(México) Carta a um estudante desaparecido de Ayotzinapa


muro

Há cerca de 15 dias que 43 estudantes mexicanos da cidade de Ayotzinapa estão desaparecidos, depois de terem sido presos pela policia local, no final de uma marcha de angariação de fundos que acabou com tiros da polícia que, na altura, provocaram pelo menos seis mortos. Há relatos de que os estudantes detidos foram posteriormente entregues a um grupo ligado ao narcotráfico. Dois desses pistoleiros revelaram que tinham assassinado 17 dos estudantes e que os tinham lançado numa vala comum. As famílias e os companheiros dos estudantes exigem que tudo seja esclarecido e, até que as provas de ADN sejam concludentes, recusam aceitar a sua morte e responsabilizam as autoridades locais e nacionais pelo seu desaparecimento. Os sites e os espaços alternativos têm-se feito eco destas manifestações de indignação e raiva. Este texto que traduzimos e publicamos é um dos muitos exemplos de uma dor que atravessa todos os meios radicais e alternativos do México e de todo o planeta onde quer que haja alguém que lute em nome da justiça e da liberdade. Em nome da vida, contra as forças do medo e da morte.

caras

Carta a um estudante desaparecido de Ayotzinapa

@oscar_jmoras

Talvez nunca nos venhamos a conhecer pessoalmente, mas eu já te vi; vi-te no cartaz junto aos teus 42 companheiros desaparecidos há uns dias depois de polícias terem disparado contra ti em Iguala; vi-te no pranto da tua mãe e na indignação dos teus amigos que exigem justiça; vi-te na esperança que o teu pai tem de que regresses com vida…

Vi-te, e por um momento, vi-me a mim próprio. Que aconteceria se um dia me fizessem desaparecer como te fizeram a ti? Quem pensaria em mim? De quem seria a busca incansável? A minha mãe, os meus companheiros, os meus amigos e o meu pai por certo agiriam como os teus.

É inevitável que me pergunte isto. Cada dia que passa está mais tipificado o “delito” de se ser jovem ou estudante no México. Quantos desaparecidos mais necessita espe país para dizer: basta! Serão precisas quantas mortes para percebermos? Quanta dor nos está reservada antes de explodir?

Que nos resta se vivemos num país em que as autoridades fazem desaparecer estudantes?

Nunca estive em Ayotzinapa, mas pelas coisas que li sobre esse lugar, era como se já o conhecesse. Personagens como Lucio Cabañas e Genaro Vásquz formaram-se nas suas aulas, e desde esse momento a Escola Normal de Ayotzinapa foi um berço de estudantes críticos e informados que lutavam para mudar a realidade do país e, ainda que o governo a tenha querido encerrar e tenho estado assediada por grupos armados e inclusivamente por reformas educativas que a pretendem desmantelar, tem permanecido de pé na luta pela educação

Por isso te fizeram desaparecer? … por seres uma pedra no sapato de uma educação que nos quer cegos e surdos face às necessidades deste país?

Digo-te que há poucos dias comemorámos o dois de Outurbo de 1968. Manifestámo-nos sem medo, recordando os estudantes caídos nessa ocasião, desejando que essa tragédia não se voltasse a repetir nunca mais. Pode parecer que a história nos está a brincar connosco, mas não é assim, a realidade é que vivemos de novo tempos em que o governo actua impunemente, faz desaparecer e assassina jovens sem deixar rastro, sem nenhum castigo pelo meio.

As datas passam e o calendário continua intacto, recordamos o dois de Outubro, recordamos Acteal, Águas Brancas e mais massacres em que o governo, em conjunto com as forças da orden, geraram dor, raiva e impotência… hoje, ao que parece, vamos juntar uma nova data a esse calendário de memória e de resistência ao esquecimento: Ayotzinapa.

Com comandos e com a força das armas separam-nos uns dos outros.

Quando lí a notícia de que tinham encontrado valas clandestinas perto de Iguala, senti como se me tivessem levado alguma coisa: de início pensei que se tratava da liberdade; depois, imaginei que tinha sido a esperança. Finalmente dei-me conta que nos levaram mais do que isso, fazes-nos falta, faltam-nos 43… enquanto pessoa é mais do que a ideia vaga de liberdade ou da esperança.

Levam-me a dignidade para te poder reclamar vivo. Enchem-nos de impotência e isso dói-nos pessoalmente. Fazes-me falta e necessito, desde a profunda raiva que sinto, encontrar-te com vida e gritar o teu nome, que as minhas mãos te abracem e que abraçando-nos saibamos que há algo mais neste vale de sombras do que o desespero e o desaparecimento.

Dói tanto, tanto, como doem tantas coisas no México. Hoje dói-nos Ayotzinapa… sente-se a tristeza, a impotência, a indignação, a dor e um clamor que exige justiça para ti e para os teus companheiros.

Mas uma justiça a sério, não a pequena justiça que prende apenas quem puxa o gatilho, uma justiça a sério em que o prejuízo é ressarcido, em que os jovens voltam vivos e os culpados – até os mais poderosos – são responsabilizados.

Levaram-te vivo, vivo te queremos!

Abraço-te à distância, irmão, que este abraço não seja o último e que este abraço, onde quer que estejas, te recorde que alguém te procura, que nos fazes falta a mim e a todos.

Atentamente: _________, estudante de algum lugar deste país.

aqui: http://www.proyectoambulante.org/index.php/noticias/nacionales/item/5065-arta-a-un-estudiante-desaparecido-de-ayotzinapa-y-si-un-dia-me-desapareciera-el-gobierno-como-a-ti

ver: http://www.proyectoambulante.org/

http://oaxacatrespuntocero.com/el-mundo-muestra-solidaridad-con-los-normalistas-de-ayotzinapa-fotogaleria/

oaxaca

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