GONÇALVES CORREIA – a utopia de um cidadão, por Francisca Bicho


Capturar1Gonçalves Correia nasceu em 1886, portanto, na vigência do regime  monárquico em Portugal. Quando teve idade para pensar, Gonçalves Correia aderiu, como muitos outros, às ideias republicanas, pois como ele próprio escrevia em 1916 num artigo de discussão temática no Jornal A Questão Social N°.12 “(…) o regime republicano, é como regime político,  um pouco mais lógico que o regime monárquico (…)”. Contudo, e como afirmou na Carta a um Republicano, mesmo  antes da implantação da República já o seu ” (…) espírito pairava por outras  regiões (…) Por que compreendera já que isto de repúblicas e de monarquias é coisa muito parecida”, razão pela qual a alegria que sentiu em 5 de Outubro de 1910 foi uma alegria breve, dado que de imediato “(…)  via o negro interesse pessoal a manchar os intuitos puríssimos dos “idealistas”. (9)

Tendo presente a forma como definiu o seu posicionamento ideológico, Gonçalves Correia terá sido republicano até aos 25 anos, idade a partir da qual passou a ser “libertário” e nessa linha apresentou “O que somos e o que queremos” no seu Jornal A Questão Social (N°.1,Cuba, 1916) “Somos libertários – por indicação do nosso raciocínio (…) combatemos pelo triunfo da revolução social (…) a mais encantadora de todas as revoluções”.

Tendo ainda em conta o mesmo número do Jornal, podemos concluir que seguia (m) Kropotkine, Faure, Gráve, Malatesta (que referiremos como “anarquistas históricos”, para além de Réclus e Bakunine), aqueles que “têm vindo (…) pregando o amor, semeando a revolta, cantando avida, prestando culto à bondade e elevando a Justiça” . A Questão Social propõe-se (entre outras linhas orientadoras) ser um Jornal de propaganda, e em particular de propaganda anarquista, pelo que vai dando voz a todos os que assinam, ou não, textos com marca anarquista e sobre matérias atuais e relacionadas com os valores da liberdade, igualdade económica, fraternidade, tolerância, justiça, naturismo, mas também sobre a carestia de vida, a guerra (a Europa está em guerra). a emancipação do operariado e a revolução social.  Atrevemo-nos a afirmar que Gonçalves Correia lança e assegura o Jornal aos diferentes níveis, nele coloca um anúncio relacionado com a sua actividade de representação de casas comerciais e venda de diversos produtos, assina artigos, e não assinará outros, cuja paternidade talvez lhe pertença … no jornal  “sonha” com a sua Comuna da Luz.

De entre os anúncios que constituem a página a tal dedicada, lá encontra por exemplo Revistas como A Sementeira, O Vegetariano, mas também a Biblioteca d”‘Aurora” – Educação Sociológica, que integra Kropotkine, o Governo Revolucionário, Sindicalismo e Parlamentarismo…, Malatesta, Entre  Camponeses, A Política Parlamentar no Movimento Socialista, A Anarquia… , Sousa, Sindicalismo e Acção Directa, etc.

Pelo que escreve neste seu Jornal, mas através dos vários escritos em geral, Gonçalves Correia faz como que a “síntese” dos contrastes na forma dada à dualidade tratada, por um lado a sociedade burguesa, as realidades observadas nos seus males e desigualdades, e por outro a sociedade do futuro proposta por si e pelos seus camaradas, sem esses males, e tornando possível a harmonia, a luz, o amor, em suma, a felicidade de todos. Deve realçar-se também a forma interessante como expõe as suas ideias em diversas Cartas, que escreve por exemplo a um anarquista, a um advogado, a uma mulher … ou até mesmo ao Presidente da República, aquando da sua prisão em 1918.

Uma das poesias que escreveu designa-se exatamente Contraste (1958) e traduz a abismal diferença que observou entre uma mulher, descrita de forma a avaliar-se como tendo uma boa vida, porventura pertencendo à burguesia, e uma criança esfarrapada, filha de um pobre ignorado; mais, face ao contraste, Gonçalves Correia afirma desde logo o seu dever de se colocar de um dos lados, obviamente o da criança, o dos pobres.

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Na mesma linha, alguns dos seus artigos têm conteúdo que à partida pode não ser sugerido pelo título, assim por exemplo O Sofrimento Humano, escrito em 23 de Dezembro de 1931, põe a tónica no frio que corta o corpo daqueles que não têm condições para o combater, o que resulta afinal da injustiça duma sociedade que esquece o princípio de “amai-vos uns aos outros”, a mesma sociedade que em Castigar ou Perdoar? é acusada de não saber perdoar, mesmo às crianças, pois o roubo, até de pão, é castigado sem averiguar as causas, quando na perspetiva da doutrina de Gonçalves Correia o importante seria perdoar para afastar os erros. Em Os Crimes da Sociedade (O Chico Maria), esta figura popular em Beja, de inata vocação artística, é utilizada para exemplificar a situação de quantos são impedidos pela sociedade de desenvolver as suas capacidades no domínio da cultura e da arte, o que diz o nosso autor, não pode deixar de incomodar os que como ele são verdadeiros” rebeldes”.

