A GRANDE GUERRA DE 1914-1918 E O MOVIMENTO LIBERTÁRIO [apresentação de dois documentos]


fca1

Cartazes de 1912 e 1913 da Federação Comunista Anarquista (França): “Se a guerra começa… o que faremos”. A 12 de Novembro de 1912, numa altura em que o conflito dos Balcãs conduz a Rússia e a Áustria à beira da guerra, ameaçando envolver toda a Europa, a Federação Comunista Anarquista (FCA) faz um apelo publico à “sabotagem da mobilização”, nomeadamente através da sabotagem das vias de comunicação. Na tribuna estiveram Pierre Martin (do Libertaire), Édouard Boudot e André Mournaud (da FCA). Georges Dumoulin (da CGT) acabou por não estar presente. Para a FCA, este comício foi a gota de água. A repressão policial virou-se contra ela e os seus activistas foram presos ou fugiram para o estrangeiro.

Fca

*

Num momento em que se assinalam os 100 anos do início da Grande Guerra (1914-1918) recordam-se também as duas posições antagónicas em que se dividiu o movimento anarquista. De um lado, os intervencionistas, do outro, os opositores à guerra. Em cada grupo estiveram anarquistas destacados e os argumentos usados por cada um dos lados eram fundamentados. Foi uma divisão forte e fracturante do movimento anarquista que teve também repercussões no futuro. Colocou em trincheiras diferentes companheiros que sempre tinham lutado em conjunto e azedou alguns relacionamentos. Cem anos depois, no entanto, o distanciamento permite dizer, como o faz António Cândido Franco, que “o que tão criticado foi na primeira grande guerra, o intervencionismo ao lado dum dos beligerantes, acabou por ser adoptado na segunda grande guerra sem polémica, de forma quase consensual, pelo anarco-sindicalismo espanhol e francês, sendo ainda hoje motivo de orgulho para os companheiros dessas organizações o episódio da participação de muitas centenas de militantes anarquistas ibéricos na libertação de Paris, em Agosto de 1944, a célebre nona companhia, integrada no decisivo regimento do general Leclerc, que foi a primeira divisão militar a entrar na cidade libertada.”

António Cândido Franco (*)

A primeira grande guerra iniciou-se nos primeiros dias de Agosto de 1914 e desde logo dividiu o movimento libertário em duas correntes distintas, ou até contrárias, uma intervencionista, contra os impérios centrais, a favor das potências aliadas, na qual sobressaiu Kropotkine, que logo no outono de 1914 – já em 1905 afirmara na revista Temps nouveaux que uma nova desfeita da França seria uma desgraça para a civilização – tomou posição a favor duma vitória militar sobre a Alemanha, e outra, neutralista, na qual se destacaram Errico Malatesta, Emma Goldman e Alexander Berkman, que pretendeu ficar fiel aos princípios anti-belicistas. As duas correntes abriram caminho ao longo do conflito, chegando o pico da discórdia em final de Fevereiro de 1916, momento da redacção do manifesto dos dezasseis, em que se defendia a necessidade de prosseguir o esforço de guerra. O texto, subscrito por quinze militantes anarquistas, quase todos de renome internacional, foi publicado pouco depois, a 14 de Abril, no diário sindicalista francês La Bataille. A resposta da corrente contrária não tardou a surgir, no número do mês de Abril do jornal Freedom, pela mão de Malatesta, com o título “Anarquistas partidários do governo”. São esses dois documentos que de seguida se apresentam, lado a lado, cremos que pela primeira vez, ao leitor português.

