Há mais cante alentejano para além das modas assépticas que os media espalham por aí


rotunda-S.-Marcos

O cante alentejano é uma referência cultural genuína dos alentejanos, sobretudo daqueles que habitam o sul do Alentejo. São canções que brotam da terra, do trabalho, da relação intrínseca do homem com a natureza e com os seus iguais. Canções de trabalho, mas também de convívio e de baile.

Independentemente das discussões sobre a origem do cante, a verdade é que a canção de protesto e de intervenção, de raiva e luta, só muito tarde chega ao cante alentejano

As primeiras referências escritas e a primeira recolha de modas alentejanas remonta aos finais do século XIX, inícios do século XX na região de Serpa e são feitas pela revista “Tradição”. As modas então recolhidas são todas elas de carácter romântico, religioso ou ligadas às actividades agrícolas e à natureza (aqui).

Desconhece-se se havia outras modas cujas letras reflectissem posicionamentos de ordem social. Mas a imprensa operária e anarco-sindicalista da 1º República não faz qualquer menção ao cante alentejano – o que talvez signifique que as letras de carácter reivindicativo e mais radical, na altura, estivessem arredadas do cante e este fosse apenas uma forma de divertimento e de convívio.

O primeiro grupo coral organizado aparece em Aljustrel, ligado aos mineiros, em 1926 (aqui), numa altura em que o Sindicato dos Mineiros está filiado na CGT e se afirma como anarco-sindicalista. Desconhecem-se, no entanto, as modas que cantavam.

Com o advento do fascismo e o movimento das Casas do Povo o cante alentejano é promovido à categoria de cante etnográfico – talvez pela falta de conteúdo político das letras cantadas –  e, paralelamente a outras expressões musicais de diferentes zonas do país, passa a integrar as manifestações folclóricas do regime fascista.

A partir do pós-guerra, nas décadas de 40/50 a situação começa, no entanto, a alterar-se  e lado a lado com as letras de características românticas ou bucólicas, cantadas nos desfiles oficiais, começam a aparecer outras modas mais ligadas ao trabalho do campo, à emigração, ao desemprego e ao protesto social.

Algumas destas letras já são referidas na década de 50 e a partir daí vão ganhando espaço no cancioneiro alentejano, sobretudo as ligadas à emigração e à dureza dos trabalhos nos campos e nas minas.

Com o 25 de Abril de 1974 – e depois duma fase em que o PCP tenta que letras marcadamente partidárias e de propaganda a alguns dos símbolos que utiliza sejam adoptadas pelos grupos (sem sucesso, diga-se)  – há novos temas que entram na ordem do dia e que se assumem como bandeiras do cante alentejano: a liberdade, o Alentejo, a exploração e a vontade de transformação social por parte dos trabalhadores alentejanos.

No meio das muitas canções que os alentejanos cantam hoje, apenas, talvez, uma dúzia tenha estas características de protesto e de revolta bem assumidas. Algumas delas fazem parte na actualidade do repertório de muitos grupos. Antes, eram cantadas quase em surdina nas tabernas ou lá longe nos campos, sem a presença do manajeiro ou do patrão.

Numa altura em que tanto se fala do cante alentejano, destacamos quatro modas mais marcadamente de protesto, a que juntamos uma quinta, o Hino dos Mineiros, inicialmente cantada em Aljustrel, que é uma adaptação para o cante alentejano de uma canção mineira asturiana (“En el Pozo Maria Luísa”), que por sua vez vai buscar a música – não a letra – a uma canção polaca.

*

Sobre a moda Camponês Alentejano: Nota da página 316 do CPP: 93. CAMPONÊS ALENTEJANO  – M. Giacometti/F. Lopes-Graça (XXV): Moda reivindicativa que denuncia sinteticamente a situação da globalidade de uma classe de camponeses sem terras, compelidos ao trabalho episódico por conta de outros, isto é, os lavradores latifundiários. O texto é pelo menos anterior a 1955, já que Manuel Joaquim Delgado (29/2, p. 32) dele nos dá uma lição coincidente com a nossa. Disc. VaI. de Carvalho, C I, SARL (VIII) (aqui)

Camponês Alentejano

Maldita sociedade
Estás tão mal organizada
Quem não trabalha tem tudo
Quem trabalha não tem nada

Camponês alentejano
Camponês agricultor
Tu trabalhas todo o ano
Dás produto ao lavrador

Dás produto ao lavrador
Tua vida é um engano
É tão triste o teu valor
Camponês alentejano

Todo o homem que trabalha
Não deve nada a ninguém
Aquele que nada faz
Deve tudo quanto tem

Camponês alentejano
Camponês agricultor
Tu trabalhas todo o ano
Dás produto ao lavrador

Dás produto ao lavrador
Tua vida é um engano
É tão triste o teu valor
Camponês alentejano

Ponto: José Rosa
Alto: Francisco Pancadas

*

Há lobos sem ser na serra 

Por eu ser alentejano
Alguém me chamou ladrão
Foi o que eu nunca chamei
A quem me roubava o pão

Há lobos sem ser na serra
Eu ainda não sabia
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte
Eu ainda não sabia
Há lobos em toda a parte

Maldita sociedade
Estás tão mal organizada
Quem não trabalha tem tudo
Quem trabalha não tem nada

Há lobos sem ser na serra
Eu ainda não sabia
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte
Eu ainda não sabia
Que há lobos em toda a parte

Ponto: Manuel Pancadas
Alto: Manuel Pontes

*

Que bonito que seria

Eu ia não sei prá’onde
Encontrei não sei quem era
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão
Os homens não se matavam
E davam-se
Como irmãos

É tão linda a liberdade
Até que chegou um dia
Se houvesse compreensão
Então
Que bonito que seria

Não há bem que sempre dure
E nem mal que não acabe
Mas há quem lute pelo fim
Desta nossa liberdade

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão
Os homens não se matavam
E davam-se
Como irmãos

É tão linda a liberdade
Até que chegou um dia
Se houvesse compreensão
Então
Que bonito que seria

Ponto: António Dias
Alto: Francisco Damas

*

É tão grande o Alentejo

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra,
Vou fumando o meu cigarro,
Vou cumprindo o meu horário
Lançando a semente à terra.

