A década de 30 e o terror fascista


 marinheiros_jose_barata_2

A 7 de Junho do presente ano (2014), noticiou-se o falecimento de José Barata, 97 anos, o último sobrevivente da Revolta dos Marinheiros de 1936, contra o fascismo português.

Grandes dores padecem os portugueses que guardam memória da noite fascista, enquanto outros esquecem e branqueiam a Ditadura nascida em 1926, à qual portugueses esclarecidos fizeram frente, até pagando com a sua vida.

  A década inicial da Ditadura Fascista, anos 30, foi um período de extrema violência e eliminação sistemática de opositores de diferentes matizes (republicanos, sindicalistas, comunistas, anarquistas, militares, etc.).

  Em 1932, Salazar, «o Salvador da Nação» é nomeado Presidente do Conselho, aprova uma Constituição, chama ao seu governo de estado novo, concentra em si todos os poderes, cria um único partido, limita os direitos e liberdades, censura e cria em 1933 uma polícia política.

   Entre 1932 e 1943 existiram em Portugal cerca de 12000 presos políticos que foram sujeitos a tortura, viram sua vida privada violentada e dezenas deles foram mortos. Em 1931-32 foram deportados para as ilhas/colónias 1421 opositores: 220 oficiais, 190 sargentos, 257 praças e 114 civis.

  Desde a instauração da Ditadura, em 1926 que ocorreram uma série de revoltas, greves «revolucionárias» e movimentos contra o regime, havendo em 1937 um atentado contra Salazar. Todas essas ações eram violentamente reprimidas: em Agosto de 1931, um desses movimentos focado em Lisboa resulta em 40 mortos, 200 feridos e 600 prisioneiros; a revolta da Marinha Grande, o 18 de Janeiro de 1934, coordenada por sindicatos, acabou de forma sangrenta, com a prisão de bastantes sindicalistas e resistentes: «fomos interrogados, fomos torturados, fomos julgados (…) e deportados para Angra do Heroísmo» (depoimento de António Estrela).

  Em 1936, os marinheiros antifascistas ocupam três navios de guerra para se juntarem à armada republicana espanhola, tentam sair do Tejo, sem sucesso. Serão estes homens que irão inaugurar o então recém-criado Campo de Concentração do Tarrafal/C. Verde (Dipl.ª 23/4/1936). Entre eles José Barata, deportado, condenado a 15 anos de prisão, cumprindo aí 11 anos e depois de operado, cumprindo o resto da pena no Forte de Peniche.

 De 1926 a 1939, foram presos 11 628 opositores: 1511 foram deportados; mortos em combates/lutas contra a Ditadura, 210; mortos nas cadeias, 24 humanos; feridos em combate/lutas 990 portugueses.

 Cândido de Oliveira, recordado pela opinião pública portuguesa como desportista e diretor de «A Bola» foi preso, torturado e deportado para o Tarrafal em 1943. Em jeito de «balanço», legou-nos o seguinte testemunho: nome de deportados que já haviam cumprido o seu tempo de condenação, entre eles, Alfredo Caldeira, que morre lá 4 anos depois de expirada a pena de 2 anos; o nome de vários presos que permaneciam há sete anos nesse campo de morte sem julgamento ou acusação; identifica portugueses deportados, sem julgamento, que haviam combatido o fascismo em Espanha. Segundo Cândido de Oliveira, em 1943, estavam presos no Tarrafal 220 presos, 102 homens sem julgamento ou condenação, 27 deles há mais de 6 anos, 9 há mais de 7 anos. Havia também um «quadro impressionante e inacreditável» de presos que já haviam cumprido a sua pena, quase 50%; nesses Manuel Alpedrinha, condenado a 2 anos de prisão correcional estava enclausurado há 12 anos e 6 meses. ( Testemunho e números disponíveis na «História Contemporânea de Portugal», dir. de João Medina).

  Esse campo de morte, como era conhecido pelos presos, recebeu em Outubro de 1936, os primeiros 150 presos, entre eles, Militão Ribeiro, Francisco Belchior, Francisco José Pereira, Francisco Quintas, Cândido Barja, Augusto Costa. Segundo testemunhos, um médico do campo informou «não estou aqui para curar mas para passar certidões de óbito». Faleceram nesse campo, entre outros, Bento Gonçalves (1942), Mário Castelhano (1940), Alfredo Caldeira (1938), António Guerra (1948), Francisco Pereira, Pedro Matos Filipe, Francisco Esteves, José Alves dos Reis, Damásio Martins Pereira, Edmundo Gonçalves. Em 1939, a polícia do estado criou a «Brigada Brava», destinada a abater presos, no Tarrafal. Em 1949, a Oposição pede a extinção do Tarrafal. Em 1953 o ultimo preso, Francisco Miguel Duarte é transferido para Caxias. Em 1961, o campo da morte, reabre com presos de Angola e Guiné, entre eles Luandino Vieira.

J.Augusto

Bibliografia:

História Contemporânea de Portugal», dir. de João Medina

Presos Políticos Algarvios, Maria Duarte

História, AA.VV

Publicado originalmente no nº 262 do Jornal “A Batalha” (Novembro-Dezembro de 2014)

r_marinheiros_1cinza

Anúncios

2 comments

  1. Reblogged this on Hawaiianbless's space and commented:
    A 7 de Junho do presente ano, noticiou-se o falecimento de José Barata, 97 anos, o último sobrevivente da Revolta dos Marinheiros de 1936, contra o fascismo português.