O manifesto dos dezasseis teve uma importância considerável na evolução do movimento libertário, criando divisões e paralisias num movimento até aí muito dinâmico, ainda que também muito heterogéneo. A repercussão da polémica alargou-se a toda a Europa, quer aos países alinhados na guerra, quer aos neutrais. Por exemplo no caso espanhol, país que não chegou a participar de forma directa na guerra, não tomando posição por nenhum dos lados, o declínio ou o apagamento de Ricardo Mella, a quem Juan Gómez Casas chama o maior e mais original teórico do anarquismo espanhol (Historia del anarcosindicalismo español, 1978: 116), deveu-se à posição intervencionista, aliadófila, que defendeu no seio da CNT e que foi combatida pelo sector catalão, maioritário, da organização.

Também em Portugal o movimento libertário foi sacudido pelas ondas de choque desta polémica, acabando por se dividir em dois campos distintos. Dum lado ficaram militantes como Neno Vasco, Manuel Joaquim de Sousa, Clemente Vieira dos Santos, Serafim Lucena e Mário de Azevedo, defendendo posições contrárias à guerra no jornal portuense A Aurora, e do outro deparamos com activistas como Emílio Costa, Adolfo Lima, Severino de Carvalho, Bernardo de Sá e Miguel Córdova, mostrando, no jornal lisboeta Germinal, a necessidade duma intervenção contra a Alemanha. Sobre a questão que então cindiu o movimento em Portugal pronunciou-se deste modo o historiador António Ventura (Emílio Costa e o Sindicalismo, Seara Nova, 1977: 32-3): Em Fevereiro de 1916, reaparece Germinal, agora mensário, e num formato mais pequeno. O director continua a ser Emílio Costa e a propriedade do grupo Germinal. E continuam as acesas polémicas entre os “guerristas” e os “anti-guerristas”, espalhando a discórdia e a intriga entre propagandistas que até ali e durante muitos anos, haviam colaborado lado a lado na divulgação das ideias libertárias em Portugal. Este conflito terá resultados nefastos em especial na actividade futura destes propagandistas, aprofundaram-se ressentimentos, os ataques pessoais substituíram a crítica de posição, todos os argumentos eram válidos, inclusivé os forjados e as calúnias, para tentar desacreditar o adversário. Não mais será possível colmatar as brechas abertas no movimento libertário nacional. As feridas deste conflito permanecerão abertas muito para lá da república democrática, reacendendo-se por exemplo em 1950, depois da publicação dum artigo de Emílio Costa no República.”

A forma como o movimento olhou posteriormente para esta crise, reputada como grave, não está ainda hoje, cem anos depois, isenta de paixões e exaltações. Ainda há pouco o comité de redacção do jornal da Federação Anarquista francesa, Le monde libertaire (n.º 1732, 13 de Fevereiro de 2014, p. 12), dizia numa curta nota de apreciação que a posição do manifesto dos dezasseis não era apenas um erro de doutrina ou de táctica mas uma manifestação altamente lamentável. Olhando com o máximo de imparcialidade os argumentos dos dois lados não se percebem porém razões para juízos tão severos. Aceita-se sem esforço a defesa do princípio não intervencionista defendida por Malatesta, Emma e Berkman, posição que entre nós foi subscrita por Neno Vasco, e que concitou o apoio majoritário dum movimento que sempre se mostrara visceralmente adverso ao espírito militar bélico, mas já se percebe menos a dificuldade em lidar, ontem como hoje, com a posição contrária, sobretudo se pensarmos que esse mesmo movimento se habituara a conviver desde o seu ADN inicial com posições antagónicas, encontrando um equilíbrio singular e um dinamismo próprio não a partir duma unidade rígida de pensamento mas duma diversidade contrastiva de ideias.

Demais o que tão criticado foi na primeira grande guerra, o intervencionismo ao lado dum dos beligerantes, acabou por ser adoptado na segunda grande guerra sem polémica, de forma quase consensual, pelo anarco-sindicalismo espanhol e francês, sendo ainda hoje motivo de orgulho para os companheiros dessas organizações o episódio da participação de muitas centenas de militantes anarquistas ibéricos na libertação de Paris, em Agosto de 1944, a célebre nona companhia, integrada no decisivo regimento do general Leclerc, que foi a primeira divisão militar a entrar na cidade libertada.

