“Ciutat Morta”: um documentário sobre a tortura e a falsificação de provas pela polícia que está a emocionar Barcelona


Documentário integral. Legendas em castelhano.

Depois de muita resistência por parte das autoridades um canal de televisão catalão emitiu no sábado à noite o documentário “Ciutat morta” (Cidade Morta),  que até agora circulava apenas em circuitos paralelos. O documentário aborda a falsificação de provas e a tortura a que foram sujeitos vários detidos pela polícia de Barcelona depois de alegadamente terem atacado as “forças da ordem” a partir de um antigo teatro okupado na capital catalã. Os incidentes deram-se a 4 de Fevereiro de 2006 e o documentário foi projectado pela primeira vez em Junho de 2013.

A transmissão pelo canal 33 da televisão (apesar de por ordem judicial terem sido cortados cinco minutos da película original) motivou que, mal a emissão terminou, centenas de pessoas, mobilizadas pelas redes sociais, se tenham manifestado, com velas, na praça de Sant Jaume, em homenagem a Patricia Heras (ver mais abaixo).

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Noticia o portal informativo catalão Directa que “desde a Ronda de Sant Pau se fez uma manifestação que atravessou o Raval, encabeçada pelo cartaz de “Basta de brutalidade, basta de impunidade”. Muitos gritos recordavam Juan Andrés Benítez, Ester Quintana e as presas anarquistas. A praça de Sant Jaume estava em silêncio, apesar da chegada de pessoas que gritavam “4F, nem esquecimento, nem perdão!”. Uma vez na praça, a imagem das velas acesas à porta da igreja cortava a respiração. Na primeira fila do acto estavam os familiares e amigos de Patrícia Heras e de Rodrigo, Àlex e Juan.”, vítimas também deste processo.

O documentário trata, com uma grande profusão de fontes e documentos, a repressão ao chamado 4F, em Barcelona. A noite de 4 de Fevereiro de 2006 terminou com uma carga policial no centro da cidade. Foi próximo de um antigo teatro okupado em que se estava a celebrar uma festa. Entre os golpes de cassetete, começaram a cair objectos desde o telhado da casa okupada. Segundo relatou através da rádio o presidente da Câmara de Barcelona poucas horas depois, um polícia que ia sem capacete ficou em coma pelo impacto de um vaso. As detenções que tiveram imediatamente lugar depois do trágico incidente contam-nos a crónica de uma vingança. Três jovens detidos, de origem sul-americana, são gravemente torturados e privados de liberdade durante 2 anos, à espera de um julgamento em que pouco importou quem tenha feito o quê.

De facto, para as autoridades e para o tribunal, pouco importou que o objecto que feriu o polícia tenha sido atirado do telhado quando os jovens estavam na rua. Outros dois detidos naquela noite – Patricia e Alfredo – nem sequer estavam no lugar dos incidentes: foram detidos num hospital perto e considerados suspeitos pela sua forma de vestir. Pouco importava se havia provas ou evidências que tirassem a culpa a todos os acusados. Naquele julgamento não se estavam a julgar indivíduos mas sim todo um colectivo. Tratava-se de um inimigo genérico construído pela imprensa e pelos políticos da chamada Barcelona modelar. Os miúdos detidos naquela noite eram cabeças de turco que encaixavam perfeitamente, pela sua aparência, com a imagem de dissidente anti-sistema: o inimigo externo que a cidade modelar tinha gerado durante os últimos tempos.

Anos depois, dois polícias são condenados a expulsão e a penas de prisão de mais de 2 anos por terem torturado um rapaz negro. A sentença demonstra que os agentes mentem e manipulam provas durante o julgamento. Para encobrir as torturas acusam o jovem de ser traficante de droga, mas o juiz descobre uma montagem: o negro é na realidade filho de um diplomata, do embaixador de Trinidade e Tobago na Noruega. Estes polícias são os mesmos que torturaram os jovens detidos na noite de 4 de Fevereiro de 2006 e que declaram contra eles em tribunal. O modus operandi é o mesmo em ambos os casos. Com uma única diferença: a origem social das vítimas.

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PATRICIA HERAS, A POETA MORTA

Para além da cidade de Barcelona, a personagem principal de ‘Cidade Morta’ é Patricia, que vamos conhecendo através da sua poesia e do testemunho dos seus amigos/as e ex-parceiros sentimentais. Trata-se de uma jovem estudante de literatura, extremamente sensível, que esconde a sua insegurança através de uma estética excêntrica, alimentada por uma cultura queer com que se identifica

A experiência que começa a partir daquela manhã de 4 de Fevereiro de 2006 quando é detida com o seu amigo Alfredo num hospital faz com que a sua vida dê uma volta radical. Dois anos de angústia à espera do julgamento, esgotando todas as poupanças que tinha feito para pagar advogados. Condenada a três anos de cadeia. Para além de destroçarem a sua vida, estes factos fazem disparar a sua actividade literária que vai ficando registada num blog que intitula de forma premonitória: Poeta Morta. Patricia suicida-se durante uma saída da prisão, em Abril de 2011. Este filme pretende homenageá-la.

http://www.lamarea.com/2015/01/18/cientos-de-manifestantes-homenajean-patricia-heras-en-plaza-sant-jaume-tras-la-emision-de-ciutat-morta-en-canal-33/

https://ciutatmorta.wordpress.com/

http://rojoynegro.info/articulo/agitaci%C3%B3n/ti-has-visto-ciutat-morta-piensas-es-una-excepci%C3%B3n

https://www.facebook.com/poetadifunta

https://www.diagonalperiodico.net/la-plaza/25390-miserables-eufemismos-se-llevan-vidas.html

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