(memória libertária) Custódio da Costa, o anarquista encarregue de dar o sinal para o 18 de Janeiro de 1934 em Lisboa


custódio da costa

Custódio da Costa (Esgueira, 1904 – Lisboa, início dos anos 80) era o anarquista encarregue de fazer explodir uma bomba no Miradouro da Senhora do Monte, na Graça, em Lisboa, às 3 horas da manhã do dia 18 de Janeiro de 1934, sinal combinado para fazer eclodir o movimento contra a fascização dos sindicatos. Não o fez por decisão do Comité Nacional da CGT, uma vez que no dia anterior um atentado comunista contra a linha férrea na Póva de Santa Iria tinha posto a polícia de sobreaviso. Durante todo o dia são mandados telegramas e outra forma de avisos para vários pontos do país informando que o movimento tinha sido suspenso. No entanto, há levantamentos operários em localidades como Almada, Silves e Marinha Grande.

Custódio da Costa, como largas dezenas de militantes e dirigentes da CGT, é preso e será um dos “fundadores” do Tarrafal onde estará encarcerado durante 16 anos. Padeiro, do Sindicato confederal dos Manipuladores de Pão, estará presente no ressurgir libertário após o 25 de Abril de 1974. Ligado ao grupo que edita “A Batalha”, durante vários anos acompanhará as gerações mais novas nas sedes da Angelina Vidal, D. Carlos I ou Álvares Cabral em Lisboa.

Em Janeiro de 1975 dá uma entrevista ao jornalista José A. Salvador (posteriormente autor de um livro sobre José Afonso e mais tarde especializado em vinhos) para o “Diário de Lisboa” sobre o movimento do 18 de Janeiro. José A. Salvador não foge aos preconceitos da época e trata Custódio da Costa como “bombista” quando ele nem sequer accionou a bomba que devia anunciar o 18 de Janeiro e poupa a esse estigma o militante do PCP que, efectivamente, fez explodir a bomba que neutralizou o movimento. Mais grave é quando J.A. Salvador se refere ao anarquismo como promotor do “que lhes cabia, acções armadas e bombistas desligadas dum real movimento de massas”, quando a CGT era o verdadeiro movimento de massas em Portugal, com dezenas de milhar de militantes federados. Nesta altura o PCP, que se terá deixado “ir no bote”, para usar a expressão de J. A. Salvador, fundado em 1921 e “reorganizado” em 1929 (numa das intermináveis purgas e dissensões internas), tinha escassas centenas de militantes e uma estratégia, sobretudo, “putschista”.

De qualquer modo é uma entrevista interessante em que Custódio da Costa, padeiro, sindicalista e operacional do movimento libertário fala abertamente da acção em que esteve envolvido e pela qual esteve preso no Tarrafal durante 16 anos. (Texto não incluído na colectânea sobre o 18 de Janeiro de 1934 coligida pelo Portal Anarquista)

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O “18 de Janeiro de 1934″: uma bomba de 9 quilos em Lisboa

Às primeiras horas do dia 18 de Janeiro de 1934 um homem punha uma bomba de nove quilos no miradouro da Senhora do Monte da Graça. Essa bomba, que deveria deflagrar às três horas da madrugada do mesmo dia, era o sinal que os revoltosos de Lisboa aguardavam para desencadearem o Movimento do 18 de Janeiro. O bombista é ainda hoje vivo, tem 71 anos, e fomos encontra-lo na redacção de “A Batalha”, órgão do Movimento Libertário Português. De seu nome Custódio Costa. De sua justiça as palavras que se seguem:

Em 1933 Salazar publicou um decreto destinado a integrar os sindicatos no sistema corporativo, passando todos os bens para a posse do Estado. Esse decreto devia entrar em vigor a partir do dia 1 de Janeiro do ano seguinte. Para combater esse decreto a C.G.T., com várias entidades «reviralhistas» preparou um grande movimento.

A Confederação Geral do Trabalho, de tendência anarquista, englobava a grande maioria dos sindicatos, e decidiu-se pela organização de acções destinadas a impedir a fascização dos sindicatos. Nesse trabalho viriam a colaborar os comunistas, através do Partido da Comissão Intersindical (C.I.S.), já na altura sob a orientação do P.C.P., além de sindicatos autónomos.