E com estas referências se justifica perfeitamente que Gonçalves Correia apele a outro tipo de sociedade, e por outro lado, que em verso e em prosa se refira a Deus, para se considerar um crente desde que Deus signifique aquilo que a sociedade burguesa não oferece a todos – a liberdade, o amor, a água, o pão, o bem …

Capturar3Ora, a sociedade futura, aquela que Gonçalves Correia abordou na sua conferência de 1922 A Felicidade de Todos na Sociedade Futura, é apresentada como absolutamente oposta à sociedade burguesa do seu tempo, correspondendo a uma realidade bem diferente do capitalismo e do regime político republicano que conhecia, era a “sociedade dos produtores livres na terra livre!”, a “brilhante sociedade de amigos, a sociedade igualitária, a brilhante, a moralizadora sociedade anarquista!”.

Nessa nova sociedade, sem a tirania da propriedade privada, do salariato, do poder político, existiria amor, harmonia, luz, abundância de bens, felicidade, e os seus homens e mulheres seriam as crianças educadas no triunfo sobre a estupidez e a injustiça. Para a atingir, é preciso caminhar (Neno Vasco dizia hoje, amanhã e sempre), pela educação, organização, e através da ação direta que conduz à revolução social.

Como Gonçalves Correia escreveu em Carta a um Advogado, quando a Revolução chegasse, a Revolução do Amor, seriam libertados os que ajustiça burguesa fizera prisioneiros, e aos mesmos aberto o caminho da educação, a igualdade económica tornar-se-ia realidade, as tabernas abolidas, recuperadas as raparigas perdidas, destruídos os meios da governação. Correia refere o papel dos Professores na instrução dos milhões de crianças por esse mundo, e em Cultura Humana (1925) escreve sobre a educação das crianças, que não seja o reles e insignificante “B-á-b-á”, mas uma educação para os valores, embora reconheça a seguir que tal não é possível numa sociedade em que os grandes dominam os pequenos.

Ainda no âmbito da educação se pode integrar a “campanha” pelo Naturismo, quer seja o amor pela Natureza quer seja a defesa de uma alimentação naturista. Assim, A Questão Social faz-se eco da importância do Naturismo e o próprio Gonçalves Correia escreve sobre O que devemos comer? defendendo uma alimentação com base em alimentos crus, pois se o homem inventou o fogo, antes disso ele era por natureza “crudivoro”.

Um outro aspeto relevante no pensamento destes homens avançados era a questão da organização, a Associação, sendo de todo o interesse a forma como Gonçalves Correia se lhe refere em Carta a um Anarquista, a quem dirige várias perguntas que traduzem no fundo os objetivos da organização de base -“Que tal de progressos aí pela associação? Tem aumentado o número de sócios? São já mais vastas as instalações da sede? Os associados vão criando gosto pela agremiação? O espírito de solidariedade tem criado raízes entre os rurais de aí? Já eles conseguiram o aumento de salário em que pensavam? Já frequentam o curso nocturno com mais assiduidade? Já lêem com prazer os jornais avançados? Já alguns são assinantes de publicações anti-políticas? Já puseram de parte a taberna? Já deixaram de fumar? Já são mais amigos das companheiras? Já se não curvam tanto ante o despotismo dos mandantes?”. (10)

A resposta a este conjunto de perguntas permitiria avaliar do estado da associação e dos associados, em termos de número mas também de consciencialização e resultados obtidos, portanto, também do trabalho que ainda se impunha fazer, pelo que Gonçalves Correia pedia resposta e afirmava” …não se esqueça você, meu caro Lourenço, que temos ainda muitas léguas a percorrer”. (11)

A importância de ler “jornais avançados” remete-nos de novo para o jornal local A Questão Social no qual Gonçalves Correia se refere por exemplo aos “jornalistas alugados – vendidos”, por assumirem a defesa dos interesses da burguesia e denegrirem as organizações operárias, sendo também de realçar a “doutrinação” que as suas páginas permitem, através de artigos diversos de que pode fazer a síntese esta afirmação de G. Correia “( … ) está provado que o operariado, se quer viver e ser livre, tem de ser consciente o mais possível, trocando o papelinho de votar pelo alargamento consciente do raciocínio (… )”, pois só assim caminharia para a sua emancipação e para a “guerra social” que os soldados – proletários deveriam desencadear depois da guerra (I Guerra).

Sobre a “conquista” do Alentejo para as ideias revolucionárias, a propaganda e organização, o mesmo órgão de imprensa informa-nos que em Março de 1915 foi criada em Vale de S. Tiago a Secção da Associação dos Trabalhadores do Concelho de Odemira, que evidenciamos pela razão óbvia da ligação de Gonçalves Correia a esta aldeia.

