(a propósito do ‘Charlie Hebdo’) Se a liberdade significa alguma coisa…


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“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.”  George Orwell

Ainda mal começou o novo ano e soubemos, pelas piores razões, da existência em Paris de um semanário satírico chamado “Charlie Hebdo” com uns desenhos gozando com os políticos, a sociedade, a moral, os bons costumes e o santo nome de deus. Um dos seus alvos preferidos é Maomé e, como terá o alcorão uma passagem que torna inviolável o sagrado nome do profeta, foi parar à mira de grupos radicais islâmicos que se sentem ofendidos e declaram uma Fátua (condenação pela lei islâmica usada pelos radicais). O mesmo se passou há uns anos atrás com o escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie, condenado à morte pelo pecado de ter escrito um livro. Já em 2011 a redacção do Charlie Hebdo tinha sido alvo de um ataque com bombas incendiárias que não fez vitimas mas desta vez cinco dos seus jornalistas, incluindo o director Stéphane Charbonnier (Charb), acabaram barbaramente assassinados em meio aos gritos de “Allahu Akbar” (deus é grande) e tiros de metralhadora à queima roupa. Os assassinos são jovens muçulmanos todos eles nascidos, criados e radicalizados em França, “enfants de la patrie” a que dizem ser da liberdade, igualdade e fraternidade.

Confesso que mal conhecia o Charlie Hebdo pois, apesar de existir desde os idos de 68 em Paris, o jornal nunca foi além dos 60.000 exemplares, metade vendidos por assinatura e o resto em banca, isto num país de 66 milhões de almas. Luis Pedro Nunes, director de “O Inimigo Público”, talvez o que possa haver de mais parecido por cá, diz o seguinte numa crónica no jornal Público a que, tocando na ferida, intitula “Estaremos mais seguros sem o Charlie Hebdo?”:

“O Charlie Hebdo é, era, sempre foi um teste à tolerância pessoal e das instituições democráticas. Até que ponto aguentamos ser provocados nos nossos “proibidos”, nos nossos “sagrados”? O Charlie Hebdo tinha uma missão que ainda não fomos capazes de lhe reconhecer: a de monitorizar as nossas próprias barreiras mentais. (…) O Charlie Hebdo testava-nos. Ia ao núcleo íntimo do proibido. Dos novos e dos velhos tabus. E por isso era acusado de ser tudo e o seu oposto: racista e homofóbico, anti-religioso e antidireita, antiextremista e antianti. O prazer jocoso profano, iconoclasta e desafiador permitia que sentíssemos o pulso dos nossos novos temores. E dos mais calcados. Era natural que se detestasse o Charlie Hebdo.”

Fiquei mais confortável com o sentimento que alguns dos “cartoons” provocaram, de tanto preconceito e manifesto mau gosto. Também ri a bom rir com outros. A meu ver a ausência de medo em confrontar os poderes e gozar com os preconceitos e complexos enraizados, sejam eles quais forem, é uma característica admirável e é graças a ela que existe a tal liberdade de expressão, uma liberdade que não tem meio termo, ou é ou não é. A polémica em torno do Charlie Hebdo afigura-se assim uma boa oportunidade, para quem não anda cego pelo politicamente correcto, separar o trigo do joio.

Como o mundo é feito de ironias o jornal, que estava com imensas dificuldades económicas, agora esgota a sua primeira edição após o terrível atentado com sete milhões de exemplares para vinte países e com versões em cinco línguas, incluindo o árabe e o turco. Se deus existe eu diria que ele tem sentido de humor. Goste-se ou não temos de reconhecer que numa coisa sempre foram coerentes: criticam tudo e todos, por vezes mais uns que outros, mas ninguém (nem nenhuma religião) escapa à sua sátira mordaz, veja-se o exemplo aqui da sua capa pelo 25 de Abril de 1974 em Portugal.

Não espanta pois a legião de carrascos que surgiram para os condenar após o atentado, alguns culpando os próprios mortos pelo sucedido e pouco faltando para celebrar o “heroísmo” dos assassinos por nos livrarem do incómodo embaraço que aqueles malvados desenhos provocavam. Houve ainda os falsos moralistas que preferiram desviar a atenção assinalando o silêncio perante outras mortes, noutras latitudes, e lembrar que Charlie Hebdo fazia piadas sobre minorias segregadas em França e que isso é alimentar o eurocentrismo e a exploração dessas minorias, denunciando a hipocrisia e dúplicidade de critérios do ocidente. É verdade e o argumento é forte. Discordo, porém, no que ao jornal diz respeito.

Para mim o humor, como o amor, é libertador. Ambos nos elevam, nos ajudam a sermos mais livres, menos estúpidos, mais intensos, e por isso mais humanos. Nenhuma protecção de qualquer minoria, por mais oprimida que seja – sem excepção – pode servir de alibi para abdicar deste pedaço de vida. Não se podem usar todos os meios para atingir os fins, e o fim essencial de acabar com o racismo, a homofobia, o machismo, a desigualdade social não autoriza a pôr fim à liberdade de rir, de tudo. De todos.