    Grandes dores padecem os portugueses que guardam memória da noite fascista, enquanto outros esquecem e branqueiam a Ditadura nascida em 1926, à qual portugueses esclarecidos fizeram frente, até pagando com a sua vida.

    A década inicial da Ditadura Fascista, anos 30, foi um período de extrema violência e eliminação sistemática de opositores de diferentes matizes (republicanos, sindicalistas, comunistas, anarquistas, militares, etc.).

    Em 1932, Salazar, «o Salvador da Nação» é nomeado Presidente do Conselho, aprova uma Constituição, chama ao seu governo de estado novo, concentra em si todos os poderes, cria um único partido, limita os direitos e liberdades, censura e cria em 1933 uma polícia política.

    Entre 1932 e 1943 existiram em Portugal cerca de 12000 presos políticos que foram sujeitos a tortura, viram sua vida privada violentada e dezenas deles foram mortos. Em 1931-32 foram deportados para as ilhas/colónias 1421 opositores: 220 oficiais, 190 sargentos, 257 praças e 114 civis.

    Desde a instauração da Ditadura, em 1926 que ocorreram uma série de revoltas, greves «revolucionárias» e movimentos contra o regime, havendo em 1937 um atentado contra Salazar. Todas essas ações eram violentamente reprimidas: em Agosto de 1931, um desses movimentos focado em Lisboa resulta em 40 mortos, 200 feridos e 600 prisioneiros; a revolta da Marinha Grande, o 18 de Janeiro de 1934, coordenada por sindicatos, acabou de forma sangrenta, com a prisão de bastantes sindicalistas e resistentes: «fomos interrogados, fomos torturados, fomos julgados (…) e deportados para Angra do Heroísmo» (depoimento de António Estrela).

    Em 1936, os marinheiros antifascistas ocupam três navios de guerra para se juntarem à armada republicana espanhola, tentam sair do Tejo, sem sucesso. Serão estes homens que irão inaugurar o então recém-criado Campo de Concentração do Tarrafal/C. Verde (Dipl.ª 23/4/1936). Entre eles José Barata, deportado, condenado a 15 anos de prisão, cumprindo aí 11 anos e depois de operado, cumprindo o resto da pena no Forte de Peniche.

    De 1926 a 1939, foram presos 11 628 opositores: 1511 foram deportados; mortos em combates/lutas contra a Ditadura, 210; mortos nas cadeias, 24 humanos; feridos em combate/lutas 990 portugueses.

    Cândido de Oliveira, recordado pela opinião pública portuguesa como desportista e diretor de «A Bola» foi preso, torturado e deportado para o Tarrafal em 1943. Em jeito de «balanço», legou-nos o seguinte testemunho: nome de deportados que já haviam cumprido o seu tempo de condenação, entre eles, Alfredo Caldeira, que morre lá 4 anos depois de expirada a pena de 2 anos; o nome de vários presos que permaneciam há sete anos nesse campo de morte sem julgamento ou acusação; identifica portugueses deportados, sem julgamento, que haviam combatido o fascismo em Espanha. Segundo Cândido de Oliveira, em 1943, estavam presos no Tarrafal 220 presos, 102 homens sem julgamento ou condenação, 27 deles há mais de 6 anos, 9 há mais de 7 anos. Havia também um «quadro impressionante e inacreditável» de presos que já haviam cumprido a sua pena, quase 50%; nesses Manuel Alpedrinha, condenado a 2 anos de prisão correcional estava enclausurado há 12 anos e 6 meses. ( Testemunho e números disponíveis na «História Contemporânea de Portugal», dir. de João Medina).

    Esse campo de morte, como era conhecido pelos presos, recebeu em Outubro de 1936, os primeiros 150 presos, entre eles, Militão Ribeiro, Francisco Belchior, Francisco José Pereira, Francisco Quintas, Cândido Barja, Augusto Costa. Segundo testemunhos, um médico do campo informou «não estou aqui para curar mas para passar certidões de óbito». Faleceram nesse campo, entre outros, Bento Gonçalves (1942), Mário Castelhano (1940), Alfredo Caldeira (1938), António Guerra (1948), Francisco Pereira, Pedro Matos Filipe, Francisco Esteves, José Alves dos Reis, Damásio Martins Pereira, Edmundo Gonçalves. Em 1939, a polícia do estado criou a «Brigada Brava», destinada a abater presos, no Tarrafal. Em 1949, a Oposição pede a extinção do Tarrafal. Em 1953 o ultimo preso, Francisco Miguel Duarte é transferido para Caxias. Em 1961, o campo da morte, reabre com presos de Angola e Guiné, entre eles Luandino Vieira.

    J.Augusto

    Bibliografia:

    História Contemporânea de Portugal», dir. de João Medina

    Presos Políticos Algarvios, Maria Duarte

    História, AA.VV

    Publicado originalmente no nº 262 do Jornal “A Batalha” (Novembro-Dezembro de 2014)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s