Dia: Janeiro 26, 2015

(Curdistão) Milícias populares expulsam o Estado Islâmico para fora de Kobane


curdistão

Kobane escreve nas páginas da História

Por Lusbert (*)

Finalmente, depois de mais de 4 meses de sofrimento, de interesses geopolíticos da NATO e dos Estados Unidos com a cumplicidade da Turquia, depois de Kobane ter estado só contra o monstro do ISIS (Estado Islâmico) e quando, depois de terem entrado na cidade, parecer um facto consumado a queda de Kobane;  depois de duríssimos confrontos, de numerosas baixas e mortes que deixaram mártires nas fileiras das YPG e YPJ, depois dos seus contra-ataques, os quais conseguiram libertar com esforço e perseverança, pouco a pouco, mais território;  desde que finalmente os Estados Unidos decidiram, face à pressão internacional e às manifestações de solidariedade por todo o mundo, mandar-lhes apoio; depois do apoio de algumas forças do Exército Livre Sírio (ELS) e da entrada dos Pershmerga;  podemos hoje, por fim, celebrar uma grande vitória conseguida através do povo em armas. Um povo com uma larga história de lutas atrás de si e que, depois de ter posto em prática o confederalismo democrático, aprofundou a revolução social e a conquista da autonomia democrática.

Neste mapa vemos que no dia 25 de Janeiro o ISIS praticamente desapareceu de Kobane e, segundo fontes posteriores das próprias milícias, a cidade já está livre da presença do ISIS:

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Contudo, esta vitória não significa o fim da história. Depois da guerra, grande parte da cidade está em ruínas, em consequência dos intensos combates que ali se travaram, pelo que terá que haver uma árdua tarefa de reconstrução. Por outro lado, o cenário político será distinto: as alianças tácticas que as YPG e as YPG fizeram com outras forças  político-militares como ELS e os Peshmergas poderiam fazer que o regime de Barzani, do Curdistão iraquiano (alinhado com as potências ocidentais e em certa medida em conflito com o modelo confederalista democrático de Rojava) aumente a sua presença em Rojava, assim como poderiam alterar-se as relações entre Al-Assad e o PYD pela participação do ELS neste cenário. A isto há que juntar outro dado: se os Estados Unidos exigirá alguma coisa pela ajuda que deu às milícias curdas ou meterá o nariz no projecto de autonomia democrática de Rojava. Cabe destacar também que este triunfo não significa sequer o fim do ISIS e muito menos do jihaddismo. Os terroristas do Estado Islâmico continuarão a ser uma ameaça enquanto continuem a chegar às suas fileiras mais militantes e continuem a ter mais apoios e munições.

Apesar de tudo esta vitória é uma grande injecção de moral e anima o resto dos povos do mundo a continuarem a luta pela emancipação social. Para mais é uma grande lição que corrobora o facto da guerra e da revolução se fazerem ao mesmo tempo e que será o povo a ser o seu próprio actor político.

(*) Anarquista social, de tendência comunista libertaria e com certa simpatia pelo anti-desenvolvimentismo e pelo veganismo. Colaborador de regeneracionlibertaria.org

Aqui: http://www.regeneracionlibertaria.org/kobane-escribe-en-las-paginas-de-la-historia

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(a propósito do ‘Charlie Hebdo’) Se a liberdade significa alguma coisa…


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“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.”  George Orwell

Ainda mal começou o novo ano e soubemos, pelas piores razões, da existência em Paris de um semanário satírico chamado “Charlie Hebdo” com uns desenhos gozando com os políticos, a sociedade, a moral, os bons costumes e o santo nome de deus. Um dos seus alvos preferidos é Maomé e, como terá o alcorão uma passagem que torna inviolável o sagrado nome do profeta, foi parar à mira de grupos radicais islâmicos que se sentem ofendidos e declaram uma Fátua (condenação pela lei islâmica usada pelos radicais). O mesmo se passou há uns anos atrás com o escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie, condenado à morte pelo pecado de ter escrito um livro. Já em 2011 a redacção do Charlie Hebdo tinha sido alvo de um ataque com bombas incendiárias que não fez vitimas mas desta vez cinco dos seus jornalistas, incluindo o director Stéphane Charbonnier (Charb), acabaram barbaramente assassinados em meio aos gritos de “Allahu Akbar” (deus é grande) e tiros de metralhadora à queima roupa. Os assassinos são jovens muçulmanos todos eles nascidos, criados e radicalizados em França, “enfants de la patrie” a que dizem ser da liberdade, igualdade e fraternidade.

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