(Estado Espanhol) Xeque ao Rei


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Depois de ontem o rei de Espanha ter anunciado que abdicava a favor do filho, centenas de milhares de manifestantes têm saído às ruas, por toda a península, exigindo o regresso da República, interrompida com a vitória franquista em 1939. E foi o mesmo Franco que, aquando da transição, decidiu, de novo, entregar o poder à realeza, chamando Juan Carlos que estivera exilado em Portugal para assumir as funções de chefe de Estado não eleito. Já em 1936, aquando do golpe militar e fascista anti-republicano, tinha sido em defesa da República, num primeiro momento, e da Revolução Social, num segundo, que milhares de trabalhadores – muitos deles anarquistas – se levantaram, de armas na mão, contra os militares golpistas.

Há quem se interrogue – mas afinal o que é que este debate entre República e Monarquia interessa aos anarquistas, para os quais qualquer forma de governo – seja republicano ou monárquico – deve ser abolida?

De facto, as opiniões dividem-se no meio libertário. Há quem defenda essa posição de princípio – somos contra o poder do Estado, independentemente de quem governa -, por isso este é um combate que não nos interessa.

Mas há também, no espaço libertário, quem considere que este é um combate importante para a construção de uma sociedade onde a democracia seja cada vez mais directa.

Sabemos que o Estado não se democratiza, vigore um sistema republicano ou um sistema monárquico. No entanto, a existência de um rei que vai passando o país de pais para filhos, como se de propriedade sua se tratasse, vivendo dos rendimentos públicos e assumindo um papel de destaque, em várias áreas, desde a diplomacia à cultura,  para o qual a maior parte das vezes não tem a menor competência, é um resquício medieval, arcaico e sem justificação.

No passado, muitos anarquistas estiveram na Europa e no continente americano profundamente embrenhados na substituição das monarquias por repúblicas (em Portugal os autores do regicídio foram anarquistas intervencionistas, ou seja, anarquistas que acreditavam que a República era um sistema mais democrático do que a monarquia).

Embora não defendendo o sistema parlamentar nem o voto em si, como instrumento para qualquer transformação da sociedade, muitos anarquistas – senão a totalidade do movimento libertário – consideravam e consideram que a liberdade de voto é preferível às ditaduras de regime único, onde o voto era limitado ou mesmo proibido, considerando que o objectivo da anarquia não é a diminuição da democracia e da liberdade, individual e colectiva, mas sim a sua extensão e alargamento a todos os domínios da sociedade.

Os anarquistas são por mais democracia (aqui não enquanto sistema político, mas enquanto o que a palavra quer dizer: “poder do povo”)  e não por menos democracia. Aliás, durante o período áureo do capitalismo de Estado, esse era um tema sempre aberto nas discussões com os marxistas que criticavam as “liberdades formais” da sociedade capitalista. Para os anarquistas, embora compreendendo que sem o fim da exploração não há liberdade completa e tendo uma leitura da sociedade em que a luta de classes está presente, qualquer “liberdade formal” é preferível à ausência de liberdade e a existência de “liberdades formais” não põe em causa a procura da liberdade e da existência plenas.

Também, nos sindicatos quando se pretendem aumentos salariais ou melhoria das condições de vida, na sociedade actual, isso não compromete a luta por uma sociedade diferente, sem exploração nem opressão, sem empregadores nem empregados.

Do mesmo modo, a substituição da monarquia pela república, não sendo um objectivo programático dos anarquistas, é uma luta em que muitos de nós estamos empenhados de maneira a pormos fim a uma noção de Estado deificado, quase de inspiração divina, em que um grupo de homens e mulheres, sem terem sido escolhidos por ninguém, tutela e dirige a sociedade – transmitindo esse “direito divino” por linha sucessória.

Num movimento em que há diferentes percepções da realidade – o que constitui uma das grandes riquezas do anarquismo, que não é um movimento unívoco, mas plural e diferenciador – é perfeitamente legítimo assumir uma ou outra posição.

Tão coerente é o jovem anarquista que se manifesta nas ruas da Galiza contra a monarquia, como o grupo asturiano que considera não se deixar enredar na luta entre monárquicos e republicanos. São duas opções não conflituantes de um mesmo olhar para a realidade circundante. E qualquer uma delas traduzindo uma capacidade reflexiva importante: de qualquer modo, em causa estará sempre o combate contra o poder do Estado e pela ampliação do espaço da liberdade, seja ela individual ou colectiva, sem messianismos de qualquer espécie. E nem a monarquia ou a república são capazes de conter toda a dinâmica de transformação existente nas propostas libertárias e que se consubstanciam na democracia directa e na construção de uma sociedade a partir de baixo, das organizações de base, não hierárquica e não autoritária.

r.t.

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