Peter_Kropotkin_circa_1900

Kropotkin

1. O MANIFESTO DOS DEZASSEIS

De vários lados, levantam-se vozes para pedir a paz imediata. “Basta de sangue derramado; basta de destruição”, dizem, “é tempo de acabar duma forma ou de outra”. Mais do que ninguém, e desde há muito, manifestamo-nos nos nossos jornais contra qualquer guerra de agressão entre os povos e contra o militarismo, adorne-se ele de capacete imperial ou republicano. Ficaríamos muito satisfeitos de ver as condições de paz discutidas, se tal fosse possível, pelos trabalhadores europeus, reunidos num congresso internacional. Do mesmo modo que o povo alemão se deixou enganar em 1914, se é que acreditou de verdade que o mobilizavam para a defesa do seu território, já teve agora tempo de se aperceber que foi enganado e que o atiraram para um guerra de conquistas.

De feito os trabalhadores alemães, ao menos os das organizações mais avançadas, devem hoje compreender que os planos alemães de invasão da França, da Bélgica e da Rússia estavam já preparados há muito e que se esta guerra não rebentou em 1875, em 1880, em 1911 ou em 1913 foi apenas porque as relações internacionais não apresentavam então uma forma tão favorável e os preparativos militares, capazes de garantirem uma vitória à Alemanha, ainda não estavam seguros (linhas estratégicas para acabar, canal de Kiel para alargar, canhões de assédio a aperfeiçoar). Neste momento, depois de vinte meses de guerra e de estragos horrorosos, eles devem perceber que as conquistas empreendidas pelo exército alemão não podem ser mantidas. Tanto mais que é preciso reconhecer o princípio – já aceite pela França em 1859, depois da derrota da Áustria – de que só a população dum território, através da sua expressão, pode caucionar ou não a sua anexação.

Se os trabalhadores alemães começarem a compreender a situação como nós a compreendemos, e como uma pequena minoria dos sociais-democratas a começa a entender, e caso se possam fazer escutar pelo seu governo, teremos aí um campo de entendimento para iniciar a discussão respeitante à paz. Mas eles deveriam declarar que se recusam de forma clara a fazer anexações territoriais ou a aprová-las; que eles renunciam à pretensão de receber “compensações” das nações invadidas; que eles reconhecem o dever do Estado alemão de reparar, na medida do possível, os danos materiais causados pelos invasores aos seus vizinhos; que eles não pretendem impor condições de sujeição económica com o nome de tratados comerciais. Lamentavelmente não se vê, até ao presente, sintomas dum tal despertar do povo alemão.

Falou-se da conferência de Zimmerwald, mas faltou a este fórum o essencial: a representação dos trabalhadores alemães. Deu-se também grande importância a alguns motins que ocorreram na Alemanha, no seguimento da carestia dos víveres. Esquece-se porém que em todos os grandes conflitos militares houve sempre idênticos levantamentos, sem que isso acabasse por influenciar o seu curso. Também as medidas tomadas pelo governo alemão provam que se está a preparar para novas agressões com a chegada da Primavera. Mas como também sabe que na Primavera os aliados terão para o combater novos exércitos, apetrechados com novos equipamentos e com uma nova artilharia bem mais poderosa do que a anterior, procura assim semear a desunião no seio das populações dos países aliados. E emprega com esse objectivo um meio tão velho como a própria guerra: espalhar aos quatro ventos o rumor duma paz próxima, à qual só não seria aceite pelos militares e pelos industriais do armamento. Foi nisto que Bülow, em conjunto com os seus secretários, se aplicou durante a sua recente visita à Suíça.

