(memória libertária) Jornal ‘Avante’ de Évora (1921) publica apelo a favor da revolução russa e contra a ditadura bolchevique


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No dia 14 de Agosto de 1921 o quinzenário eborense “Avante”, propriedade do Grupo Editor Avante, publica um apelo dos anarco-sindicalistas russos para a defesa da revolução russa, mas já muito crítico do regime implantado pelo partido bolchevique. Em Portugal os ecos da revolução russa ainda estavam muito vivos entre os trabalhadores mais conscientes, embora muito deles já se começassem a aperceber de que a nova ditadura “do proletariado” era cada vez mais uma ditadura dos bolcheviques sobre o restante movimento operário e popular. Em Agosto de 1921 já tinha sido esmagada com mão de ferro, por Lenin e Trostky, a revolta dos marinheiros revolucionários de Kronstadt; as prisões já estavam cheias de anarquistas e a maior parte das suas sedes e jornais fechados; é também em Agosto de 1921 que o movimento revolucionário ucraniano liderado por Nestor Makhno é esmagado pelos bolcheviques e os seus principais dirigentes obrigados a deixarem a Ucrânia. Apesar deste contexto, os anarquistas russos tentam ainda salvar a revolução da sua deriva autoritária e pedem apoio internacional. Não o vão conseguir. A ditadura “soviética” reforça-se nos meses e anos que se seguem e muitos milhares de anarquistas e anarco-sindicalistas pagam com a liberdade e com a vida a sua fidelidade aos ideais revolucionários. Uma ditadura que se manterá de pé durante várias décadas, mantendo sempre características imperialistas, que levaram o “comunismo de estado” a implantar-se em diversos países. Já decadente e com menos vigor ideológico e repressivo do que em décadas anteriores, a ditadura dita “soviética” implodiu em finais da década de 80 deixando apenas saudades a alguns sectores mais extremistas e radicalizados do marxismo-leninismo para quem a “União Soviética” era “o sol do mundo”.

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Nestor Makhno

PELA LIBERDADE CONTRA A DITADURA

Um apelo dos anarquistas russos ao proletariado de todos os países

Camaradas: a guerra imperialista de quatro anos e a guerra civil que dura quási três reduziram o nosso país a um estado de completa miséria.

A guerra civil, que tem esgotado todas as energias da Russia revolucionária, não é motivada somente pela contra-revolução interna, nem somente pela burguesia russa; os maiores responsáveis desta guerra são os governos rapaces da entente, que não perdem ocasião, por pequena que seja, de procurar esmagar a nossa revolução.

A Entente atacava-nos e continua a atacar-nos, directa e indirectamente. Ela apoderava-se ha pouco do  norte da Rússia; ela sustentava abertamente, as legiões tchecoslavas na Sibéria; ela mantinha Koltchak, Denikine e Yudenitc; ela ajudava contra nós os pequenos estados vizinhos, e ela, com o seu infame bloqueio, impunha a fome a nossos filhos. Mas todos esses árdis e ainda muitos mais, fracassaram ante a resistência e o valor do proletariado revolucionário. Contudo, a Entente, poderosa, dona do mundo, não depôs as armas, não perdeu a esperança de aniquilar a nossa revolução e de restabelecer a pútrida democracia.

Além disso, ajudou o general do antigo império, o barão Wrangel, a congregar as forças contra-revolucionárias; lançou contra nós a Polónia; incitou a Roménia, a Hungria e outros países, e continua ainda fornecendo oficiais, armas e dinheiro a todos os inimigos da Rússia revolucionária.

Companheiros: o nosso heróico povo tem-se extenuado na luta, morre de fome, carece de medicamentos e aspira á paz e á normalização da sua vida económica. Para isso necessita do vosso enérgico socorro revolucionário.

Ajudai-nos, quanto antes!

Nós, anarquistas-sindicalistas da Russia, mau grado as perseguições que sofremos da parte do governo socialista, apesar do nosso completo desacordo com a política do partido governamental, apesar da nossa negação da ditadura do proletariado, quanto mais da ditadura dum partido, ditadura que é um dos grandes factores da desorganização económica e da ausência de vida politica no país, ditadura que mata o espírito de iniciativa e a força criadora deste, nós vos dirigimos um veemente apelo para que nos ajudeis a sustentar a Rússia na sua luta contra a burguesia do mundo inteiro.

Companheiros: Cumpri connosco o dever de solidariedade internacional dos trabalhadores, acabando com a denominação (sic) da vossa burguesia, como nós acabámos com a nossa.

Mas não repitais o nosso êrro: não introduzeis o comunismo de Estado.

Vinde em nosso auxilio!

Não deixeis partir comboios com munições e viveres para os inimigos do proletariado russo, iniciador da revolução mundial; suspendei a produção de armas e munições que a vossa burguesia manda fabricar para os cães danados que lança para a Rússia, foco da revolução mundial; obrigai os governantes a tratar connosco a troca de produtos, enviando-nos máquinas, medicamentos, viveres e vestuários. Mas, o mais completo, o mais decisivo auxilio que podeis prestar-nos, consiste em fazer a revolução nos vossos respectivos países!

Urge o vosso socorro!

Viva a revolução social do mundo!

Abaixo a burguesia e o Estado, incluindo o Estado proletário!

Viva o regime comunista-sindicalista que conduz á comuna anarquista e repele a ditadura!

Viva a Internacional operaria e a Internacional Anarquista!

Àvante! O espirito do comunismo livre desenvolve se sobre a terra!

O Conselho Provisório Executivo da Federação Russa dos Anarquistas-Sindicalistas

MAXIMOFF, E.JARIETOUSE, S.MARKUS.

Avante, nº 2 , Évora 14 de Agosto de 1921

(manteve-se a grafia do texto original)

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