Estudantes e aborto: queremos avançar até uma educação não sexista


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Para muitos pode parecer estranho, à primeira vista, que o movimento estudantil se pronuncie sobre o aborto e faça ouvir a sua voz neste debate. No entanto, um dado faz cair terra essa aparente estranheza: as gravidezes de adolescentes são, na sua esmagadora maioria, de estudantes. Entre elas, a maior parte atinge as estudantes mais pobres, as que não recebem qualquer tipo de educação sexual ou afectiva nas suas  escolas precárias. Essas mesmas estudantes são assediadas nas ruas desde muito cedo. São, também, as que sofrem as disparidades de género evidenciadas por exames  padronizados e segregadores como o SIMCE (Sistema de Medição da Qualidade da Educação) ou a PSU (Prova de Selecção Universitária) e que assim vêem limitados os caminhos que estariam ao seu alcance.

Melissa Sepúlveda (*)

Há que reconhecer que as questões de género e as sexualidades não têm sido preocupações do movimento estudantil. Por isso mesmo, é necessário avançar no amadurecimento das e dos estudantes enquanto actores que assumem a educação como um espaço de transformação social num horizonte muito mais amplo. As reivindicações nos últimos anos têm relevado a natureza da educação como um direito social: isso tem como consequência que compreendamos o processo educativo como mais um elemento das nossas relações, inseparável ​​e profundamente ligado a elas. Por isso, temos divulgado posições sobre questões como a recuperação dos recursos naturais, a repressão dos povos nativos e pelo fim à insegurança no trabalho. Acreditamos que as mudanças não se conseguem sozinhas e que a tarefa de construir pontes entre os sectores em luta é uma tarefa de todas e de todos. E hoje, um dos sectores que se torna mais relevante é o da luta das mulheres pela soberania dos seus corpos, nas suas mais diversas expressões.

Como estudantes, parece-nos que o debate sobre o aborto abre um campo mais amplo e que urge discutir: a necessidade de uma educação não-sexista. Basta ler e escutar muitos argumentos que circulam por aí, muitas vezes através da mão, da escrita ou da boca das próprias mulheres. Se alguma coisa fica clara, depois de desfeita a confusão, é o peso que a moral sexual conservadora continua a ter quando se tenta falar sobre a autonomia do corpo das mulheres. Por isso, parece-nos necessário que as mudanças educativas de que o país precisa apontem para a construção e o fortalecimento de uma educação pública e laica, que fortaleça a nossa autonomia e ajude a desmantelar as formas de violência sexual e de género que se reproduzem na sala de aula.

As organizações estudantis que lidam com este assunto multiplicaram-se nos últimos anos. A declaração da Secretaria para as questões de género da Fech (Federação de Estudantes da Universidade do Chile) referia, recentemente, que “a liberdade de ensino deve ser regulada de modo a que a formação profissional não possa ser manipulada para impor visões da moral religiosa seja ao exercício das profissões seja à legislação vigente, uma vez que a Igreja e o Estado estão separados no Chile desde 1925. Insistimos em que é necessário implementar uma visão educativa de caráter laico, não-sexista, emancipadora e com perspectivas sobre as questões de género. ” Face às recentes declarações de autoridades universitárias, como o reitor da Universidade Católica, torna-se mais do que urgente que as e os estudantes discutam e se pronunciem sobre o assunto, de forma a elevar o conteúdo do debate sobre o aborto.

Como estudante, feminista e libertária considero que uma educação não-sexista significa também reconhecer o direito a decidir sobre os nossos corpos e asnossas sexualidades. É mais um passo no questionar que temos estado a fazer da educação no Chile. Nos últimos anos temos vindo a aprofundar a crítica, inicialmente sobre o financiamento da educação, até à orientação que se dá aos conhecimentos que se partilham. Procuramos orientar os recursos e os esforços da comunidade educativa no sentido da criação das bases de uma nova sociedade. O sistema educativo deve estar ao serviço de todo o Chile e não apenas de metade do país. Uma educação que não seja apenas para heterossexuais, mas para todos e para todas (mesmo para aqueles que não se sentem dentro do todos, nem do todas). Queremos construir uma educação que acabe com a segregação sexual nas escolas, que seja parte activa na superação do sexismo e da transfobia que reina nas instituições de ensino.

* Presidente da Fech (Federação de Estudantes da Universidade do Chile, a  a maior associação estudantil chilena) e militante da FEL (Frente de Estudantes Libertários) e de La Alzada, Accion Feminista Libertaria.

aqui: http://www.theclinic.cl/2014/06/12/estudiantes-y-aborto-queremos-avanzar-hacia-una-educacion-no-sexista/

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/12/06/jovem-anarquista-e-a-nova-presidente-da-federacao-de-estudantes-da-universidade-do-chile/

 

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