(David Graeber) O Occupy Democracy não é considerado notícia. Mas devia ser.


Police arrest Occupy Democracy protesters on Trafalgar Square. 21 October, 2014.

davidgraeber_140x140

 David Graeber (*)

“The Guardian”, 27/10/2014

Pode dizer-se muito sobre a qualidade moral de uma sociedade por aquilo que é, ou não é, considerado notícia.

Desde terça-feira passada, a Praça do Parlamento foi embrulhada por uma rede de arame. Numa das cenas mais surreais da história política britânica recente, polícias com pastores-alemães treinados estão de sentinela todos os dias, a distâncias calculadas no relvado, rodeados por uma rede gigante de cercas com três metros de altura – tudo para garantir que nenhum cidadão entre para pôr em prática ilegalmente a democracia. No entanto, algumas grandes agências de notícias consideram que isto não vale uma peça.

O Occupy Democracy, uma nova encarnação do Occupy London, tentou usar este espaço para uma experiência de organização democrática. A ideia era fazer com que a Praça do Parlamento voltasse de novo ao objectivo para o qual foi, afinal de contas, originalmente criada: um lugar para reuniões e discussões públicas, na perspectiva de voltar a trazer para o debate público todas as questões ignoradas pelos políticos em Westminster. Foram planeados seminários e assembleias, torres coloridas de bambu e sistemas de som foram colocados no local, a seguir planeavam-se uma biblioteca temporária, cozinha e casas de banho.

Não havia nenhum plano para transformar o local num acampamento de tendas permanentes, que são agora explicitamente ilegais. Na verdade, esta lei é aplicada de forma muito selectiva; a Polícia Metropolitana reage, em geral, com uma piscadela de olho e um sorriso, se os cidadãos acampam na rua enquanto fazem filas, durante a noite, para comprarem o mais recente iPhone. Mas se o fizerem em prol da expressão democrática é absolutamente proibido. Experimente e verá imediatamente a sua tenda derrubada e se tentar alguma forma de resistência, mesmo a mais passiva, é provável que seja preso. Por isso, os organizadores decidiram uma presença simbólica de 24 horas, mesmo que isso significasse dormir na relva debaixo de caixas de papelão devido à chuva de outono.

A resposta da polícia só pode ser descrita como histérica. Lonas usadas para se sentarem na relva foram consideradas ilegais e quando alguns activistas se tentaram sentar nelas foram atacados por dezenas de polícias. Os activistas dizem que lhes torceram os braços e que alguns oficiais lhes cravaram os polegares na carne como forma de provocar uma dor física controlada e com o objectivo de imporem a sua autoridade. As caixas de pizza foram declaradas estruturas ilegais e confiscadas e os chefes ainda mandaram agentes para vigiarem os activistas durante a noite, dizendo-lhes que era ilegal fecharem os olhos.

Por fim, as cercas foram montadas e os cães de guarda apareceram – ostensivamente, para o que os agentes diziam ser uma limpeza planeada, mas que por acaso se prolongou por todos os dias da ocupação. Centenas de participantes foram, deste modo, empurrados para dentro da pequena zona verde a norte da estátua de Churchill, e, mesmo assim, de cada vez que se sentavam para um seminário sobre a reforma financeira ou a planear uma resposta à crise da habitação, eram interrompidos por algum novo pretexto para a intervenção da polícia – alguém tinha um megafone “ilegal”, havia o que parecia ser material de campismo, alguma regra teria sido violada – e esquadrões de polícia invadiam mais uma vez o local.

Poderíamos falar de muitas coisas aqui: o constrangimento evidente da polícia, em comparação com a perseverança e o humor bem disposto dos ocupantes, que à medida que a repressão aumentava também aumentavam continuamente em número e em boa disposição. Mas aquilo de que eu quero realmente falar é sobre a reacção dos media.

A razão pela qual as ocupações de parques são tão importantes é porque todos sabem que eles estão ali. Os activistas ouvem constantemente uma mesma frase de potenciais aliados: “Concordo que houve uma erosão da democracia neste país, que o dinheiro controla tudo, mas o que não sei é: o que posso fazer?” A nossa resposta habitual é: reunir-se com outras pessoas que tenham interesses semelhantes. Quando as pessoas se reúnem surgem invariavelmente ideias brilhantes. Mas é impossível unir as pessoas, a menos que haja um local, um lugar onde se possa sempre ir, 24 horas, sete dias por semana, para conhecer pessoas e começar a conversar e fazer planos. Isto é precisamente o que as nossas autoridades políticas decidiram que os habitantes de Londres nunca mais devem ser autorizados a fazer.

Para que este objectivo seja alcançado, a polícia e os meios de comunicação devem reagir a qualquer ocupação de maneira completamente oposta. A polícia age como se a possibilidade de acampar de forma não-violenta fosse uma ameaça para a própria ideia de existência de um governo civil; centenas de policias são mobilizados numa reacção de quase-pânico; os sagrados espaços públicos deixam de o ser.

Por outro lado, a imprensa oficial – e, neste caso, a BBC e jornais de grande circulação estão a agir como se fossem um braço do governo – tem exactamente a abordagem oposta, insistindo em que estes acontecimentos são tão triviais e sem importância que não há nenhuma necessidade de os noticiar. A mesma imprensa que oferece cobertura total sobre as ocupações pró-democracia e sobre a repressão policial do outro lado do mundo, em Hong Kong, age como se acontecimentos análogos, a nível interno, não tivessem interesse noticioso. É difícil pensar numa história mais dramática do que os confrontos entre a polícia e os manifestantes não-violentos ou a construção de cercas gigantes e a utilização de cães de ataque mesmo ao pé daquela que é considerada a mãe de todos os parlamentos. No entanto, quando eu estive na praça, as únicas câmaras de TV que vi estavam a ser operadas por jornalistas do Irão, Rússia e Qatar.

É preciso que nos perguntemos que significado tem a eliminação pela polícia das assembleias democráticas já não ser considerada notícia. É o muro de silêncio, como a maioria dos activistas suspeita, apenas a continuação do muro real que existe em torno da Praça do Parlamento, uma outra parte da mesma estratégia, ou é o mais perfeito exemplo de cinismo? Os britânicos já não têm o direito à liberdade de reunião. Lamento, mas isso já não é notícia.

Original em inglês: http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/27/occupy-democracy-london-parliament-square

(*) David Graeber é um antropólogo libertário inglês e escreve regularmente no “The Guardian”

tradução Portal Anarquista

Advertisements

2 comments

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s