Em que condições sugere ele, porém, a paz? A Neue zeuercher zeitung crê saber e a publicação oficial, Norddeutsche zeitung não contradiz, que a maior parte da Bélgica seria evacuada, mas com a condição de dar garantias de que não voltaria a repetir aquilo que fez em Agosto de 1914, quando se opôs à passagem das tropas alemãs. Que garantias seriam essas? As minas de carvão belgas? O Congo? Não se diz. Mas desde já se avança com uma alta contribuição financeira anual. Por outro lado o território francês ocupado seria restituído, e do mesmo modo a parcela da Lorena onde se fala francês. Mas, em troca, a França deverá transferir ao Estado alemão todos empréstimos russos, que ascendem ao valor de dezoito milhares (de francos). Dito de outro modo, o Estado alemão recebe uma indemnização de dezoito milhares dos trabalhadores agrícolas e fabris franceses, pois são eles que pagam os impostos. Dezoito milhares para pagar dez províncias, que, pelo seu trabalho, foram ocupadas ricas e opulentas e serão resgatadas arruinadas e destruídas.

Quanto a saber o que se pensa na Alemanha das condições de paz, um facto é certo: a imprensa burguesa prepara a opinião pública para a ideia da anexação simples da Bélgica e dos departamentos do Norte da França. E não há força, na Alemanha, capaz de se lhe opor. Os trabalhadores, que deveriam ter elevado a sua voz contra a política militar de ocupações, não o fazem. Os operários sindicalizados deixam-se arrastar pela retórica imperialista e o partido social-democrata, demasiado fraco para influenciar as decisões do governo sobre a paz, mesmo se representasse uma parcela massiva, encontra-se dividido em duas facções inconciliáveis, sendo a maior das duas favorável à política militar do governo. O império alemão, conhecedor de que os seus exércitos se encontram desde há dezoito meses apenas a 90 quilómetros  de Paris, apoiado ainda pelo povo alemão nos seus sonhos de mais largas conquistas, não pode perceber por que razão não se aproveitaria das vitórias já obtidas. Crê-se assim capaz de ditar as condições de paz, que lhe permitirão empregar os milhares das indemnizações a receber em novos armamentos, com os quais atacará a França quando bem entender, para lhe roubar as colónias e as províncias em disputa do seu território, não mais temendo a sua resistência.

Falar de paz neste momento, é fazer o jogo do ministério de Bülow e dos seus agentes. Pela nossa parte, recusamos em absoluto partilhar das ilusões dalguns dos nossos camaradas a respeito das disposições pacíficas daqueles que dirigem os destinos da Alemanha. Preferimos olhar nos olhos o perigo e procurar os meios de o anular. Ignorar o perigo é aumentá-lo.

No fundo da nossa consciência, a agressão alemã era uma ameaça – executada já – não apenas contra os nossos desejos de emancipação, mas contra toda a evolução humana. É por esse motivo que nós, anarquistas, nós, anti-militaristas, nós, partidários apaixonados da paz e da fraternidade dos povos, nos arregimentámos ao lado da resistência e decidimos não separar o nosso destino do resto da população. Não cremos necessário insistir de que teríamos preferido ver esta mesma população tomar nas suas mãos o cuidado da sua defesa. Tendo isto sido impossível, nada mais restava senão admitir aquilo que não podia ser mudado. E, com aqueles que lutam, nós acreditamos que, a menos que a população alemã, retomando noções de justiça e de direito mais saudáveis, se recuse por fim a servir de instrumento aos projectos de dominação política pan-germanista, não se pode neste momento falar de paz. Apesar da guerra, apesar dos homicídios, não esquecemos que somos internacionalistas, que desejamos a união dos povos e o desaparecimento das fronteiras. E é por desejarmos a reconciliação dos povos, incluindo neles o povo alemão, que nós acreditamos ter o dever de resistir a um agressor que representa a aniquilação de todas as nossas esperanças.

