Kati Horna, fotógrafa anarquista da Guerra Civil espanhola


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“Mulheres Combativas” – Fotografia de Kati Horna tirada em Veléz Rubio (Almeria), em 1937

Cosmopolita e vanguardista, nasceu na Hungria, foi amiga íntima de Robert Capa desde a adolescência e, como ele, viajou para Espanha para apoiar a República. O museu Jeu de Paume de Paris apresenta uma antologia de 150 obras suas que resumem o trabalho de seis décadas da artista, que morreu no México em 2000. Alheia aos desejos de reconhecimento e fama de Capa e também com maiores ambições intelectuais, Homa preferiu explorar o surrealismo.

Ainda que outros e outras tenham ficado com a fama, talvez tenha sido a fotógrafa mais comprometida com a causa do povo espanhol que se levantou contra o golpe de Estado franquista. Kati Horna (1912-2000) nunca procurou receber medalhas como a mais valente e temerária durante a Guerra Civil: preferiu retratar homens, mulheres, crianças e anciãos que a viviam e a sua vida quotidiana atrás das frentes de batalha, tão dura e brutal em ocasiões como esta. Uma retrospectiva no museu Jeu de Paume de Paris mostra 150 obras desta incansável lutadora, cosmopolita e vanguardista, e como acrescento quase frívolo, a namorada a que mais quis o também fotógrafo Robert Capa.

A exposição parisiense, que tenta condensar os sessenta anos de trabalho de Horna, traça o passo ziguezagueante de uma fotógrafa nascida na Hungria como Kati Deutsch, filha de uma família de banqueiros, mas receosa das comodidades e privilégios de um futuro acomodado. Preferiu mudar-se: aos 19 anos viajou a Berlim para conhecer o escritor antifascista Bertolt Brecht, cujo alerta para os perigos do nazismo que estava a nascer a levaram a participar em manifestações e protestos de rua; depressa regressou a Budapeste, onde, seguindo os conselhos recebidos do eminente László Moholi-Nagy, professor da Bauhaus que também conheceu na Alemanha, aprendeu os rudimentos da fotografia como ajudante de József Pécsi

“O insólito quotidiano”

Em 1932, dado o avanço do nazismo na Hungria, fugiu para Paris, onde trabalhou fazendo fotos fixas em filmes e assinou as suas primeiras reportagens para a Agence Photo: várias séries sobre mercados de rua e cafés nas quais procurava capturar o que denominava de “insólito quotidiano”, dando aos objectos tanto valor como às pessoas e empregando um sentido agudo de humor, sobretudo em historietas que assinou a meias com o desenhador surrealista alemão Wolfgang Burger em que humanizaram frutas e legumes para os fazerem protagonistas de histórias de amor ou de parábolas políticas.

Cada vez mais comprometida com os ideais anarquistas, em 1937 viajou para Espanha a fim de retratar a situação das aldeias colectivizadas de Aragão, levada a cabo pela Confederação Nacional do Trabalho, a poderosa central sindical ácrata. Em Julho do mesmo ano entrou como redactora para a revista “Umbral: Semanário da Nova Era”, uma das melhor desenhadas e com mais atenção dada, naquele tempo, à fotografia, e colaborou também, com as publicações anarquistas Tierra Y Libertad, Tiempos Nuevos e Mujeres Libres.

“Uma operária da arte”

Horna, que documentou a guerra até à evacuação de Teruel e que se definia a si mesma como “operária da arte”, possui uma qualidade humana mágixa que coloca os seres humanos por cima das situações. Tanto as imagens de milicianos como as de civis – entre elas as suas famosas e ternas “mães combativas” amamentando os filhos – procuram a respiração, aparentemente impossível, de humanidade no meio da barbárie, que deixou transparecer com maior clareza nas colagens cruéis como a  “Navidad em España”, 1937, em que os esqueletos expostos depois do bombardeamento de um cemitério estão acompanhados do texto: “Cristo abala e diz: ‘a partir de hoje já não sou eu o símbolo do sofrimento”

Um dos seus companheiro nas vicissitudes da guerra definiu Horna como “uma jovem com corpo de anciã, intransigente, mágica, intelegentissima, sábia, inesgotável, uma lutadora”. Outro, o fotógrafa Capa, a quem conhecia desde a adolescência, quando ambos viviam em Budapeste e quando ele ainda se chamava Endre Friedmann – adoptou o nome de Robert Capa para “americanizar-se”, costumava dizer, e “poder ganhar dinheiro” – lhe “tirou as medidas” com a insistência de qualquer mulherengo contumaz. Viveram uns meses de romance, interrompidos quando ela conheceu o amor da sua vida, o pintor andaluz José Horna, também colaborador de Umbral, com quem a fotógrafa se casou depois de fugirem ambos para o México em 1939.

