Barcelona: balanço do movimento Okupa e a nova ‘lei mordaça’


banc

Só resta desejar que a chispa que o Banc soltou provoque uma grande fogueira ibérica…

Após o despejo atabalhoado de Can Vies em finais de Maio, os okupas de Barcelona estão prontos para afrontar a nova ofensiva do Estado catalão. A resistência do Banc Expropiat mostra que as novas formas de okupação que surgiram em resposta à crise e à austeridade conseguiram juntar um enorme apoio popular em apenas um par de anos.

A campanha #RebuildCanVies (#RefemCanVies) que se seguiu à expulsão de Can Vies foi extramente bem sucedida. Usando a plataforma Verkami, os ocupantes lançaram um pedido de crowdfunding de € 70.000 e receberam quase 90.000 €. O plano para o valor inicial era gastar 40.000 para a reconstrução e 30.000 para garantir recursos a dois grupos (Rereguarda en Moviment e Alerta Solidária), que vão fazer a defesa judicial das 67 pessoas detidas durante a semana de revoltas que se seguiram ao despejo. Tal como o CLE informou , as revoltas ganharam um carácter insurreccional e espalharam-se pela Catalunha. Durante essa semana, a polícia usou um repertório diverso de acções que passaram pela força bruta, a tortura, a intimidação, chegando até a utilizar helicópteros com holofotes por cima da cidade, etc. Estas medidas fascistas foram complementadas com um cerco a cerca de 200 manifestantes depois da marcha de sábado, durante o qual os manifestantes foram privados da protecção de advogados e da presunção de inocência: não foram autorizadas câmaras nem advogados, e os manifestantes foram obrigados a vestir-se como “anti-sistemas”.

Embora a agitação social tenha crescido de maneira previsível durante a crise, ninguém poderia ter previsto que o despejo de Can Vies desencadearia tais revoltas. Mas o que é certo é que, após estes acontecimentos, as autoridades locais souberam que os despejos estão a ameaçar projectos que têm um forte apoio popular. Centros sociais como Can Vies ou El Banc são respostas colectivas e auto-gestionadas à repressão do Estado, que geram e alimentam lutas que se estendem para além das suas fronteiras. Estas respostas constituem também algumas das sementes que estão a criar as raízes de uma nova sociedade. Em Barcelona, vários espaços okupados (e outros não-okupados claro está) criam verdadeiras alternativas ao sistema capitalista que é hoje em dia hegemónico. Foram criadas relações não-comerciais entre diferentes gerações, classes sociais, culturas e géneros, que convivem em relativa harmonia. Em quase todos os lugares onde a crise golpeia, surgem reacções populares, que geralmente produzem esplêndidos resultados.

O iminente despejo de El Banc Expropiat

Desde que El Banc Expropiat de Gràcia  passou a estar ameaçado de despejo, o CSO deixou bem claro que a sua expulsão será acompanhada dos distúrbios habituais. Foi criada uma página web para reunir todas as acções em solidariedade com esta okupação, de forma a criar um registo visual da resistência popular à ordem de expulsão. Por duas vezes, El Banc foi a tribunal e duas vezes o proprietário, a CaixaCatalunya (o quarto maior banco de poupança em Espanha), teve que desistir e renunciar a expulsá-los. Agora, o edifício onde o CSO El Banc se encontra foi vendido a um conhecido especulador barcelonês que, por fim, conseguiu obter dos tribunais a ordem de expulsão. Desde outubro, a assembleia tem vigiado o edifício de dia e de noite, num considerável esforço colectivo para preservar este Centro Social Okupado.

Neste momento, as okupas mais emblemáticas estão actualmente sob a ameaça de despejo. Embora o movimento okupa de Barcelona tenha estado várias vezes numa situação deste tipo, a crise fez aumentar o preço a pagar pela desobediência civil. Ontem, dia 11 Dezembro, a aprovação da “lei da mordaça” veio restringir drasticamente as liberdades civis. Várias ONGs, associações e movimentos sociais uniram-se em oposição a este projecto de lei, sem sucesso. Esta lei inclui novos delitos que podem ser castigados com multas até 600.000€. O simples facto de se estar fisicamente numa okupa poderá levar à aplicação de uma multa desse montante. O despejo de El Banc, que terá lugar agora, depois da aprovação desta lei de âmbito nacional, dará a oportunidade à classe dominante catalã para mostrar o quanto estão realmente comprometidos com a ordem pública e política. Embora os políticos catalães tenham estado a agitar as bandeiras de independência e de liberdade, quando se trata de reprimir os movimentos de base, as diferenças entre PP e CiU são pouco nítidas. O que aparenta ser uma classe dominante dividida é, na verdade, uma força bem unida contra o povo.

El Banc: o precursor de uma nova vaga de okupações

Em 2014 seis novas agências bancárias foram okupadas, a maioria no bairro Eixample, um bairro residencial de classe média em Barcelona. Este bairro ocupa a maior parte do espaço territorial de Barcelona, e anteriormente nunca tinha sido um lugar onde nascessem centros sociais okupados. No entanto, antes das férias de verão, Barcelona viu nascer uma nova okupa por mês, todas elas deste novo tipo (houve outras novas okupações, mas por falta de espaço não podemos descrevê-las aqui). Primeiro, surgiu o Entrebanc em Abril. Já tinhamos escrito um artigo sobre esta okupação, que foi feita em resposta à expulsão da Carbo. Depois, okupou-se La Vaina, La Porka, La Industria, El Rec, e outros. Contados em conjunto com El Banc Expropiat e o Casal Tres Lliris (okupado no contexto da campanha que El Banc fez para evitar a sua expulsão), há agora oito agências bancárias okupadas em Barcelona e já surgiram as primeiras noutras cidades catalãs como Girona e Blanes.

Estes projectos são bastante diferentes entre si, tal como o movimento okupa sempre foi muito diversificado. A pesar disso, têm-se vindo a realizar debates públicos sobre este novo tipo de okupações. El Banc Expropriat mostrou que a estratégia da inclusão pode ser reconciliada com a radicalidade, já que se conseguiu criar um lugar onde os valores libertários são promovidos por pessoas muito diferentes entre si. Os outros grupos também encontraram e okuparam agências bancárias em localizações privilegiadas e estão a ter um sucesso semelhante, tanto com os vizinhos do próprio bairro, como com os diversos movimentos sociais. A expulsão do primeiro “banco” deste tipo, El Banc – que poderá acontecer em breve –  mostrará até que ponto o Estado está empenhado em demolir projectos populares e autogeridos. Só resta mesmo desejar que a chispa que o Banc soltou provoque uma grande fogueira ibérica…

G. (em Barcelona, para o Portal Libertário)

++ Videos do Banc Expropiat

http://vimeo.com/113681131

http://vimeo.com/99287343

http://vimeo.com/99981374

http://vimeo.com/100991316

http://t.co/52LicUxnFa

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