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!…
A terra é que dá o pão,
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido,
À margem, ao sul do Tejo,
Há gente desempregada.
Tanta terra abandonada,
É tão grande o Alentejo!

Trabalha homem trabalha
Se queres ter o teu valor
Os calos são os anéis
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!…
A terra é que dá o pão,
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido,
À margem, ao sul do Tejo,
Há gente desempregada.
Tanta terra abandonada,
É tão grande o Alentejo!

Ponto: José da Conceição
Alto: Manuel Pontes

*

.

Sobre o facto desta canção ter começado a ser cantada pelo Grupo Coral do Sindicato dos Mineiros de Aljustrel, escreve Paulo Guimarães: “Em 1983 escrevi uma pequena diversão literária e que, ao mesmo tempo, se destinava a colocar em circulação junto da população mineira de Aljustrel, com a esperança de poder encontrar ainda testemunhos orais relativos a acontecimentos ocorridos em data anterior aos anos ‘40 do século XIX. Nela compilava as informações que dispunha a partir dos arquivos locais e de alguns escassíssimos testemunhos, como o de Manuel Patrício, antigo trabalhador mineiro e sindicalista, e irmão do militante anarco-sindicalista Valentim Adolfo João,  que tinha falecido em finais dos anos ‘60. Recordo ainda que nessa altura os arquivos da PIDE e do Ministério do Interior estavam inacessíveis. Os acontecimentos eram narrados como nas crónicas antigas e acrescentei-lhe uma introdução puramente ficcional. O texto acabou por ser publicado pelo Sindicato dos Trabalhadores Mineiros da Indústria do Sul e impresso em Beja na tipografia do Diário do Alentejo com uma tiragem de 750 exemplares. A escritora Maria Rosa Colaço parece ter gostado bastante da obra. Fiquei com essa ideia quando a encontrei pouco tempo depois. Este livro acabou por ter um efeito inesperado. Na tentativa de recuperar a memória de algumas músicas do antigo movimento social, introduzi  (p. 46) os versos da canção “Santa Bárbara Bendita” que ficou celebrizada durante a Revolução em Espanha (1936-1938) com a advertência: “estes versos não são conhecidos dos mineiros de Algares e São João & São Domingos.  Pouco depois, passou a integrar o repertório do grupo coral mineiro e voltou a ser cantado onde quer que fossem.” aqui

 Hino dos Mineiros

Nas minas de Aljustrel
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Morreram muitos mineiros
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Morreram muitos mineiros
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá

Eu traga a cabeça aberta
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
que me abriu uma barrena
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
que me abriu uma barrena
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá

Eu trago a camisa rota
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
E sangue dum camarada
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá,vê lá, como venho eu
Lá,lá,lálá,lá,lá,lá
Lá,lá,lálá,lá,lá,lá
E sangue dum camarada
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá

Ó Senhora Santa Bárbara
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Padroeira dos mineiros
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Padroeira dos mineiros
Vê lá, vê lá companheiro
vê lá.vê lá, como venho eu
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá
Lá.lá,lálá,lá,lá,lá

*

A versão asturiana:

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2 comments

  1. Este artigo sofre de imprecisões graves. O estudo é uma arma de quem procura a revolução e a alteração da sociedade.
    As origens do Hino dos mineiros são os operários mineiros do Chile que vieram trabalhar na Península ibérica, sendo que nas minas asturianas a letra nasce depois do acidente no poço de María Luisa nas Astúrias nas minas de carvão. Sendo que se cantava sempre, desde os anos 20 como o hino dos chilenos.
    Existem ainda versões em outras minas Portuguesas, como no Lousal.

    Não querendo entrar em discussões sobre a política na altura, a influencia do PCP no cante não é mais nem menos que a ampla influencia que o mesmo tinha nos operários rurais e mesmo nos operários mineiros.
    O Cante, como canção libertária e sem qualquer amarra (tendo nascido e desenvolvido no trabalho e na taberna) não tem modas assépticas. Todas elas são fruto nascido do ventre do povo alentejano, que tem, em determinado momento, a consciência de classe que tem, e influencia dessa forma o que ao seu redor existe. Por se cantar ao amor, às rosas e aos animais não se quer dizer que não se cante ao trabalho, à exploração ou ao ódio de classe.
    Com o surgimento dos grupos de cante, que ao contrário das modas(que nascem da serra de Portel para baixo onde existiam grandes herdades, ao contrário do norte mais industrializado) têm origem em todo o Alentejo e que mais do que uma forma de passar o tempo e dizer as verdades é um eixo de aproximação do povo alentejano.
    Como é óbvio, se os grupos de cante nascem de necessidades diferentes daquelas que naturalmente nascem as modas, o normal é que aquilo que se grava e se regista foneticamente sejam materiais que apesar de terem uma origem de classe não são, de todo, cantares ao trabalho.
    Para melhor conhecer as modas operárias os registos de Giacometti e mesmo de um curioso menos conhecido de nome Miguel Goméz que nos anos de 74, 75 e 76 registou em audio os cantares e as conversas dos operários agrícolas da margem esquerda do guadiana.

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