Máscaras, fetiches e bonecos

No outro lado do Atlântico – para onde a seguiu o incansável Capa, que não se deu por vencido até que ela o teve que desiludir definitivamente -, a incansável Horna ligou-se aos surrealistas mexicanos, entre eles a grande Leonora Carrington. Continuou a fazer reportagens, mas começou a preferir temas menos descritivos, com muitas histórias onde procura o extraordinário através da presença de máscaras, fetiches e bonecos. Estas fotografias visionárias apaixonaram alguns dos criadores mais importantes do país durante a década de 60, desde a espanhola Remedios Varo até Alejandro Jodorowsky.

A retrospectiva de Paris contribuirá para o “reconhecimento internacional desta versátil e socialmente comprometida fotógrafa humanista”, dizem os organizadores, que destacam a “criatividade artística inusual” de Horna, a sua “contribuição para o fotojornalismo” e a inserção da sua obra nas vanguardas europeias da primeira metade do século, desde o construtivismo russo e a escola Bauhaus, até ao surrealismo e à nova objectividade alemã. A exposição divide-se em cinco períodos: os inícios em Budapeste, Berlim e Paris, entre 1933 e 1937; Espanha e a Guerra Civil; Paris novamente em 1939 e México.

Em 1979 Horna cedeu a Espanha 270 fotos tiradas durante a Guerra Civil. Algumas delas podem ver-se num bastante abandonado sítio da web dos arquivos nacionais. Mais frutífero é o ensaio “Kati Horna e a sua maneira quotidiana de captar a realidade”, de Alicia Sánchez Majorada (PDF).

Aqui  http://www.20minutos.es/noticia/2152085/0/kati-horna/fotografia/guerra-civil/

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“Vigiando depois do bombardeamento” – Milicianos vigiam objectos numa rua bombardeada. Em primeiro plano uma escultura religiosa. Fotografia de Kati Horna, Barcelona,1938

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3 comments

  1. Kati Horna, a fiel depositária das virtudes do movimento anarquista, “a mais comprometida com a causa do povo espanhol”, isto parece um concurso para apurar afinal, qual das duas fotografas da guerra civil, em causa, era mais virtuosa. Mas parece-me que a Kati Horna ganha, porque para além de feminista era anarquista e santa e boa esposa e não cedeu à tentação, foi sempre fiel, mesmo quando aquele malvado, do Capa, alegadamente, foi atrás dela, para o México. Sim, porque o Capa nem sequer gostava muito da Gerda Taro, foi uma coisa, passageira, viril como era, envolvia-se com todo um longo rol de mulheres, mas gostava mesmo, mesmo, era de Kati Horna, a boazinha e jamais de alguém como Gerda Taro ou de qualquer outra mulher.

    Essas duas preponentes da guerra civil dentro da guerra civil, jamais poderiam ser igualmente irreverentes, nem pensar, a anarquista tem de servir os propósitos do movimento anarquista, tem de ser melhor do que as outras. E por melhor, entenda-se, uma verdadeira nossa senhora, de acordo com a descrição feita no post do Colectivo Libertário de Évora. Fotografou crianças, idosas e anciães, o impacto da guerra no quotidiano de pessoas que não estavam na frente de batalha, tudo isso, porque, não estava interessada em medalhas, como a outra, essa mulher má, que nem sequer era anarquista, essa degenerada, só podia estar interessada nos louros, na fama e sabe-se lá mais em quê, porque por lá ficou, teimosa como era.

