(efeméride) Há 90 anos Ferreira de Castro escrevia no suplemento d’A Batalha sobre Ferrer y Guardia


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Fotografia de Francisco Ferrer y Guardia Fotolito (acetato) a P&B (reprodução) Publicado em papel couché, extratexto, na revista anarquista “A Sementeira”, Lisboa, I série, saída entre 1908 e 1912. (aqui)

A 13 de Outubro de 1909, faz hoje exactamente 105 anos, foi fuzilado na prisão de Montjuic (Barcelona), o pedagogo anarquista e fundador da Escola Moderna, Francisco Ferrer y Guardia, acusado de ter sido o instigador da revolta conhecida como a Semana Trágica de Barcelona em Julho desse mesmo ano.

Nascido a 10 de janeiro de 1859 numa pequena localidade perto de Barcelona, filho de pais católicos, cedo se tornou anticlerical e juntou-se à loja maçónica Verdad, da capital catalã. Apoiou o pronunciamento militar de 1886, que pretendia proclamar a República, mas diante do fracasso deste, Ferrer teve de exilar-se em Paris. Sobreviveu ensinando espanhol até 1901, e durante este período criou os conceitos educativos que aplicaria na sua Escola Moderna e que se baseava na educação integral e livre de todos os jovens, numa altura em que a educação estava reservada ainda para os elementos masculinos das classes possidentes e era sobretudo proporcionada pelos meios eclesiásticos.

O seu fuzilamento teve um grande eco nos meios operários e revolucionários de todo o mundo, nomeadamente na América Latina e em toda a Europa. Em Portugal, os meios anarquistas, então em pleno desenvolvimento, deram amplo destaque à vida e obra de Francisco Ferrer constituindo nos anos que se seguiram muitas escolas (um grande número delas fundadas por associações de classe operárias ou por sindicatos) que adoptaram o método racionalista e libertário da Escola Moderna, dando-lhe continuidade.

15 anos depois do seu assassinato, o escritor Ferreira de Castro, lembrava a figura de Francisco Ferrer nas páginas da edição de 13/10/1924 do Suplemento d’A Batalha, o grande jornal diário do movimento operário português, num artigo que aqui recuperamos.

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Sobre Ferrer…

A morte dos apóstolos e o triunfo das suas ideias….

Este artigo podia começar com as mesmas palavras com que eu principiaria um capítulo das minhas memórias…

Isto porque a morte de Ferrer e a morte de D. Carlos são as únicas sensações vivas, nítidas, que nos arquivos da memória eu guardo da minha infância, tão querida e já tão distante, tão esfumada já nos horizontes da saudade.

Fuzilaram Ferrer… Assassinaram D. Carlos…

O povo da minha aldeia remota, costumado apenas a contemplar o geórgico panorama da terra nativa, não conhecia o monarca que deixou medrar ao seu lado o dragão da tirania, nem tampouco o reformador que adorava a Liberdade. Eu também não os conhecia – a sombra desses dois homens não se havia projectado ainda sob o ciclo dos meus dez anos escassos.

Mas as notícias da morte de D. Carlos, as notícias da morte de Ferrer, chegaram até à aldeia como o regougar dum vulcão, – e sob o vale tranquilo estenderam-se as asas translúcidas dum terror longínquo.

O povo tinha a sensação de quem sabe que, a determinada hora, dar-se-á uma tragédia estranha em ignoto lugar, – uma tragédia que sentimos mas que não podemos evitar, pois ela é apenas uma enunciação; um fluído errante…

Eu senti também esse terror, esse mistério que pairava sobre o povo e que o povo não sabia explicar – pois para ele o mundo terminava para além da pequena serra que debruava a aldeia.

E eu nunca mais esqueci esses dois momentos. E hoje que os posso definir, analisar o ambiente que os gerou, eles vivem ainda intensamente em mim, – um – o de D. Carlos – ligado por estranha coincidência á recordação dum pombal, onde havia pombas brancas, muito brancas e junto às quais eu soube do assassinato do monarca.

D.Carlos foi assassinado em nome da Liberdade, – e já entre os romanos, que ainda hoje detêm certos códices de direito que a justiça contemporânea não desdenha de estudar e seguir, abater a um tirano não era um crime – era uma acção nobre. Brutus era considerado filho de César e deste havia recebido imensas benesses. Mas quando César quis ultrapassar os domínios do próprio despotismo, Brutus não vacilou em assassiná-lo.

Francisco Ferrer y Guardia, ao contrário de D. Carlos, foi fuzilado em nome da Tirania – dessa tirania negra que usa mitra e báculo e que se chama a igreja. A igreja seria a maior vergonha de deus – se deus existisse.

Estas duas anotações feitas á margem das sensações da infância, explicam o terror que envolveu a minha aldeia quando fuzilaram a D. Carlos e a Ferrer – a Ferrer a quem a minha aldeia não conhecia e de quem nunca tinha ouvido falar…

Mas que lugar da península, embora mui remoto, não teve a noção, por um estranho fenómeno de telepatia colectiva, que ao matarem Ferrer tentaram apagar a um vulcão?

Como se esses risíveis bombeiros clericais pudessem exterminar as chamas duma nova ideia! Como se eles pudessem deter essa torrente incandescente de lava que principiava a invadir tudo e que não se deteve ainda!

Há mortes que são precisas – a morte dos apóstolos de qualquer ideia. A igreja, ao mandar fuzilar a Ferrer, em nome de velhas doutrinas, lavrou a sentença de morte dessas próprias doutrinas e deu vida àquelas que Ferrer defendia.

A igreja crucificou-se mais uma vez sob essa cruz de ignomínia e de olvido que ela quis erguer para Ferrer. E a Espanha clerical e burguesa viu a sua atitude repudiada por todo o mundo culto. E as ideias da vítima tiveram novos adeptos, encontraram novos horizontes. Marcharam para o triunfo.

É-me consolador assinalar isto, agora que passa o aniversário da morte de Ferrer, – agora que a Espanha comemora a descoberta da América, onde ela desfraldou impunemente as bandeiras negras da Tirania e da Expoliação.

FERREIRA DE CASTRO

Grafia actualizada

(Agradecimentos a A. Baião pela chamada de atenção para este texto)

*

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desenho representando o fuzilamento de Francisco Ferrer

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manifestação em Bruxelas logo a seguir à execução de Ferrer

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