(França) Comunicado da Federação Anarquista e dois outros textos sobre o atentado contra a redacção do Charlie Hebdo


honoré

A Federação Anarquista tomou conhecimento com horror do massacre perpetrado nas instalações do jornal satírico Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos e um número maior de feridos.

Partilhamos a emoção, a indignação e a dor das famílias, dos amigos, dos colegas, depois deste crime odioso. Entre as vítimas, algumas colaboraram em determinada altura no Monde Libertaire, e embora as nossas posições possam ter divergido, eles continuarão na memória de numerosos camaradas.

Este atentado deve-nos relembrar que o obscurantismo religioso enquanto política é assassino.

Nós condenamos os assassinos, mas estaremos igualmente vigilantes face às reacções da extrema-direita ou ao dispositivo policial do Estado.

Nós continuaremos a combater a opressão, o autoritarismo e a intolerância, que se escondem atrás da religião, da nação ou da ordem securitária.

Federação Anarquista, 7 de Janeiro de 2015

*

he-drew-first

Ele desenhou primeiro”, homenagem de David Pope, ilustrador no “Camberra Times”

Nem deus Nem mestre!

Os nossos camaradas do Charlie Hebdo acabam de pagar um pesado tributo pela liberdade de expressão. Vários polícias fazem parte igualmente das vítimas.

Nós prestamos homenagem a todos e a todas estas vítimas.

Os anarquistas são, em geral, ateus. Denunciam desde sempre TODAS as religiões como sendo o ópio do povo. E TODAS as igrejas, dealers deste ópio.

No entanto os anarquistas respeitam a liberdade de crença desde que ela se exerça no quadro duma sociedade laica. O que implica o direito de criticar TODAS as religiões.

Este direito foi hoje posto em causa pelo fanatismo religioso.

Nestas condições, hoje, o nosso dever é de criticar, duma forma ainda mais forte que Charlie Hebdo, TODAS as religiões.

E o dever dos nossos camaradas, amigos, concidadãos ou simplesmente vizinhos, crentes, é de denunciar de forma alta e clara estes assassinatos fascistas.

Grupo J.B Botul – Federação Anarquista

*

Não uivaremos com os lobos!

O atentado cometido esta quarta-feira 7 de Janeiro pela manhã contra o Charlie Hebdo por alguns indivíduos, reclamando-se do Islão, não nos deve fazer perder a capacidade de raciocínio, apesar da emoção, bem compreensível, que nós partilhamos, de muitos camaradas nossos. Se num determinado período o meio libertário, muito em particular a nossa organização, esteve próximo destes herdeiros do Hara Kiri, a sua emanação contemporânea já nos deixou de fazer rir há muito tempo.

Não escolhemos nem vamos escolher entre integristas e desinibidores dum racismo “de esquerda”. Nós não escolheremos entre reaccionários religiosos de que conhecemos bem as práticas qualquer que seja a sua seita e um jornal veiculando a islamofobia debaixo da cobertura da laicidade e da liberdade de expressão. Desde a sua origem a nossa organização combate todas as religiões e as suas emanações integristas venham de onde vierem. Não cairemos na armadilha grosseira da unidade nacional contra “o inimigo comum”.

A nossa solidariedade vai para aqueles que vão sentir o ricochete deste assassinato imbecil e criminoso a mais do que um título. Já se ouviu o tiro de partida para a caçada e o que retém o poder “socialista” de se lhe entregar totalmente é o medo de não serem eles a recolherem os frutos nas próximas eleições. Vemos já florirem os discursos sobre a guerra civil, apenas algumas horas depois deste atentado.

Nós não escolheremos também o terreno duma extrema-esquerda que confunde, na sua estupidez essencialista e politiqueira, realidades tão diversas como o proletariado, o Islão, o racismo, os sem-papéis ou os “jovens da periferia”, fantasiando sobre um alegado potencial revolucionário dos muçulmanos.

Este atentado dá-se num período de estigmatização dos muçulmanos ou assimilados enquanto tal. É preciso relembrar que a islamofobia é um instrumento do poder visando dividir a nossa classe e as suas lutas. Ela não se desenvolve como reacção a um alegado “problema muçulmano”. O movimento anti-Islão alemão “Pegida”, que ganha dimensão, é caracterizado por esta psicose, mas a população “muçulmana” deste país representa menos de cinco por cento da população.

No entanto, é principalmente sobre este sentimento de invasão, “de islamização”, que a extrema direita se estrutura nestes últimos anos. Não temos nenhuma dúvida de que o massacre reaccionário de Charlie Hebdo vai reforçar este fenómeno e dará à FN (Frente Nacional, fascista) e aos seus satélites uma maior legitimidade para defenderem a existência de um conflito étnico como problema de fundo e a escolha nacional como solução.

Neste período conturbado, os anarquistas devemos guardar a cabeça fria e manter uma linha de demarcação clara entre nós e os nossos inimigos: integristas de todas as capelas, xenófobos de esquerda como de direita, sexistas de todos os horizontes e pretensos comunistas virados para a reconciliação nacional e para o inter-classismo.

Grupo Regard noir – Federação Anarquista

Advertisements

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s