    A vossa lenga-lenga da coitadinha, tão esmerada, criativa e modesta, “receosa das comodidades e privilégios” que nunca foi reconhecida, em vez, de apostarem numa imagem de uma mulher que desafiou as tradicionais representações das mulheres, é na minha opinião, entediante e machista. Criar uma Kati Holmes, cuja vida tão preenchida que teve, tão invulgar, através daquio que ela não é – uma cabra, uma, interesseira, resumindo, um putéfia – só vos fica, bem, cambada de moralistas e machistas.

    Kati Horna, por ser mulher, anarquista, artista, sobretudo, surrealista, o que hoje é muito lindo, inócuo e matéria obrigatória no ensino secundário, na altura, era incompreensível para a maioria da população, que era analfabeta, a maioria das pessoas estava-se nas tintas para as maluqueiras de um punhado de criaturas, embora este punhado, tenha mudado para sempre, aquilo que se entende por arte, e Kati Horna tenha sido uma dessas pessoas. Mais admirável, é que se tenha movido, tão jovem, num meio predominantemente masculino, intelectual e radical. E não era por causa de Capa nenhum. Não foi atrás de homem, foi agarrar a vida. Nem se percebe porque é que dão tanta proeminência ao Capa, visto o post ser supostamente sobre a vida dela e, supostamente, sobre o movimento anarquista, o post é sobre o machismo nosso de cada dia.

    A vida de uma mulher, que no inicio do século XX, quando a maioria das mulheres não podiam frequentar cafés, usar calças, votar e tantas outras coisas, que eram marginalizadas e tratadas em conformidade, como alguém que tem, na melhor das hióteses lepra, podendo sofrer com isso, a consequente miséria económica, o isolmanto social e o desgaste emocional. Kati Horna, estava-se nas tintas, para as represálias, com 19 anos, foi para Berlim e convivia com os mais proeminentes intelectuais, do século XX, envolveu-se politicamente, lutou contra as assimetrias sociais, preocupou-se, não se deixou ficar indiferente, num periodo onde o Hitler foi eleito, que tantas pessoas acreditaram, em soluções totalitárias, o vosso artigo é alheio a isto tudo.

    Estou farta da exaltação da Bauhaus sem, nenhuma tentativa, de visivilizar as muitas mulheres que estavam relacionadas com a escola. Na Bauhaus, as mulheres, não podiam frequentar o curso de arquitectura. A arquitectura, essa “arte maior” não podia ser deixada nas mãos de pessoas tão inferiores, não lhes era reconhecida a categoria humana, eram uma sub-espécie, esta era a atitude da direcção da escola de artes mais “avant-garde” deste período e mais influente de sempre. As muitas mulheres que ingressaram na Bauhaus, concorreram em número superior ao dos homens, mas como é óbvio não são reconhecidas como eles o são. Só à poucos anos atrás, começaram a ser alvo de um tentativa de valorização, graças ao esforço de muitas feministas.

    A Guerra Civil Espanhola, foi o túmulo do movimento anarquista moderno, e haverá muitas coisas e dizer sobre o assunto, o que voçes escreveram, não me convence, nem um bocadinho, revolta-me.

    Ana Mateus (enviado por email)

  2. Ana Mateus:

    Como te deves ter apercebido este artigo é da tradução de um artigo de divulgação geral, publicado na imprensa a propósito da inauguração da exposição de Kati Horna em Paris. Não foi escrito por nós, nem tem – isso é evidente – uma perspectiva libertária. Limita-se a chamar a atenção para esta fotógrafa.Quem quiser saber mais irá procurar, por certo. Talvez estejas certa em tudo o que dizes, mas essa será a tua opinião. Nenhum de nós é conhecedor a fundo da obra de Kati para te podermos responder. Quanto aos juízos de valor e à agressividade ficam contigo, mas não deixa de ser verdade que reconheces em Kati Horna muitas das qualidades destacadas no artigo. Relativamente ao anarquismo e à sua tumba em Espanha não achas que estás a ser um pouco prematura em decretar a morte de algo que continua bem vivo? Mas lá saberás com que tipo de feminismo e de anti-anarquismo te coses. Não te gastes é em tanta agressividade e violência. Faz-te mal.

    josé

    1. Caro José,

      O que eu escrevi, não foi um comentário público, foi um email privado, faça o favor de o retirar.

      Cumprimentos

      Ana Mateus

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