A liberdade de um dos sobreviventes do Charlie Hebdo, o Holandês Bernard Holtrop (Willen), declarar aos jornais que agora têm muitos novos amigos como o Papa, a Rainha Elizabeth, Putin. Que lhe dá vontade de rir e que vomita em todos esses novos amigos. Outra coisa não seria de esperar de um homem livre, o nojo desse espectáculo de domingo, 11 de janeiro de 2015, dois milhões de cidadãos, só em Paris, marchando pela liberdade e senhores da guerra de todo o mundo de mãos dadas a François Holland mas numa rua paralela, em segurança separados do povo, a imagem acabada da falsidade hipócrita.

Particular atenção mereceram as declarações do Papa que lá do céu, a bordo do avião papal, falou aos jornalistas sobre o sucedido e se dirigiu ao seu rebanho cá em baixo lembrando os limites à liberdade de expressão quando as crenças dos demais estão envolvidas, dizendo que não há direito a insultar a fé do próximo e usando mesmo a curiosa metáfora do “se insultares a minha mãe levas um soco”. Por outras palavras é o discurso do se usares uma mini-saia provocas e podes ser violada ou se fizeres um desenho a insultar uma religião então podes esperar que te ponham uma bomba no jornal ou vão lá de arma em punho matar-te e quem ali estiver. Um discurso que não passa, digo-o sem rodeios, de uma triste tentativa de justificar o injustificável.

Com pessoas brutalmente assassinados por “delito de expressão” o direito a lembrar é o direito à vida e não os limites à liberdade de expressão. O Papa não devia ter esquecido que, num estado moderno e laico, alguém usar o seu direito à livre expressão para ofender outro, ou a sua fé, dá direito ao ofendido de recorrer à lei e do ofensor ser punido, mas não dá o direito a ninguém, nem ao Papa, de impor limites ao uso dessa liberdade. O que me parece particularmente grave é enviar ao mundo uma mensagem errada e perigosa, em que se culpam as vitimas e se faz a justificação pela “ofensa” de crimes bárbaros cometidos por assassinos psicopatas. Não tenho nada contra a liberdade religiosa de cada um reze ele de pé, sentado, de joelhos ou no chão mas não confundam as coisas, quem entra num jornal armado de metralhadora e mata porque se sentiu ofendido com um desenho é um louco psicópata e não merece qualquer simpatia.

Se o medo leva alguns, talvez habituados a ajoelhar-se, a procurar explicações para tentar justificar o sucedido na lógica do “oprimido” em revolta contra o “opressor” ou do “fiel” lavando a “honra” então que se ajoelhem perante o terror e a barbárie. As declarações do Papa devem servir principalmente para nos lembrar que a liberdade não nasceu nas sacristias mas contra elas, que o direito à blasfémia custou vidas e o medo do inferno embruteceu gerações. Todas as religiões, incluindo o cristianismo, crucificaram a liberdade. Em democracia não se provocam os crentes nos seus espaços, mas nenhuma religião tem o direito de banir a negação, crítica ou sátira do seu deus, através da imagem ou da palavra, fora do adro dos seus templos. Negar o direito à blasfémia é uma cobardia e ao mesmo tempo uma visão de inquisição contra o livre-pensamento.

Alguns argumentarão que o Papa revela simplesmente bom senso mas lembrem-se, usando as palavras de um assumido ateu, que “é desta cobardia, denominada bom senso, que se fazem as vitórias dos que nos querem de joelhos, mãos postas e prostrados perante um ser imaginário. E sempre, e só, o deles.”

Sobre tudo isto achei particularmente útil algo escrito por um filósofo e psicanalista esloveno chamado Slavo Zizek, diz assim:

 “É agora, quando estamos todos em estado de choque depois da carnificina na sede do Charlie Hebdo, o momento certo para encontrar coragem para pensar. Agora, e não depois, quando as coisas acalmarem, como tentam nos convencer os proponentes da sabedoria barata: o difícil é justamente combinar o calor do momento com o acto de pensar.” 

Segui o conselho e escrevi uma pequena carta ao Papa. As minhas desculpas pela linguagem mas faço-o aqui propositadamente e por razões óbvias. Quem se sentir ofendido repare que não mata.

A Sua Santidade,

Sua Santidade Papa Francisco perdoe por favor a ousadia deste pecador mas ouvi a mensagem que enviou do avião papal sobre os limites à liberdade de expressão quando as crenças dos demais  estão envolvidas, que não há direito a insultar a fé do próximo, e era só para lhe dizer que para este seu humilde servo a liberdade de  me exprimir não é negociável, nem um milímetro, nada. Aproveito também para confessar que acabei por perceber a sua mensagem pois adoro morcela com batata doce, e uma linguiçazinha com inhames bem regada a tinto até me dá vontade de louvar a deus, mas uns tipos que rezam de cú para o ar disseram-me que só através da morcela e da linguiça irei arder no fogo do inferno. Senti-me insultado e mandei-os para a puta que os pariu.

Atentamente

João Ângelo Stattmiller (por email)

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