Falar de paz enquanto o partido que durante quarenta e cinco anos fez da Europa um vasto campo de guerra, dando-lhe a possibilidade de ditar as condições de paz, seria cometer o mais desastrado dos erros. Resistir e fazer fracassar os seus planos é abrir caminho para que a parcela mais saudável da população alemã se possa desfazer desse partido. Se os nossos camaradas alemães compreenderem que é esta a saída mais vantajosa para os dois lados, encontram-nos dispostos a colaborar com eles.

[assinam: Christian Cornelissen, Heneri Fuss, Jean Grave, Jacques Guérin, Pierre Kropotkine, A. Laisant, F. Le Lève, Charles Malato, Jules Moineau, Ant. Orfilia, M. Pierrot, Paul Réclus, Richard, Ichikawa, W. Tcherkesoff]

malatesta

Malatesta

2. A RESPOSTA DE ERRICO MALATESTA

Um manifesto acaba de aparecer, assinado por Kropotkine, Grave, Malato e mais doze velhos camaradas, no qual, fazendo eco dos governos aliados, que pedem um derradeiro esforço de guerra, até à derrota da Alemanha, tomam posição contra a ideia duma “paz prematura”. A imprensa capitalista publica, com natural satisfação, extractos do manifesto, anunciando que se trata do labor dos “dirigentes do movimento anarquista internacional”. Os anarquistas, quase todos fiéis às suas convicções, são obrigados a protestar contra a tentativa de implicar o anarquismo na continuação dum massacre feroz, que jamais prometeu trazer qualquer benefício à causa da Justiça e da Liberdade e que, neste momento, se mostra absolutamente estéril e sem resultado, mesmo da perspectiva dos governos, qualquer que seja o lado da barricada em que se situem.

A boa fé e as boas intenções daqueles que subscreveram o Manifesto está fora de questão. Mas, por muito penoso que seja incomodar velhos amigos que tantos serviços prestaram à causa que, no passado, nos foi comum, não podemos, do ponto de vista da sinceridade e do interesse do nosso movimento, deixar de nos separar de companheiros que se sentem em condições de reconciliar as ideias anarquistas e a colaboração com os governos e a classe capitalista de certos países, na sua luta contra os capitalistas e os governos doutros países.

Durante esta guerra vimos republicanos porem-se ao serviço de reis, socialistas fazerem causa comum com a classe dirigente, trabalhistas servirem os interesses capitalistas. De qualquer modo, todos eles, em maior ou menor grau, são conservadores, acreditando na missão do Estado, e a sua hesitação pode entender-se quando a única solução reside na destruição de  qualquer entrave governamental e no desencadear da revolução social. Esta hesitação é porém incompreensível no caso dos anarquistas. Nós aceitamos que o Estado é incapaz de qualquer bem. Tanto do ponto de vista internacional como do das relações pessoais, ele não pode combater a agressão senão tornando-se ele mesmo agressor. Ele não pode afinal impedir o crime, a não ser cometendo crimes ainda piores. Mesmo na hipótese – o que está longe da verdade – da Alemanha ser a única responsável da presente guerra, está provado que, com os meios governamentais, não lhe será possível responder, a não ser suspendendo toda a liberdade e ressuscitando o poder de todas as forças da reacção.

Deixando de lado a revolução popular, não há outro meio de resistir à ameaça dum exército disciplinado, senão criando um ainda mais forte e disciplinado exército, o que faz com que os mais severos anti-militaristas, caso não sejam anarquistas, se tornem de forma inevitável em ardentes militaristas. Desta forma, na esperança de esmagar o militarismo prussiano, renunciam ao espírito e às tradições da liberdade, prussianizando a França e a Inglaterra, submetendo-se ao tsarismo e restaurando o prestígio do abalado trono de Itália.

