Por detrás do acordo Cuba-EE.UU.


A young woman stands near mural of late revolutionary hero Che Guevara in Havana Jovem cubana junto a um mural com a imagem de “Che” Guevara, em Cuba, numa foto de segunda-feira, 22 de dezembro de 2014, após os Estados Unidos anunciarem o fim de 50 anos de embargo contra a ilha . REUTERS/Enrique De La Osa

Isbel-díaz-torres-Foto-Yusnaby

 

Isbel Díaz Torres *

(Tomado de Havana Times) A notícia do restabelecimento de relações entre os governos de Cuba e os Estados Unidos surpreendeu quase todos, mas talvez menos aos que vínhamos, desde há algum tempo, a informar sobre o processo de reconstrução capitalista na ilha.

Certamente, o actual acordo deveria ajudar a eliminar as medidas de ingerência do governo norte-americano, sobretudo o bloqueio unilateral contra a ilha, mas isso não significa que a Casa Branca tenha abandonado os seus propósitos imperialistas e a sua imposição de modelos económicos e políticos ao resto do mundo.

A própria declaração divulgada recentemente critica a situação anterior, mas não os seus fins. De tal modo que insiste na “implantação de mudanças em Cuba” e no financiamento da “programação da democracia em Cuba”.

 “A administração continuará a implementar programas dos Estados Unidos, visando promover uma mudança positiva em Cuba”, expressa o posicionamento da Casa Branca que, convenientemente, não foi publicitado pelos meios oficiais da ilha.

O governo cubano sabe isso e, no entanto, o general diz que chegámos a este ponto sem ceder num só dos nossos princípios, quando o que aconteceu foi um gradual abandono dos princípios anti-imperialistas da Revolução Cubana e da vontade da construção socialista.

Este passo nem sequer significa que Cuba se proponha a um processo de democratização e de respeito pelos direitos políticos e civis dos seus cidadãos.

A minha leitura é de que a actual mudança na arena diplomática é, entre outras coisas, um prémio dos Estados Unidos ao governo da ilha pelos seus esforços de normalização e inserção acrítica na ordem mundial e revela a similitude de interesses entre ambos os Estados.

É claro que isso sucedeu pela fé (ou pelos cálculos) dessas instâncias nos benefícios económicos mútuos para as suas elites. A principal força que move os Estados não são “os princípios”.

É evidente que estou a favor que acabem os rodriguinhos com que ambos os governos nos têm mantido alienados durante décadas. Agora tudo está claro e a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) poderá pagar directamente ao governo da ilha, de acordo com o “compromisso de alto nível com os funcionários cubanos”, que a Casa Branca refere no seu comunicado.

Não é por acaso que o tema da promoção da propriedade privada em Cuba (uma das principais exigências explícitas da direita e implícita das elites politicas e económicas aqui) é repetida com insistência nesse documento.

Aproxima-se o momento desejado de entregar a ilha nas mãos do capital de forma a diluirmo-nos nas lógicas predadoras do sistema-mundo. Serão estas melhores do que a ineficácia e o fracasso do modelo cubano?

Sobre outro ponto, gostaria de assinalar o meu apoio à libertação dos presos de ambas as partes, todos “vítimas activas” da guerra fria de ambos os governos. Ao nível humano e familiar tem um grande valor, mas sem importância política.

Na minha opinião trata-se de uma pequena diversão que oculta questões mais preocupantes (dado que são sistémicas), como é a concepção de um processo secreto de negociações, cujos termos não foram tornados públicos.

 “Os Estados todo-poderosos são a única salvação”… “creiam que somos bons”… parece ser o que estão a dizer, ao mesmo tempo que nos desarmam enquanto sociedade, enquanto indivíduos.

Espero que este abandono da utopia (agora explícito) sirva, pelo menos, para a reunificação das famílias cubanas, verdadeiras vítimas deste ódio entre Estados.

Isbel Díaz Torres é um biólogo cubano e uma das figuras cimeiras do actual movimento libertário em Cuba. Blogger, poeta, membro da Rede Observatorio Crítico esteve recentemente detido por promover um debate sobre a nova Proposta de Código de Trabalho num dos parques da Cidade de Havana.

daqui: http://observatoriocriticocuba.org/2014/12/24/detras-del-acuerdo-cuba-ee-uu/

relacionado: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/12/20/cuba-posicao-do-taller-libertario-alfredo-lopez-sobre-os-ultimos-desenvolvimentos-nas-relacoes-entre-cuba-e-os-estados-unidos

Outros links relacionados seleccionados pela revista anarquista galega abordaxe:

– Nota de un miembro del Observatorio Crítico sobre una noticia que no se puede pasar por alto x Rogelio M. Díaz Moreno

– El conflicto entre gobiernos se alivia. El conflicto entre sistemas se agudiza x Rogelio Manuel Díaz Moreno

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