Para assegurar a liberdade sindical a C.G.T. defendeu a realização de uma greve geral em todo o País, a qual seria acompanhada de acções armadas e bombistas destinadas a tomar o poder, quando possível.

Em Lisboa estava previsto assaltar os quartéis e esquadras da polícia às três da madrugada, e apoderarmo-nos das armas e distribuí-las ao povo. Para isso, continuou o militante anarquista, havia vários grupos em todos os bairros da cidade com a missão de fazerem os assaltos. Antes devia fazer-se a sabotagem dos carros eléctricos, que ficariam paralisados nas ruas, à uma da manhã para servirem de trincheira à população, caso a polícia reagisse. A sabotagem não se realizou.

Aqui começa o grande falhanço do 18 de Janeiro. Aqui, ou um pouco antes, ao fim da tarde do dia anterior.

UMA BOMBA LANÇADA A UM POLÍCIA

É Custódio Costa quem narra a ocorrência:

Os bolchevistas tinham de realizar uma concentração para resolver assuntos de actuação relacionados com o movimento. Uma série de indivíduos juntou-se no Largo de Xabregas cerca das seis da tarde, do dia 17. Depois receberam ordens para seguir para um olival em Chelas. Quando iam a caminho, pela estrada de Chelas, viram sair um polícia de casa, que se dirigia para o serviço. Nessa altura, um militante comunista, Ernesto José Ribeiro, lançou uma bomba contra o guarda.

Ernesto José Ribeiro veio a morrer no Tarrafal, tendo-se verificado que nunca foi um militante responsável do P.C.P.. De qualquer modo, a sua atitude desencadeou a imediata repressão das forças de ordem. Na estrada de Chelas e no Largo de Xabregas foram presos vários comunistas, enquanto as esquadras eram desocupadas e encerradas.

Durante seis meses andámos a preparar o movimento e a polícia nunca descobrira a mais pequena coisa. Da nossa gente não foi ninguém preso na altura.

Aqui registe-se um apontamento: A C.G.T. para a organização desta greve havia constituído dois comités. Um, de acção em que sobressaíam o narrador e Mário Castelhano e outro destinado à propaganda. Ora, estas estruturas não tinham relação com os comunistas. Os contactos eram mantidos por M. Castelhano, que seria preso pela polícia de Informação semana antes de eclodir o 18 de Janeiro. Daí, os anarquistas ficaram, no momento, defendidos de prisões. Coisa que seria por pouco tempo.

Regressemos às palavras de Custódio Costa:

Ao mesmo tempo a polícia colocava-se em pontos estratégicos da cidade. Face à bomba de Chelas os camaradas da C.G.T. ainda mandaram comunicados e telegramas para suster o movimento, mas a Marinha Grande não recebeu a comunicação.

Esta decisão da C.G.T. em Lisboa paralisou praticamente todo o aparelho grevista montado para aquele dia em todo o País. Entretanto, na capital todas as brigadas estavam a postos. Só que não ouviram o sinal às três da madrugada para realizarem as suas tarefas, nem receberam instruções nesse sentido por parte dos Comités de Bairro.

As comunicações de Lisboa seriam cortadas na Trafaria, e a respectiva brigada esteve pronta. Em todos os bairros havia brigadas para actuar. Na cidade havia comités em quatro pontos: Campo de Ourique, Rua do Ouro, Rua Fresca a S. Bento e no Jardim Constantino. As funções destes comités eram ligar as bases ao Comité Coordenador do Movimento em todo o País. Não chegaram a funcionar. Em Lisboa, só rebentou uma bomba. Na Póvoa de Santa Iria, numa sabotagem a um comboio feita pelos comunistas e que estes atribuíram aos anarquistas. Eu fazia também parte do Comité da Rua da Fresca.