Podem os anarquistas, por um único instante que seja, aceitar este estado de coisas sem renunciar ao direito de se intitularem anarquistas? Quanto a mim, mesmo a dominação estrangeira imposta à força e levando à revolta é preferível à opressão interna aceite amorfamente, quase com reconhecimento, na esperança de que, por este meio, possamos ser poupados a um maior mal. É vão pretender, como o fazem os signatários do Manifesto, que a sua posição está condicionada por acontecimentos excepcionais e que, acabada a guerra, cada um regressará ao seu campo para combater pelo seu próprio ideal. Pois se é necessário, por agora, trabalhar com o governo e o capitalismo de modo a fazer frente ao “perigo germânico”, o mesmo será necessário depois da guerra. Grande que seja a derrota do exército alemão – e não se sabe ainda se ele será derrotado – não será nunca possível impedir os patriotas alemães de sonhar com a vingança e de a preparar; e os patriotas do outro lado, muito naturalmente, do seu ponto de vista, desejarão estar também preparados para dar resposta, não sendo apanhados desprevenidos. Significa isto que o militarismo prussiano está destinado a ser uma instuição permanente e regular em qualquer país. Que dirão então os pretensos anarquistas que desejam hoje a vitória dum dos lados do conflito? Intitulando-se anti-militaristas irão pregar o desarmamento, a recusa do serviço militar e a sabotagem da defesa nacional, para logo, ao primeiro alarme de guerra, se tornarem elementos do recrutamento para os governos, que antes tentaram desarmar e paralisar?

Diz-se que tudo isto chegará ao fim, quando o povo alemão se desfizer dos seus tiranos, cessando de ser uma ameaça para a Europa e destruindo o militarismo na sua pátria. Mas se isto é assim, também os alemães que avaliam que a dominação inglesa ou francesa, para não falar da Rússia tsarista, lhes é tão desagradável como a dominação germânica aos franceses e aos ingleses, desejarão antes de mais que os Russos e os outros se desfaçam primeiro do seu militarismo, desejando entretanto, enquanto isso não acontecer, continuar a tratar do seu exército? Que fazer? Durante quanto tempo será preciso adiar a revolução? E a anarquia? Será necessário esperar eternamente que os outros comecem?

A linha de conduta dos anarquistas está de forma clara traçada pela inexorável lógica das suas aspirações. A guerra devia ter sido impedida pela revolução, ou, ao menos, inspirando aos governos o seu receio. A força e a habilidade faltaram. A paz deverá ser imposta pela revolução, ou, ao menos, pela sua tentativa. Também hoje a força e a habilidade faltam.

Logo não há senão um remédio: fazer mais e melhor no futuro imediato. Mais do que nunca devemos evitar qualquer compromisso, devemos aprofundar o fosso entre os capitalistas e os assalariados, entre os governantes e os governados, devemos incentivar a expropriação da propriedade privada e a desarticulação do Estado, únicos meios para garantir a fraternidade entre os povos, e a Justiça e a Liberdade para todos. Devemos estar prontos para cumprir este programa. Entretanto parece-me criminoso fazer seja o que for para prolongar esta guerra que assassina tantos homens, destrui as riquezas e impede a luta pela emancipação. Parece-me que pregar a “guerra até ao fim” é fazer na verdade o jogo dos governantes alemães, que enganam e inflamam o ardor das pessoas, persuadindo-as de que os adversários querem o esmagamento e a servidão do povo germânico.

Hoje como sempre esta deverá ser a nossa legenda: Abaixo os capitalistas e os governos, todos os capitalistas e todos os governos. Vivam os povos, todos os povos!

(*)  António Cândido  Franco. Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa (1981). Mestre em Literaturas Brasileira e Africanas de Expressão Portuguesa pela mesma Faculdade (1988). Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de Évora (1997). Agregação na cadeira de Cultura Portuguesa I pela Universidade de Évora (2006). Tem publicado dezenas de estudos em revistas portuguesas e internacionais da sua especialidade. Poeta e ensaista, tem para cima de trinta livros publicados. É director e editor da “Ideia”, revista de cultura libertária.

links: http://raforum.info/spip.php?article962&lang=en

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s