a causas ambientais, não é apenas momentânea, mas estrutural – que a decomposição do sistema de produção capitalista e a sua superação se começam a colocar com carácter de urgência.

A nova sociedade a construir terá que abolir as fronteiras e construir uma nova Europa, com instituições horizontais e sem directórios, em que os povos e as regiões tenham uma efectiva palavra a dizer. E isso não se consegue através de eleições para um Parlamento Europeu com centenas de deputados (os portugueses são apenas 21), eleitos em listas partidárias, quase sem poderes e face aos quais os eleitores perdem quaisquer possibilidades de destituição a partir do momento em que são eleitos, mesmo que achem que eles os deixaram de representar.

Destas eleições ressalta também a urgência em os movimentos radicais e alternativos consolidarem espaços e níveis de coordenação alternativos às mega-corporações (sejam empresariais, patronais, políticas ou sindicais oficiais) que, no território europeu, abram janelas de esperança e solidariedade para os milhões de trabalhadores que não se revêem nesta construção europeia nem no sistema político-eleitoral que lhe está subjacente, mas que não querem voltar à prisão dos estados-nação, com fronteiras a toda a volta, subjugados aos pequenos ditadores caseiros. O movimento dos trabalhadores sempre foi internacional e internacionalista e a causa por um mundo novo não cabe dentro das fronteiras de nenhum país, qualquer que ele seja.

L.M. (recebido por email)

rosanegra

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