UM DIA NA VIDA DE UM ANARQUISTA

Custódio Costa foi militante da C.G.T., e do Sindicato dos Operários e Manipuladores de Pão do Distrito de Lisboa. No dia 17 de Janeiro de 1934 saiu do trabalho às onze horas da manhã, como habitualmente. Só que esse era um dia especial:

Saí às onze da padaria e dirigi-me ao encontro de uns amigos a quem entreguei diverso material explosivo. Depois fui ter com o camarada Manuel Henriques Rijo, que me esperava no Largo da Estrela para me entregar uma certa quantidade de balas.

Mais tarde, em local próximo, na Calçada da Estrela, Custódio Costa encontrou-se às 19,30 horas com outros amigos, a quem distribuiu as balas que antes recebera. Nessa altura já tinha acontecido o incidente da estrada de Chelas:

Eu ainda não sabia de nada. A única coisa que notei ao passar junto ao quartel da Estrela é que afastavam as pessoas. Marquei com esses camaradas um encontro para as 23 horas na Cova da Piedade onde lhes entregaria umas bombas de rastilho.

Custódio Costa desce agora a Calçada da Estrela. Passa por S. Bento e não topa nada de especial. Encaminha-se para o Cais do Sodré. Aqui outra missão: entrega mais balas a camaradas da linha de Cascais. Entretanto, são horas da bucha. Entra num tasco. De sande ainda na mão apanha o vapor para a outra banda:

Ia buscar as bombas para distribuir.

As bombas eram preparadas por Manuel Costa (que morreu no Tarrafal). Havia três fundições a trabalhar para isso, no Laranjeiro, numa pedreira. A Custódio Costa cabia comprar os materiais necessários, que armazenava numa loja na Cova da Piedade, facto que viria a ditar a sua prisão.

Às onze da noite encontrei-me com os amigos no local combinado a quem entreguei as bombas. À meia-noite meti-me no vapor de regresso a Lisboa com uma bomba de nove quilos, que seria para dar o sinal do movimento às três da madrugada. A bomba foi posta no miradouro do Monte da Graça.

Depois de colocar o engenho neste local o narrador dirigiu-se à Rua da Fresca, a cujo comité pertencia:

Na rua não encontrei nenhum camarada. Tinham ido para locais desconhecidos. Vi logo que havia coisa. Dei volta aos bolsos e reaguei tudo o que me pudesse comprometer, metendo os papéis numa sarjeta. Segui até ao Largo do Corpo Santo. Aí vi carros eléctricos já patrulhados com elementos da polícia e da G.N.R.. Meti-me num deles, que ia para o Arco do Cego, onde saí para me dirigir para o Largo do Intendente. Encontrei-me então com um camarada que fazia a ligação com o Comité Nacional. Foi ele que me deu a ordem para não deflagrar a bomba da Graça com que se iniciaria o movimento, e quem me contou o que se passara em Xabregas.

A bomba não estoirou. A ditadura salazarista também não.

PRISÕES E LIÇÕES

Todo o movimento do 18 de Janeiro de 1934 foi particularmente preparado pela C.G.T. de orientação anarco-sindicalista. Esta orientação pesou em todo o movimento de tal modo que a ocorrência de Xabregas o deita por água abaixo.

Se os anarquistas tentaram o que lhes cabia, acções armadas e bombistas desligadas dum real movimento de massas, os comunistas deixaram-se ir no bote. Na altura, o P.C.P. apesar da reorganização de 1929, empreendida por Bento Gonçalves, não tinha suficiente penetração nas massas para lhes imprimir uma linha justa. O 18 de Janeiro foi o suicídio da C.G.T. e a possibilidade de o P.C.P. ressuscitar. O partido sofre pouco mais tarde as influências das teorias de Dimitrov e das Frentes Populares de que a França e a Espanha seriam as contraprovas trágicas.

O 18 de Janeiro foi uma fonte inesgotável de prisões. Também aqui a repressão foi bastante clara para nos sublinhar que todos os erros se pagam caro. Ontem como hoje, que o Chile é de agora.

(in “Diário de Lisboa, 18 de Janeiro de 1975“)

Entrevista de José A. Salvador

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Costa 2

 Ficha de Custódio da Costa na PIDE

 

 

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