Dia: Outubro 6, 2014

A GRANDE GUERRA DE 1914-1918 E O MOVIMENTO LIBERTÁRIO [apresentação de dois documentos]


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Cartazes de 1912 e 1913 da Federação Comunista Anarquista (França): “Se a guerra começa… o que faremos”. A 12 de Novembro de 1912, numa altura em que o conflito dos Balcãs conduz a Rússia e a Áustria à beira da guerra, ameaçando envolver toda a Europa, a Federação Comunista Anarquista (FCA) faz um apelo publico à “sabotagem da mobilização”, nomeadamente através da sabotagem das vias de comunicação. Na tribuna estiveram Pierre Martin (do Libertaire), Édouard Boudot e André Mournaud (da FCA). Georges Dumoulin (da CGT) acabou por não estar presente. Para a FCA, este comício foi a gota de água. A repressão policial virou-se contra ela e os seus activistas foram presos ou fugiram para o estrangeiro.

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Num momento em que se assinalam os 100 anos do início da Grande Guerra (1914-1918) recordam-se também as duas posições antagónicas em que se dividiu o movimento anarquista. De um lado, os intervencionistas, do outro, os opositores à guerra. Em cada grupo estiveram anarquistas destacados e os argumentos usados por cada um dos lados eram fundamentados. Foi uma divisão forte e fracturante do movimento anarquista que teve também repercussões no futuro. Colocou em trincheiras diferentes companheiros que sempre tinham lutado em conjunto e azedou alguns relacionamentos. Cem anos depois, no entanto, o distanciamento permite dizer, como o faz António Cândido Franco, que “o que tão criticado foi na primeira grande guerra, o intervencionismo ao lado dum dos beligerantes, acabou por ser adoptado na segunda grande guerra sem polémica, de forma quase consensual, pelo anarco-sindicalismo espanhol e francês, sendo ainda hoje motivo de orgulho para os companheiros dessas organizações o episódio da participação de muitas centenas de militantes anarquistas ibéricos na libertação de Paris, em Agosto de 1944, a célebre nona companhia, integrada no decisivo regimento do general Leclerc, que foi a primeira divisão militar a entrar na cidade libertada.”

António Cândido Franco (*)

A primeira grande guerra iniciou-se nos primeiros dias de Agosto de 1914 e desde logo dividiu o movimento libertário em duas correntes distintas, ou até contrárias, uma intervencionista, contra os impérios centrais, a favor das potências aliadas, na qual sobressaiu Kropotkine, que logo no outono de 1914 – já em 1905 afirmara na revista Temps nouveaux que uma nova desfeita da França seria uma desgraça para a civilização – tomou posição a favor duma vitória militar sobre a Alemanha, e outra, neutralista, na qual se destacaram Errico Malatesta, Emma Goldman e Alexander Berkman, que pretendeu ficar fiel aos princípios anti-belicistas. As duas correntes abriram caminho ao longo do conflito, chegando o pico da discórdia em final de Fevereiro de 1916, momento da redacção do manifesto dos dezasseis, em que se defendia a necessidade de prosseguir o esforço de guerra. O texto, subscrito por quinze militantes anarquistas, quase todos de renome internacional, foi publicado pouco depois, a 14 de Abril, no diário sindicalista francês La Bataille. A resposta da corrente contrária não tardou a surgir, no número do mês de Abril do jornal Freedom, pela mão de Malatesta, com o título “Anarquistas partidários do governo”. São esses dois documentos que de seguida se apresentam, lado a lado, cremos que pela primeira vez, ao leitor português.

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