«Anarquismo» , segundo a Enciclopédia Britânica (1910)


Berni-manifestacion-1934-cineciapolitica-4t-com

Por Peter Kropotkin

ANARQUISMO (do grego av e aoxn, contrário à autoridade), é o nome dado ao princípio ou teoria de vida e conduta em que a sociedade é concebida sem governo –a harmonia em tal sociedade é obtida, não pela submissão a leis ou pela obediência a alguma autoridade, mas pela livre concordância estabelecida entre vários grupos territoriais e profissionais, livremente constituídos para a produção e para consumo, mas também para a satisfação da infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado. Numa sociedade desenvolvida segundo estes princípios, as associações voluntárias presentes em todos os campos da atividade humana alargar-se-ão de tal forma que substituirão o Estado em todas suas funções. Elas constituirão uma rede composta por uma variedade infinita de grupos e federações de todas as dimensões e graus, seja  locais, regionais, nacionais ou internacionais, temporárias ou mais ou menos permanentes – para todos os fins possíveis: produção, consumo e troca, comunicações, saúde, educação, protecção mútua, defesa do território, e assim por diante; e, por outro lado, para a satisfação de um número crescente de necessidades científicas, artísticas, literárias e sociais.

Além disso, tal sociedade não seria imutável. Pelo contrário – como acontece em larga escala na vida orgânica –a harmonia seria conseguida pelo facto de cada homem seguir a sua própria razão (pelo argumento) e de constantes ajustes e reajustes para o equilíbrio entre as múltiplas forças e sectores, e este equilibrio seria mais fácil de se obter assim do que com as forças que desfrutam da proteção especial do estado.

Se, pela força da razão, a sociedade fosse organizada segundo estes princípios, o homem não veria limitado o livre exercício das suas capacidades produtivas pelo monopólio capitalista mantido pelo estado; nem seria limitado no exercício da sua vontade por medo de qualquer castigo, ou pela obediência a indivíduos ou entidades metafísicas que conduzem à supressão da iniciativa e ao servilismo da inteligência. O homem seria guiado nas suas iniciativas  pela sua própria vontade, necessariamente marcada pela ação livre e pela interação da sua individualidade com as concepções éticas do meio-ambiente. O homem  estaria assim capacitado para assumir o pleno desenvolvimento de todas as suas faculdades intelectuais, artísticas e morais, sem ser travado pelo excesso de trabalho imposto pelos monopolistas ou pelo servilismo e inércia mental que afecta grande número de pessoas. Assim, ele poderia alcançar a sua plena individualidade, o  que não é possível sob o atual sistema individualista ou sob qualquer sistema de socialismo estatal, o dito volkstaat (estado popular).

Para além disso, os teóricos anarquistas não consideram a sua concepção uma utopia, construída com base num método pré determinado, com base nalguns princípios estabelecidos como postulados. Ela deriva, argumentam, de uma análise das linhas de força que já hoje existem na sociedade e que nada têm a ver com as pequenas melhorias temporárias que o socialismo estatal julga obter através de algumas reformas. O progresso da técnica moderna que simplifica maravilhosamente a produção de todas as necessidades da vida; o espírito crescente de independência e a rápida expansão da livre iniciativa e da franca percepção de todos os ramos de actividades — incluindo aqueles que antigamente eram considerados como atribuições privativas da igreja e do estado — continuamente reforçam o campo das forças que defendem o não-governo.

No que se refere às suas concepções económicas, os anarquistas defendem que o sistema de propriedade privada da terra e a produção capitalista que tem como objetivo o lucro, representam um monopólio que vai ao mesmo tempo contra os princípios de justiça e cumpre qualquer necessidade. Os anarquistas consideram o sistema salarial e a produção capitalista um obstáculo para o progresso. Porém, assinalam também que o Estado sempre foi, e continua a ser, o principal instrumento para que um número reduzido de proprietários  monopolize a terra e para que os capitalistas se apropriem de um volume totalmente desproporcionado do excedente acumulado da produção.

Por isso, os anarquistas, enquanto combatem o atual monopólio da terra e o capitalismo, combatem com a mesma energia o Estado, que é o  principal sustentáculo do sistema. Não combatem esta ou aquela forma de Estado, mas o Estado em si, tanto o monárquico como o republicano. Tendo sido sempre a organização do Estado (na história antiga como na moderna) o instrumento para assegurar os monopólios das minorias dominantes, não pode ser utilizada para a destruição destes monopólios. Os anarquistas consideram, portanto, que entregar ao Estado os principais recursos da vida económica (a terra, as minas, os caminhos de ferro, os bancos, os seguros, etc.) assim como o controle de todos os ramos da indústria, além das muitas funções que já acumula nas suas mãos (educação, religiões apoiadas pelo Estado, defesa do território, etc.), significaria criar um novo instrumento de domínio. O capitalismo de Estado de tipo socialista só aumentaria os poderes da burocracia e do capitalismo. Pelo contrário, o verdadeiro progresso está na descentralização, tanto territorial como funcional, no desenvolvimento do espírito local e da iniciativa individual e na federação livre, a partir do simples para o complexo, ao invés da hierarquia atual que vai do centro para a periferia.

Os anarquistas reconhecem que, como qualquer evolução natural, a lenta evolução da sociedade é seguida às vezes pela evolução acelerada chamada revolução e acreditam que a era das revoluções ainda não se concluiu. Nos períodos de lenta evolução, todavia, dever-se-ia reduzir os poderes do Estado formando organizações em todas as pequenas vilas e cidades ou comunidades locais de produtores e consumidores, assim como federações regionais ou internacionais do mesmo tipo.

Os anarquistas recusam, segundo os princípios expostos, a participar na organização estatal actual e a apoiá-la e a dar-lhe sangue novo. Não pretendem constituir – e convidam os trabalhadores a não fazê-lo – partidos políticos que concorram a eleições para qualquer tipo de parlamentos. Nesta linha, desde a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-1866),os anarquistas têm procurado difundir as suas ideias directamente nas próprias organizações operárias e levá-las à luta directa contra o capital, sem depositar qualquer tipo de fé na legislação parlamentar.

Tirado daqui, com ligeiras adaptações http://www.oocities.org/projetoperiferia6/anarquia_de_kropotkin.htm

piramide_do_capitalismo1

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s