A propósito de “Como era a Associação? “, e em homenagem a Francisco Mestre, de Vale de Santiago, revolucionário nos movimentos de 1918, mas também a Francisco Canais Rocha e Rosalina Labaredas, que o ouviram em 1981 registando para futuro as suas palavras, destaque-se: –Claro, era muito forte. Além da Associação de Odemira havia em Vale de Santiago, Santa Luzia, Panoias, estava tudo minado. E tínhamos ligação com a sede da União Operária Nacional em Lisboa (… ) Cá na Associação discutíamos o desemprego, a forma de arranjarmos trabalho e exigíamos que eles fabricassem as terras, mas eles nem as fabricavam nem as entregavam. Falavam lá na Associação o Campos e o Chico Paulino, que tinha sido propagandista da República, mas depois quando viu que só defendiam a burguesia pôs-se contra, mas ele tinha conversa que era capaz de revoltar um povo. Ele e o Gonçalves Correia (… )”. (12)

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Vale de Santiago foi a terra de eleição onde Gonçalves Correia encontrou por perto aqueles 3 quilómetros de terra para na prática construir a “cidade da luz” que idealizava em A Questão Social (N°s.5 e 6), apresentando-a de forma pormenorizada como se fosse já uma realidade, o ensaio da vida em comunismo, na Comuna da Luz, sem propriedade privada, sem leis e autoridade, desenvolvendo uma educação racional para os valores supremos que constituíam o seu pensamento e iriam criar uma geração não fumadora, não alcoólica, não pervertida, uma comunidade que permitiria a observação da felicidade em todos os elementos “agregados”.

Refira-se, aliás, que no N°. 3 e em artigo não assinado, mas porventura da autoria de Gonçalves Correia, é defendida a importância de demonstrar, em colónias libertárias, “( … ) que a espécie humana pode viverfeliz em sociedade e atingir o seu máximo desenvolvimento (… )”, pelo que tal iria ocorrer logo que reunidas as condições para viver, já que existia o principal capital”(… ) a nossa vontade invencível (… )”. Raul Brandão sintetiza o que lhe referiu Gonçalves Correia sobre a Comuna, a forma como os trabalhadores de Vale de Santiago a observavam com simpatia, enquanto os ricos fomentavam a guerra, que facilmente foi dimensionada aquando da greve de Novembro de 1918, como se os acontecimentos de Vale de Santiago tivessem “o foco” na Comuna. Gonçalves Correia não estava lá, mas foi preso em Beja, assim noticiava o Jornal “O Porvir” de 30 de Novembro de 1918, acusado, obviamente, de ser o mentor dos alegados excessos cometidos. A Comuna da Luz teve o seu fim, virá a suceder-lhe a Clarão, em Albarraque, duas experiências do sonho de um libertário.

Enquanto o Jornal A Folha de Beja se refere a crimes praticados e os relaciona com o perigo que vinha representando a associação anarquista de Vale de S. Tiago e a propaganda dos seus dirigentes ( … ) O Porvir (Beja) considera Gonçalves Correia um homem honesto, honrado, que podendo ser fanático “por ideias avançadas (não era seguramente) um criminoso”. Em Lisboa, o Diário de Notícias fez-se eco das notícias de A Folha de Beja, e Gonçalves Correia defende-se através de carta escrita da cadeia do Limoeiro, de onde também escreve ao Porvir, agradecendo as palavras e manifestando a certeza no triunfo da justiça e do amor. Gonçalves Correia, o amante da Liberdade, até para os passarinhos, encontra-se privado dela, e como afirma em Carta ao Presidente da República, pelo “crime” de amar a Justiça e a Humanidade, afinal o mesmo que o levará de novo à prisão em 1932 e a ser alvo do Estado Novo.

Capturar6Se expressava o seu desejo sobre o triunfo do Amor na sociedade, Gonçalves Correia igualmente manifestava em Carta a uma Mulher o seu pensamento sobre o amor livre entre homem e mulher, numa união natural e sem a necessidade do casamento, esse “preconceito social“, como que a seguir o anarquista Réclus, que abençoou a união da sua filha com o homem amado.

E se homens e mulheres vivem a todos os níveis “desonrados” pela “imoralidade” que os cerca, interpretando as suas palavras em A Moral do Futuro, afirma ainda Gonçalves Correia que só nesta se pode concretizar o Ideal que de várias formas explanou, e que para outros é a utopia, já que ele acredita ser possível no seu sistema de comunismo e fraternidade.

Francisca Bicho

(9) – GONÇALVES CORREIA, António – “Estreia de um Crente”, cito por Francisco Quintal, ln – “a ideia”, Revista de Cultura e Pensamento Anarquista, N°, 20-21, Lisboa, 1981 (10); (11) – GONÇALVES CORREIA, António – “Estreia de um Crente”, cit. por Francisco Quintal, ln – “a ideia”, Revista de Cultura e Pensamento Anarquista, NO. 20-21, Lisboa, 1981 (12) – CANAIS ROCHA, Francisco e LABAREDAS, Maria Rosalina – “Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo”, Lisboa, Edições 1 de Outubro, 1982, pp.1D2

http://adbja.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/6/2014/01/5-Abordagem-ao-pensamento-de-Goncalves-Correia.pdf

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